Análise: incêndios causam prejuízos bilionários ao agro
Estudo revela que o agronegócio perdeu R$ 48 bilhões com queimadas em 2024. Prejuízo anual médio dos últimos cinco anos chega a R$ 100 bilhões, com pouca ação efetiva
Um relatório do Banco Mundial revelou o impacto devastador dos incêndios de 2024 no Brasil, com perdas totais estimadas em cerca de 1,5% do PIB, o equivalente a aproximadamente R$ 200 bilhões. O estudo aponta para uma realidade alarmante de prejuízos econômicos, ambientais e de saúde pública, com o agronegócio respondendo por R$ 48 bilhões dessas perdas, somando agricultura, silvicultura e pecuária.
Os dados mostram que foram queimados 12 milhões de hectares de pastos e 4,4 milhões de áreas agrícolas, além de extensas áreas de silvicultura. O valor das perdas em 2024 representa o dobro da média dos últimos cinco anos, indicando uma tendência preocupante de aumento nos prejuízos causados pelos incêndios florestais no país.
Prejuízo recorrente e falta de investimento em prevenção
O relatório destaca um problema crônico: o Brasil perde, em média, R$ 100 bilhões por ano com incêndios. Somando-se os prejuízos de 2019 a 2024, o montante chega a impressionantes R$ 700 bilhões queimados literalmente. Em contraste, o orçamento do governo federal para fiscalização ambiental em 2026 é de pouco mais de R$ 500 milhões, valor que inclui toda a parte de prevenção e combate a incêndios.
A disparidade entre o investimento em prevenção e o prejuízo causado pelos incêndios evidencia um problema estrutural na gestão ambiental brasileira. Além disso, existem problemas de coordenação entre estados, especialmente em regiões de fronteira, onde surgem discussões sobre responsabilidades no combate aos incêndios. Este é um problema generalizado, que afeta desde estados ricos como São Paulo até unidades federativas menores como Amapá, Acre e Roraima.
Impactos na produtividade agrícola e impunidade
As consequências dos incêndios vão além das perdas imediatas. Áreas de pastagem queimadas perdem nutrientes significativos, reduzindo a produtividade futura das terras. Quando o fogo atinge culturas perenes, como o café, podem ser necessários anos para que a área recupere sua produtividade inicial.
Marcelo Brito, colunista do CNN Agro, aponta a impunidade como um dos principais fatores que contribuem para a persistência do problema. "Quem não se lembra do famoso dia do fogo de 2019? Já se vão seis anos, ninguém foi multado, ninguém foi punido, ninguém foi indiciado", destacou. Em média, apenas uma a cada dez multas ambientais são efetivamente pagas, e pouquíssimas pessoas são condenadas por danos ambientais no país.
O colunista ressalta que iniciativas como a do Sindicato Rural de Rio Verde, em Goiás, que implementou um sistema profissional de prevenção e combate a incêndios, incluindo o uso de aviões, demonstram a possibilidade de ações efetivas. No entanto, essas medidas representam custos adicionais para os produtores brasileiros, afetando sua competitividade internacional, já que produtores de outros países não enfrentam despesas similares.