Ocidentais estão ignorando quarentena. Para especialista, avisos não são claros


Emma Reynolds* da CNN
25 de março de 2020 às 06:02
sao paulo coronavirus

São Paulo decreta estado de calamidade pública em meio ao coronavírus

Foto: Amanda Perobelli - 20.mar.2020

Nestes tempos de extraordinária turbulência global, o fim de semana foi uma pausa bem-vinda para muitos. Mas qualquer um que olhe para os ciclistas e corredores que lotam os parques de Nova York, os praticantes de caminhada enchendo as paisagens britânicas e os grupos de amigos nas praias movimentadas da Califórnia não tem ideia de que uma pandemia perigosa tem o mundo em suas mãos no momento.

E, à medida que os casos aumentam, a Itália oferece pistas sobre o que pode vir a seguir.
Quando teve início o surto na Itália, as autoridades passaram a bloquear as áreas afetadas da "zona vermelha" no norte do país. Com o avanço dos casos, o país inteiro foi fechado em 9 de março, com aqueles que violarem as regras ameaçados com multas de 232 dólares e seis meses de prisão.

No entanto, centenas de milhares de italianos receberam notificações policiais por desrespeitar a proibição. Um funcionário da Cruz Vermelha chinesa na semana passada disse que as medidas da Itália (entre as mais rigorosas da Europa) não eram suficientemente duras.

Na sexta-feira, os militares foram convocados para ajudar a aplicar as regras, à medida que as mortes aumentavam e os hospitais afundavam sob a pressão. No final de semana, quando a Itália anunciou mais de 1.400 mortes em um período de dois dias, as autoridades foram obrigadas a emitir restrições ainda mais rigorosas para pessoas e empresas.

Mesmo agora, momento em que a Europa substituiu a China como epicentro do surto, muitos países ocidentais não parecem ter aprendido com o exemplo da Itália.

Em Londres, onde as pessoas se reuniram em parques para aproveitar um fim de semana ensolarado, apesar dos conselhos do governo para ficar em casa, o primeiro-ministro do Reino Unido, Boris Johnson, aumentou a resposta de seu país e basicamente isolou o país na noite de segunda-feira.

“As pessoas só poderão sair de casa para os seguintes fins muito limitados", acrescentou, listando quatro razões pelas quais os cidadãos podem sair: comprar as necessidades básicas, fazer um tipo de exercício por dia, prestar serviços médicos ou ir ao trabalho, se for absolutamente vital.

“Isso é tudo – essas são as únicas razões pelas quais você deve deixar sua casa. Você não deveria encontrar amigos. Se seus amigos pedirem para você se encontrar com eles, diga ‘não’. Você não deve encontrar membros da família que não moram em sua casa".

Boris Johnson acrescentou que a polícia aplicaria a lei, interrompendo reuniões públicas e emitindo multas.

O secretário de Saúde do Reino Unido, Matt Hancock, havia dito anteriormente que os cidadãos que não praticam medidas de distanciamento social aconselhados pelo governo são "muito egoístas", enquanto o governador de Nova York, Andrew Cuomo, descreveu as pessoas reunidas nos parques como um "erradas", "arrogantes" e "insensíveis".

Entretanto, Nick Chater, professor de Ciências Comportamentais da Warwick Business School, disse à CNN que tais avisos não foram longe o suficiente, completando que os líderes ocidentais estavam "muito confusos em suas mensagens" ao fechar gradualmente bares, restaurantes, teatros e escolas na semana passada e pedindo ao público para ouvir os conselhos para ajudar a impedir a propagação do Covid-19.

“Quando as pessoas são aconselhadas com bastante gentileza a fazer alguma coisa, acho que não é um absurdo pensar que elas vão prosseguir e tentar fazer o que não devem de qualquer maneira", disse ele.

“Porque a mensagem que eles estão implicitamente recebendo é que não é tão importante assim – porque se fosse realmente importante, nós diríamos. A gente não diz coisas como 'aconselhamos que você pare no sinal vermelho, aconselhamos que você dirija deste lado da estrada' ... Apenas dizemos que você deve fazer isso. Se não fizer, você violará a lei."

Os governos ocidentais têm relutado em tomar as medidas draconianas de bloqueio que foram rapidamente aplicadas na China após o início do surto de coronavírus. Em vez disso, pessoas em lugares como o Reino Unido, Alemanha e Austrália foram aconselhados pelos governos nacionais a praticar o distanciamento social, e as empresas orientadas a garantir que os funcionários trabalhem em casa sempre que possível.

A Alemanha implementou uma "proibição de contato" em vez de um bloqueio nacional completo, com a chanceler Angela Merkel dizendo em uma entrevista coletiva no domingo que o país proibiria todas as reuniões de mais de duas pessoas, excluindo as que vivem juntas, para "reduzir o contato" e restringir a propagação do vírus.

No final de semana, multidões baixaram nas praias da Califórnia, trilhas e parques, desafiando uma ordem do estado para evitar contato próximo com outras pessoas. A famosa Bondi Beach, na Austrália, estava lotada com milhares de pessoas, até o governo do estado fechá-la ao público no sábado.

A segunda-feira começou com os londrinos horrorizados postando imagens de trabalhadores apertados nos trens do metrô – que agora deveriam servir apenas aos trabalhadores essenciais.



Neil Coyle, deputado da região de Bermondsey, em Londres, twittou a imagem de um trem movimentado e disse que pediu ao governo que "considerasse processar empregadores irresponsáveis assumindo riscos com a vida de outras pessoas e com o NHS [o sistema de saúde público do Reino Unido]".

Nas mídias sociais, as pessoas revoltadas com a situação têm compartilhado imagens de ruas movimentadas e pontos turísticos e rotulado aqueles que ignoram as regras como "Covidiotas". Os turistas vêm inundando comunidades remotas, aumentando o receio de que pequenos hospitais possam rapidamente esgotar sua capacidade.

O Parque Nacional de Snowdonia, no País de Gales, disse que havia registrado o seu "dia mais movimentado com visitantes desde que se tem memória" e apelou ao governo para instituir medidas e orientações mais claras. A mãe do tenista Andy Murray compartilhou uma foto de um trailer dizendo: "Vá para casa".

Então, por que isso não aconteceu? Ontem, o governador da Califórnia, Gavin Newsom, disse aos jovens nas praias: "Não seja egoísta". A primeira ministra da Escócia, Nicola Sturgeon, pediu às pessoas que "façam a coisa certa agora", e o primeiro-ministro australiano Scott Morrison criticou o "desrespeito" das regras de distanciamento social.

Mas Chater diz que esses comentários não são suficientes. “Há uma enorme falha de comunicação", sentenciou. “Observamos a China, também podemos ver a Coreia do Sul, podemos ver que existem estratégias que realmente funcionam, por isso não é puramente teórico.

“Na China, a principal medida foi apenas um bloqueio muito pesado, provavelmente um bloqueio mais pesado do que o estritamente necessário", disse ele. “Mas sabemos que um bloqueio realmente severo funcionará. E, na Coreia do Sul, as pessoas tiveram muito mais liberdade para se movimentar, mas tiveram testes extremamente vigorosos em larga escala. Provavelmente é necessária uma combinação dessas estratégias ".

Na quinta-feira, dia 19 de março, a China não registrou novos casos depois de aprovar restrições rígidas e precoces, embora isso tenha deixado alguns moradores incapazes de deixar seus apartamentos por mais de um mês e colocado a economia em declínio acentuado.

O distanciamento social tem sido a medida mais eficaz para manter baixas as taxas de infecção em Hong Kong, embora os casos tenham voltado a subir nos últimos dias. Os recém-chegados a Hong Kong receberão uma pulseira eletrônica que monitora se eles violam a quarentena.

O Hemingway's, um bar na área de Discovery Bay, em Hong Kong, que tem uma grande população estrangeira, emitiu na semana passada um "aviso para quem volta da Europa" de que imagens de câmeras de segurança de alguém que violem as regras serão enviadas às autoridades.
Alguns países europeus estão agora tomando mais medidas para retardar a propagação do vírus. Na França, milhares de multas foram emitidas para quem infringe as regras, exceto em casos de viagens essenciais para fora, e mais parques e praias estão começando a fechar.

Mas se os líderes querem que as pessoas façam mais, devem torná-lo "obrigatório", diz Chater. Antes que seja tarde demais.

* Steve George, James Griffiths e Sharon Braithwaite, da CNN, também contribuíram para esta reportagem