Vacinas são seguras, mas muitos não tomariam a contra Covid-19; entenda


Emma Reynolds, da CNN
15 de agosto de 2020 às 11:19 | Atualizado 15 de agosto de 2020 às 12:09
Gripe

Muitas pessoas têm dúvidas sobre a eficiência das vacinas

Foto: Governo do Estado de São Paulo - 23.abr.2018

Susan Bailey, uma enfermeira aposentada de 57 anos da Flórida, tomou todas as doses recomendadas e recebe uma vacina contra a gripe todos os anos. É uma apoiadora entusiasmada do candidato à presidência dos EUA Joe Biden – e mais uma entre um número crescente de pessoas em todo o mundo que dizem que não aceitaria uma vacina contra o coronavírus, mesmo se uma estiver disponível em breve.
“Eu não sou antivacina. Meus filhos foram vacinados contra tudo, mas eu não tomaria a vacina da Covid-19 hoje”, disse Bailey à CNN.

“Tenho problemas de saúde pré-existentes. Gostaria de ver estudos suficientes em um período de longo prazo sobre quais são as consequências que a vacina pode trazer”.

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Bailey disse que não confia no presidente dos EUA, Donald Trump, e que mesmo o consenso em torno de uma vacina entre os principais cientistas do mundo e os seis meses de testes prévios seriam apenas “um começo” para persuadi-la a tomá-la. “É muito cedo para mim. Eu acho que 18 meses está de bom tamanho”.

Sua apreensão é ecoada por uma proporção significativa de adultos em todo o mundo, que rejeitam as visões extremadas das comunidades antivacina, mas dizem que têm grandes preocupações sobre uma para o coronavírus.

Neil Johnson, um físico da Universidade George Washington que está estudando o ceticismo sobre as vacinas nas redes sociais, afirmou à CNN que as quatro objeções mais comuns são: segurança; se uma vacina é necessária; confiança no corpo científico e nas empresas farmacêuticas; e incerteza percebida na ciência.

Para ver como a hesitação está disseminada, ele sugere perguntar à sua família e amigos se eles tomariam uma vacina contra Covid-19, caso houvesse uma disponível agora.

“Vai ser surpreendente se você perguntar a dez pessoas e todas disserem sim imediatamente, sem acrescentar nenhuma advertência”, observou.

Dúvidas sobre a vacina Covid-19

Os cientistas dizem que as vacinas são a nossa ferramenta mais eficaz no combate a doenças infecciosas, prevenindo 6 milhões de mortes todo ano. Vários estudos provaram que são seguras. O doutor Anthony Fauci, o maior epidemiologista dos EUA, disse que a aceitação generalizada de uma vacina contra o coronavírus poderia acabar com a pandemia. Um estudo publicado na revista médica The Lancet descobriu que ela era a única maneira de acabar totalmente com os lockdowns.

Mesmo assim, uma enquete online feita em maio pela Associated Press/NORC Center for Public Affairs indicou que metade dos norte-americanos hesitaria em tomar ou recusaria uma vacina. Um estudo realizado por King's College London na semana passada encontrou resultados semelhantes no Reino Unido.

Os números de pesquisas variam. Uma enquete da CNN em maio descobriu dois terços dos norte-americanos tentaria conseguir sozinho uma vacina (sem aguardar um programa de vacinação) caso houvesse uma amplamente disponível a um custo baixo. Resultados preliminares de uma pesquisa feita em 19 países pela organização Convince (Covid-19 New Vaccine Information, Communication and Education) mostram que cerca de 70% dos entrevistados britânicos e norte-americanos tomariam a dose, de acordo com Scott Ratzan, codiretor da Convince e professor da Faculdade de Saúde Pública da City University of New York.

No entanto, o objetivo final das vacinas é criar imunidade de rebanho, o que significa que uma quantidade suficiente da população está imune para tornar rara a propagação da infecção. Segundo explicou o doutor Fauci em junho, uma vacina pode ser de 70% a 75% eficaz, mas se apenas dois terços da população forem vacinados, é “improvável” que essa imunidade coletiva seja alcançada.

Um estudo publicado pela Universidade de Hamburgo em junho constatou que 71-74% das pessoas na Europa e nos EUA precisariam ser vacinadas para obter imunidade coletiva – observando que “os atuais níveis de disposição em tomar a vacina na França, Alemanha e Holanda, em particular, podem ser insuficientes para atingir esse limite”.

O físico Johnson disse que esse era um “problema imenso” – e possivelmente ainda maior do que indicam as pesquisas.

“O que provavelmente deveria ser perguntado é: você receberá a vacina da Covid-19, será o primeiro a tomá-la? E, claro, acho que a resposta para isso será ‘não, vou esperar até que todos tenham tomado’”.
“É normal e sempre há dúvida em relação aos antivax (os antivacinas), mas agora há dúvida suficiente entre essa população indecisa. Estou muito, muito preocupado, não acho que a saúde pública tenha enfrentado esse desafio antes porque não havia mídia social e esse tipo de influência online”.

Propagação global da hesitação

Seringa e pequenos vidros de vacina

Testes para vacinas contra a Covid-19 estão sendo realizados por todo o mundo

Foto: Arek Socha/Pixabay

Embora o ceticismo da vacina tenha sido historicamente um problema na Europa e nos EUA, há sinais de que as dúvidas estão se espalhando. No Brasil – onde empresas britânicas, chinesas e norte-americanas estão conduzindo testes – uma pequena porção de dissidentes se manifestou nas redes sociais contra a “vacina chinesa”. Segundo a Reuters, protestos também ocorreram contra testes clínicos na África do Sul.
Johnson disse à CNN que na África está se espalhando desinformação sobre o programa, dizendo que ele é um disfarce para esterilizar alguns grupos da população. “O medo é realmente enorme nos países em desenvolvimento nesse momento”, contou.

As opiniões estão mudando em todo o mundo. Uma pesquisa de 2018 feita pelo Wellcome Global Monitor descobriu que 95% das pessoas no sul da Ásia acreditam que as vacinas são seguras, mais do que em qualquer outra região. Mas há controvérsias mais recentes. Nas Filipinas, um surto de sarampo no ano passado foi associado a uma forte queda na adesão às vacinas. Ela foi consequência da suspensão, em 2017, de um programa de vacina contra a dengue que, como se descobriu depois, poderia ter potenciais efeitos colaterais.

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Uma reportagem de abril na The Lancet informou que a decisão do Japão em 2013 de parar de recomendar a vacina contra o HPV poderia resultar em quase 11 mil mortes evitáveis de câncer cervical. A Organização Mundial de Saúde disse em 2017 que “alegações não comprovadas” sobre a vacina estavam afetando a cobertura em vários países e poderiam “resultar em danos reais”.

Em uma pesquisa de 2016 do Vaccine Confidence Project da London School of Hygiene & Tropical Medicine, apenas 3% dos indonésios pensavam que as vacinas eram inseguras. Já em janeiro último, uma pesquisa regional que 15% dos pais relutariam em tomar a vacina contra o zika. Uma pesquisa liderada por Auliya Suwantika, professora de farmacologia da Universidade Padjadjaran, descobriu que a cobertura nacional de vacinação diminuiu nos últimos anos, com apenas 58% das crianças indonésias totalmente vacinadas, bem abaixo da meta governamental de 93%.

A pandemia de Covid-19 viu uma redução nas vacinações em todo o mundo, em grande parte atribuídas ao fechamento de escolas e medo de visitar clínicas, mas os pesquisadores disseram que “a hesitação da vacina pode representar um próximo obstáculo”.

Combatendo a oposição

Várias pesquisas e enquetes, incluindo uma da Reuters/IPOS de maio, descobriram que a velocidade de desenvolvimento era a maior preocupação com a vacina contra o coronavírus. A maioria das vacinas leva de 10 a 15 anos para ser desenvolvida.

“A ênfase na velocidade, em apressar uma nova vacina, é claramente um motivo de preocupação”, afirmou Jeremy Ward à CNN. Em maio, Ward publicou na The Lancet em maio um estudo sobre a hesitação em relação às vacinas feita com o consórcio de pesquisa francês Coconel.

A França viu um aumento no ceticismo em relação à vacina em 2009, com apenas 8% de adesão durante a epidemia de gripe suína. A principal preocupação era a velocidade, apesar do fato de haver conhecimento suficiente sobre as vacinas contra a gripe, disse Ward. Em maio (quando a França estava em lockdown e sua epidemia tinha números crescentes), o Coconel descobriu que cerca de um quarto da população ainda se recusaria a tomar uma vacina.

“Acho que o principal fator é a confiança nas instituições”, contou Ward. Segundo ele, os debates sobre o coronavírus na França se tornaram altamente politizados. O estudo do instituto Coconel descobriu que aqueles que votaram em um candidato de extrema esquerda ou extrema direita, ou não votaram, eram muito mais propensos a dizer que recusariam uma vacina.

A Rússia revelou nesta semana sua vacina Sputnik V (nome que faz referência ao satélite da União Soviética de 1957) antes mesmo de ter iniciado um estudo de Fase 3, no qual uma vacina é testada em milhares de pessoas. A China também pulou a Fase 3, aprovando um vacina experimental para uso militar em junho.

Ratzan, codiretor da Convince, disse à CNN que o ceticismo certamente “piorou com os pedidos públicos do presidente Trump para acelerar (o desenvolvimento de vacinas e terapias) e com a ‘corrida espacial’ do Sputnik”.

Sua pesquisa sugere que a Rússia pode ter mais pessoas recusando as vacinas do que qualquer outro país.

A FDA, a agência que regula medicamentos e alimentos nos EUA, disse nesta semana que não está usando atalhos no desenvolvimento de vacinas. O ministro da saúde da França disse que o país não aprovaria uma que não tenha passado nos testes de Fase 3. O governo do Reino Unido disse à CNN que seus testes seguem um caminho predefinido com altos padrões, e que a velocidade foi reduzida para investimento e suporte extras.

Com algumas vacinas, o desenvolvimento foi acelerado pela combinação de estágios. Algumas foram testadas em segurança em animais e humanos em paralelo e outras foram submetidos a testes simultâneos de fase 1/2, o que significa que eles foram testados pela primeira vez em centenas de pessoas, em vez de grupos menores.

A desconfiança geralmente se origina da desinformação disseminada pelos antivacinas - ou mesmo pela Rússia, de acordo com o Departamento de Estado dos EUA e a União Europeia. A desinformação é depois filtrada por todos os tipos de comunidades, como aquelas preocupadas com o bem-estar ou a criação de filhos, e os grupos políticos.

Ratzan, da iniciativa Convince, disse que o problema não é apenas a informação imprecisa, e sim a crescente falta de confiança nas instituições. “Acho que estamos começando a ver esses dois fatores realmente desgastarem a psique pública e a aceitação da vacina vem junto com isso, o que é uma grande preocupação”, opinou.

Um estudo anterior sobre a Covid-19 feito pela Faculdade de Saúde Pública da CUNY descobriu que apenas 42% dos prováveis recusadores da vacina em Nova York seriam influenciados pela aprovação da FDA ou dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDCs).

Diversas pesquisas e relatórios encontraram hesitação entre comunidades negras e de minorias étnicas, que são desproporcionalmente afetadas pelo vírus.

Uma pesquisa conduzida pelas universidades Northeastern, Harvard, Rutgers e Northwestern mostrou que 52% dos entrevistados afro-americanos tendem a buscar uma vacina, em comparação com 67% dos brancos.

“Observando nossas pesquisas com a comunidade na cidade de Nova York, os negros norte-americanos estão mais desconfiados, e com razão”, relatou Ratzan. Ele destacou o famoso caso Tuskegee, no qual homens negros, sem saber, foram incluídos em um experimento de 40 anos a partir de 1932 no qual não foram informados de que tinham sífilis ou receberam tratamento insuficiente.

Ele também se referiu aos temores em torno da esterilização. Relatórios indicam que pessoas com nomes que soam mexicanos eram mais propensas a enfrentar esterilização forçada na Califórnia entre 1909 e 1979.

Hora de se preparar

Campanha de vacinação contra sarampo no Rio de Janeiro

OMS defende conversa mundial sobre as vacinas

Foto: Tânia Rêgo - 1.fev.2020/ Agência Brasil

O doutor Mike Ryan, diretor executivo do Programa de Emergências de Saúde da OMS, disse na entrevista coletiva de quinta-feira (13): “As pessoas precisam ter uma conversa sobre vacinas e uma conversa adequada. Não é uma via de mão única. Não se trata de enfiar coisas goela abaixo das pessoas. É uma questão de se ter uma discussão adequada, boas informações, um bom debate sobre o tema – e assim as pessoas tomarão suas próprias decisões”.

“Acho que a ciência e os governos têm um trabalho a fazer, que é defender a causa. Acho que as comunidades e as pessoas também têm um trabalho a fazer, que é ouvir essa causa, e espero que o resultado disso seja uma vacina bem-sucedida amplamente aceita que poderia pôr fim a essa pandemia”, afirmou o doutor Ryan.

Os especialistas dizem que precisamos de uma estratégia para quando uma vacina é produzida, cobrindo quem a receberá primeiro, como e onde será distribuída, possíveis opções diferentes e como as preocupações serão tratadas.

Em junho, o doutor Fauci disse que havia um amplo plano para chegar às comunidades, mas os detalhes não foram divulgados.

O pesquisador Jeremy Ward enfatizou que não se trata apenas de convencer as pessoas de que a vacina é segura, mas de fazer todo o possível para garantir que ela realmente seja. “Quando você produz uma nova vacina com tanta velocidade, não é apenas uma questão de comunicação, mas também de transparência e tomada de decisões certas”, afirmou.

A Universidade Johns Hopkins produziu um plano para preparar as populações para uma vacina, que cobre as expectativas de informação, conquista da confiança do público, garantia de disponibilidade, comunicação em termos pessoais e o estabelecimento de órgãos independentes para garantir a propriedade pública da vacina.

Grupos comunitários, incluindo a National Black Church Initiative, têm trabalhado para garantir que um número suficiente de afro-americanos participe dos testes de vacinas. O professor Ratzan, da Convince, disse que o envolvimento de membros respeitados da comunidade será vital para garantir que as pessoas sintam “que estão sendo ouvidas, suas preocupações são atendidas e que a vacina que estão recebendo é mantida nos mais altos padrões de segurança e eficácia”.

A linha do tempo é fundamental. Ratzan acrescentou que, quando se lança um novo medicamento, 18 meses podem ser gastos só trabalhando com empresas, grupos de saúde e médicos e pensando em branding, mídia social ou campanhas publicitárias. “Não temos nada disso agora”, disse ele.


(Texto traduzido, clique aqui para ler o original em inglês).