Testes da fase 3 da vacina russa durarão 6 meses, diz diretor de instituto

Diretor do Instituto Gamaleya, da Rússia, participou de audiência da comissão externa da Câmara dos Deputados para ações de combate ao novo coronavírus

Noeli Menezes, da CNN, em Brasília
26 de agosto de 2020 às 12:58 | Atualizado 26 de agosto de 2020 às 14:09
Frascos da Sputnik V, vacina contra Covid-19 aprovada pela Rússia
Foto: Divulgação - 06.ago.2020/ Fundo Russo de Investimento Direto

O diretor do Instituto Gamaleya, da Rússia, Alexander Gintsburg, afirmou nesta quarta-feira (26) que os testes da fase 3 da vacina Sputnik V, a primeira do mundo contra a Covid-19 a receber o registro oficial de um país, durarão seis meses. 

A declaração foi dada em audiência da comissão externa da Câmara dos Deputados para ações de combate ao novo coronavírus.

Segundo o especialista, a vacina foi aplicada inicialmente em sete profissionais que trabalharam em seu desenvolvimento.

Gintsburg afirmou que a vacina Sputnik V precisará ser aplicada em duas doses, com intervalo de três semanas, para garantir a imunização de longo prazo.

Até agora, disse ele, cem funcionários do instituto receberam as duas doses, entre três e cinco meses atrás, e apresentam grande quantidade de anticorpos contra Covid-19.

“As pessoas tomaram por iniciativa própria. Agora, vamos começar a fase 3 de testes, com 40 mil voluntários, durante seis meses. Conforme os resultados, vamos escrever o relatório para receber o registro definitivo do Ministério da Saúde da Rússia.”

Os testes com vacinas têm três fases. A primeira estuda a segurança da imunização em seres humanos. Na segunda, é estabelecida sua imunogenicidade (capacidade de a substância provocar uma resposta imune). A terceira tem por objetivo demonstrar a eficácia.

Somente após a finalização da fase 3 e da obtenção do registro sanitário é que a nova vacina pode ser disponibilizada para a população.

Gintsburg afirmou aos deputados que o método escolhido pela Rússia é seguro e baseado na experiência com outras vacinas, como a do ebola e a da síndrome respiratória do Oriente Médio (MERS).

“No início do ano, quando surgiu a necessidade de criar uma vacina contra Covid-19, com nossa experiência com adenovírus humano, conseguimos chegar a um imunizante em cinco meses.”

Ele explicou que foram utilizados dois vetores de adenovírus inativados, vírus que causa o resfriado comum em humanos, e fragmentos do novo coronavírus para estimular o organismo a produzir anticorpos contra a doença e induzir imunidade a longo prazo.

“Para que o corpo tenha a imunidade de longo prazo, usamos a segunda dose de vacina, quando se entra com outro sorotipo de adenovírus humano. Para que a resposta imune seja melhor”, disse.

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Detalhes técnicos

A participação de Alexander Gintsburg na audiência quase não aconteceu por problemas técnicos. Ele estava conectado no início da sessão, mas saiu antes de falar alegando problemas de conexão com a internet.

Participaram também da audiência o embaixador da Rússia no Brasil, Sergey Akopov, que disse ter “acabado de receber os estudos das fases 1 e 2 de testes da Sputnik V” e não deu informações técnicas da vacina, e o CEO do Fundo de Investimento Direto da Rússia (RDIF), Kirill Dmitriev, que fez um panorama geral sobre o imunizante.

O embaixador prometeu passar à comissão os resultados dos testes das fases 1 e 2. A expectativa é que os documentos sejam enviados ainda nesta semana. 

O diretor-presidente do Instituto de Tecnologia do Paraná (Tecpar), Jorge Callado, que participou da audiência, também não apresentou detalhes técnicos da vacina, apesar de o governo paranaense ter assinado, em 12 de agosto, um memorando de intenções com a Rússia para que a imunização seja aplicada no estado: “Ainda estamos recebendo as informações técnicas dos cientistas russos”, declarou.

No entanto, o presidente da comissão externa, deputado Luizinho (PP-RJ), se disse “frustrado” com a situação, uma vez que em reunião prévia na embaixada russa “tinha ficado acertada a participação do Instituto Gamaleya”. “Sem os dados técnicos, essa reunião perde o sentido”, disse.

Outros parlamentares também reclamaram e Gintsburg restabeleceu a conexão com a comissão.

Outro lado

A assessoria de imprensa da embaixada da Rússia disse que houve problema de conexão desde o início da sessão, mas que era esperado que o especialista conseguisse entrar até o momento em que tinha de falar, de acordo com a programação, o que “infelizmente não aconteceu”. No entanto, completou a assessoria, “quando conseguiu entrar, ele falou tudo o que planejava e respondeu às perguntas dos deputados”.