Trocar arroz por macarrão? Entenda a relação nutricional entre os dois

Especialistas dizem que substituição faz sentido do ponto de vista alimentar, mas ressaltam cuidados para não deixar outros de nutrientes deficientes

Murillo Ferrari, da CNN, em São Paulo
10 de setembro de 2020 às 15:22
Consumidor analisa opções de arroz em supermercado no Rio de Janeiro
Foto: Pilar Olivares - 10.set.2020/ Reuters

Com a recente alta no preço do arroz, muitos consumidores podem se ver obrigados a trocar esse alimento por opções mais baratas.

Na quarta-feira (9), essa ideia foi sugerida pelo presidente da Associação Brasileira de Supermercados (Abras), João Sanzovo Neto. Ele disse que a entidade deve promover uma campanha para que o brasileiro substitua o arroz por macarrão em seus pratos.

Mas será que o consumo desse ou de outros substitutos para o arroz é uma boa ideia do ponto de vista nutricional?

À CNN, a nutricionista Renata Saffioti afirma que o macarrão é, sim, um dos alimentos equivalentes ao arroz pela classificação do Guia Alimentar para a População Brasileira, do Ministério da Saúde.

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“A caraterística principal entre eles, o nutriente principal, é o carboidrato. Tanto do arroz, quanto do trigo (macarrão), da batata, da mandioca, entre outros”, disse. Ou seja, ao analisar apenas o tipo de alimento, a troca faz sentido.

No entanto, Saffioti destaca que a combinação nutritiva entre arroz e feijão não ocorre entre massas e a leguminosa mais presente no prato dos brasileiros.

“O arroz com feijão é uma combinação perfeita entre aminoácidos, que é um nutriente, e partes de proteínas. Arroz e feijão se complementam. Macarrão com feijão não faz essa mesma combinação, nem nutricionalmente nem de sabor”, disse. 

Outro ponto que tanto Saffioti quanto outros profissionais ressaltam é que, ao pensar em comer macarrão no lugar do arroz, não devem ser considerados como opção os macarrões instantâneos.

“Não vale mesmo. Essa troca não faz sentido porque o macarrão instantâneo é frito, completamente diferente do macarrão convencional. E vai trazer mais malefícios do que benefícios, tanto na saúde quanto no bolso”, diz Matheus Motta, nutricionista do WW Vigilantes do Peso.

Atenção aos acompanhamentos

Saffioti alerta também sobre a forma como o macarrão – ou outro substituto do arroz – seria incorporado à alimentação do brasileiro.

“Sem arroz, muito facilmente se tira o grupo alimentar dos feijões, os leguminosos, o que resulta em uma alimentação mais deficiente.”

Uma opção, nesse caso, seria incorporar alimentos como ervilha, lentilha, grão de bico e soja, entre outros, à refeição.

“O importante é trocar o feijão por outra leguminosa. Tem uma receita vegetariana muito comum [neste sentido] que é uma bolonhesa de lentilhas”, diz Motta, ressaltando que outros tipos de feijão, como o fradinho – que não tem caldo – podem combinar mais [com macarrão] porque podem ser consumidos como salada.

“Também tem macarrões feitos de outros tipos de farinha, além de trigo, como farinha de feijão ou de grão de bico. Talvez [seja uma boa ideia] fazer uma alternância entre esses tipos.”

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Ele diz ainda que a variação nos hábitos alimentares, ainda que forçada pela questão financeira, pode gerar resultados positivos.

“É interessante introduzir novos alimentos, não ficar só no arroz e feijão, como lentilha, grão de bico, milho, e ervilha que estão disponíveis e não estão tão caros para ter uma alimentação saudável.”

Arroz incrementado

Os nutricionistas também recomendaram, às pessoas que não pretendem substituir o arroz, o uso de outros alimentos, no momento do preparo, para incrementar a refeição.

Para fazer o arroz “render”, uma ideia simples e não tão cara é cozinhá-lo junto com legumes ou grãos – como cenoura, milho, ervilha, brócolis, chuchu ou abobrinha. 

Dessa forma, o preparo vai ficar ainda mais nutritivo e ganhar, também, em volume.