Como motivar crianças para mais aulas a distância

O processo de incentivo das crianças e adolescentes pode ser mais complexo do que o dos adultos, mas é possível estimular o foco dentro de casa

Elissa Strauss, da CNN
05 de janeiro de 2021 às 11:43 | Atualizado 05 de janeiro de 2021 às 11:55
Adolescente estuda com notebook
Crianças e adolescentes podem ter dificuldades de foco nas atividades escolares em casa no pós-férias
Foto: Annie Sprat via Unsplash

Motivar as crianças a fazer os trabalhos escolares já era bem difícil antes da pandemia.

Não importa o quão habilidosos sejam os professores, e quão inteligentes sejam os planos de aula, a maioria das crianças acha parte das lições de casa extremamente tediosas.

Muitas famílias estão enfrentando esse trabalho enfadonho, agravado agora pelas semanas de liberdade nas férias, durante as quais ninguém pediu ao seu filho para responder a um problema de matemática no Zoom.

Crianças, precisamos que vocês fiquem motivadas. Para seu próprio bem, para que possam retomar seus estudos sem muita luta ou dor. E pelo bem de seus pais, para que possamos trabalhar, cozinhar, limpar, fazer compras e tudo o mais que devemos fazer durante nossas preciosas horas do dia, em vez de ficar o tempo checando se vocês estão prestando atenção na aula online.

A motivação é um mecanismo complexo, que depende de uma mistura de fatores biológicos e sociais. Punições e recompensas podem ajudar a empurrá-las na direção certa. Para desbloquear a motivação de uma criança, no entanto, os pais precisam pensar além de simplesmente fazer as coisas.

Como funciona a motivação

Os sistemas cerebrais por trás da motivação são moldados com o tempo e começam nos primeiros anos de vida. As crianças pequenas precisam de um cuidador solidário para encorajá-las a se arriscar e explorar, e incentivá-las quando acharem uma atividade gratificante. Com o tempo, o prazer que uma criança experimenta ao superar um desafio ou ceder a uma curiosidade reforçará seu desejo de fazer isso continuamente.

Um estudo de 2018 do Center on the Developing Child da Universidade de Harvard explica os mecanismos cerebrais por trás desse processo. Ele aconselha os pais a começarem cedo e se lembrarem de desafiar as crianças – nem pouco, nem de forma exagerada.

“Da infância em diante, é necessário esforço para manter a motivação, mas o sucesso deve ser possível. As crianças perdem a motivação quando uma tarefa é muito fácil, mas também quando é tão difícil a ponto de ser intransponível”, escreveram os autores.

Para deixar as crianças mais motivadas, eles recomendam dar às crianças tanto poder de decisão quanto possível, manter as recompensas ao mínimo enquanto se promove a motivação natural e se lembrar que recursos, tempo e apoio são importantes. “Não é certo dizer que se alguém deseja muito algo, ele ou ela encontrará uma maneira de fazê-lo”. Ou seja, só a vontade não basta.

Leia também:
Excesso de trabalho e pandemia podem desencadear Síndrome de Burnout
Devo fazer atividade física se estiver doente? Saiba como decidir
Moletom, esoterismo e gastronomia são a tendência de 2021, segundo Pinterest

Fazer mais fazendo menos

Criança estudando
Muitos pais não sabem como motivar os filhos para realizar as atividades escolares
Foto: Annie Spratt via Unsplash

O período pós-férias durante uma pandemia não criou as condições ideais para os pais ajudarem os filhos a se motivarem. Quem tem tempo? Os recursos? Capacidade de apoio? Ainda sim, mesmo os pais exaustos e acabados, ou seja, quase todos os pais, podem ajudar as crianças.

Como tantas outras coisas na vida, quando se trata de motivar seus filhos, menos realmente pode ser mais.

Wendy Ostroff, professora associada de ciências cognitivas e do desenvolvimento na Universidade Sonoma State na Califórnia, descobriu que seu filho da sexta série estava tendo dificuldades com o ensino à distância no final do ano passado.

“Ele estava muito ansioso e não conseguia fazer suas tarefas”, contou Ostroff, que também é o autora de um livro sobre educação no ensino fundamental e médio sem edição no Brasil chamado “Cultivating Curiosity in K-12 Classrooms: How to Promote and Sustain Deep Learning”. “Eram muitas peças para ele juntar e essa dificuldade estava atrapalhando toda a nossa família”.

Relutante em ser “aquela mãe”, que fica “pedindo tratamento especial”, a princípio ela se conteve e pediu uma carga mais leve aos professores. Mas, depois de dois meses sem mudança, Ostroff pediu que cortassem as aulas de arte e música que eram difíceis para seu filho.

“Ele passou a ser um menino diferente”, contou.

Ostroff considera que o que viveu foi uma lição importante e espera que outros pais possam fazer o mesmo. Às vezes, com crianças, o truque para a motivação é bem simples: reduzir a carga de trabalho delas. Se seu filho se sente sobrecarregado, é difícil para ele ver seu próprio potencial ou o do seu trabalho.

Dê tempo para brincadeiras

Criança desenhando
Momentos de descontração são essenciais ao aprendizado
Foto: Sigmund via Unsplash

Segundo Ostroff, as crianças não são projetadas para aprender virtualmente, não importa o quão bom seu professor seja e por quanto tempo elas conseguem ficar sentadas. Na verdade, os pequenos aprendem melhor por meio de brincadeiras, interações sociais e colaboração, tudo difícil de conseguir na tela.

“Temos que devolver a alegria de aprender, porque grande parte dela foi embora”, afirmou, explicando que as surpresas e as coisas mais simples ativam o cérebro das crianças.

Para injetar mais ânimo em suas vidas, Ostroff recomenda reservar um tempo durante o dia em que as crianças possam aprender de uma maneira mais lúdica, seja durante a aula ou não. Ouça as crianças, ajude-as a seguir suas próprias curiosidades e se preocupe menos se elas estão dando tudo de si em cada tarefa online.

Às vezes, esse aprendizado pode ser fácil de identificar – talvez seus filhos gostem de astronomia ou de andar de skate – e às vezes é mais sutil. Aprender a lutar contra o tédio e permanecer resiliente em tempos difíceis são habilidades importantes que muitas crianças estão aprimorando agora, disse Ostroff.

Além disso, as crianças que sentem que têm algum controle e tempo para brincar tendem a ser mais felizes, e crianças mais felizes têm mais probabilidade de sorrir e suportar as partes do dia em que não estão entusiasmadas.

“Precisamos de mais diálogo com as crianças e um afrouxamento dos professores e pais, mas infelizmente tudo que temos ao nosso redor trata de endurecê-los e ter medo”, disse ela.

Destaques do CNN Brasil Business:
Preço da comida não deve subir tanto em 2021 — mas vai continuar alto
Reino Unido oferece mais US$ 6,2 bi a empresas para aliviar nova recessão
Salários de até R$ 45 mil: Conheça as profissões mais promissoras para 2021

Ajude as crianças a pensar grande

Para aqueles momentos em que há uma redação que sua filha realmente não quer escrever ou um problema de matemática que seu filho simplesmente não quer resolver, pode ser útil redirecionar a atenção deles para como o aprendizado hoje afetará seu futuro.

Não se trata de falar de sucesso na vida adulta, já que isso pode não parecer inspirador, disse David Yeager, professor associado de psicologia da Universidade do Texas em Austin. Tente motivá-los no contexto de como eles serão mais capazes de ajudar os outros.

“Reformule qualquer frustração ou dificuldade que um aluno esteja tendo como parte de sua contribuição para o mundo. Diga a eles que quanto mais forte for o cérebro, mais eles serão capazes de contribuir para algo maior do que eles”.

Segundo Yeager, isso explora nosso instinto de ajudar os outros e nos enche de hormônios do bem-estar, que tendemos a obter com atos de empatia e altruísmo.

O cérebro humano está programado para obter satisfação com esses atos antes de vermos seus resultados. Trata-se de um truque de motivação mais útil do que se concentrar em tirar uma boa nota ou ganhar muito dinheiro quando crescer, motivações que tendem a causar uma boa sensação muito mais tarde – quando causam.

“Quando você doa para os sem-teto, por exemplo, imediatamente se sente uma boa pessoa, mesmo que eles não recebam dinheiro por dias ou semanas”, comparou Yeager.

Criança estudando em casa
A educação remota tem sido um desafio para muitas famílias em todo o mundo
Foto: Annie Spratt via Unsplash

Para os adolescentes, pode ser especialmente útil ajudá-los a ver como as coisas que aprendem na escola podem ajudá-los a mudar o mundo quando crescerem. Os adolescentes fazem escolhas melhores na vida quando veem essas escolhas como um ato de desafio, de acordo com um estudo de 2016.

Os adolescentes também podem ser motivados por sua fome de encontrar significado. “A nova neurociência da adolescência está mostrando que os cérebros dos adolescentes estão prontos para aprender se virem como isso dá significado às suas vidas”, relatou.

Para as crianças mais novas, Yeager sugere que os pais as incentivem a se esforçarem pelo bem do professor ou professora. Os pequenos costumam se importar com os professores, e fazer o que é certo por eles ajudará a fornecer aquele imediatismo emocional que é um componente-chave para a motivação.

Recompense o processo, não a ação

As recompensas e punições podem ser usadas para todas as idades, mas não para recompensar resultados ou produtividade. Devemos recompensar as rotinas e hábitos que tornam a produtividade possível.

“Não use uma recompensa por completar uma chamada do Zoom com atenção perfeita. Use a recompensa para algo menor, como estar sentado às 8h15 com o laptop aberto”, exemplificou. “Assim, você estará recompensando o hábito, ou a etapa que tornará mais fácil, quase automático, para eles estarem na aula”.

“Faça com que eles executem etapas menores e eles terão maior probabilidade de executar etapas maiores por conta própria”, continuou o professor. No geral, dar pequenos passos é sempre bom ao tentar mudar um comportamento ou atitude.

Os pais podem querer experimentar esses truques motivacionais nesses próprios ao tentar ficar motivados para incentivar os filhos.

Desacelere e veja o que funciona para motivar seu filho nestes tempos difíceis, seja recriar a agenda dele, abrir mais espaço para brincadeiras ou conversar sobre como o esforço de hoje afeta a capacidade de contribuir no futuro.

(Texto traduzido. Leia o original em inglês).