Vacina e infecção prévia podem ser menos efetivas contra nova variante da Covid

A variante foi encontrada pela primeira vez na África do Sul, em outubro, e agora já está em mais de uma dúzia de países

Elizabeth Cohen, correspondente médica sênior da CNN
20 de janeiro de 2021 às 08:35
Enfermeira sul-africana cuida de paciente internado após contrair a variante do coronavírus
Foto: Reuters

Um novo estudo sugere que alguém possa ser infectado com uma das novas variantes do coronavírus ainda que já tenha tido Covid-19 ou tenha sido vacinado.

A variante foi encontrada pela primeira vez na África do Sul, em outubro, e agora já está em mais de uma dúzia de países.

“Eu acho que deveríamos estar em alerta”, disse Penny Moore, professora associada no Instituto Nacional de Doenças Transmissíveis na África do Sul e autora sênior da pesquisa.

“Se baseando nos dados de Penny, é provável que a vacina seja de alguma forma menos eficaz, mas quanto menos, não sabemos”, disse David Montefiore, um virologista no Centro Médico da Duke University, nos Estados Unidos.

Montefiori acrescentou que este é o primeiro estudo que lhe propõe sérias dúvidas sobre se a infecção prévia ou uma vacina protegerão contra uma nova cepa de coronavírus.

“Esta é a primeira vez que eu fico bastante preocupado com uma variante evadir parcialmente da resposta imune e da vacina”, ele disse.

Ambos especialistas enfatizaram que as pessoas ainda devem tomar as vacinas. É extremamente efetiva contra outras formas do vírus e eles acreditam que ainda garante um nível de proteção contra a nova variante também.

 

O estudo foi postado em um servidor pré-publicação e ainda não foi revisado por pares (peer review) ou publicado em uma revista de medicina.

Este é um dos primeiros relatórios a observar os efeitos da variante na potência dos anticorpos. Laboratórios ao redor do mundo estão estudando furiosamente o problema e esperam relatar os resultados nas próximas semanas.

“Eu me preocupo desesperadamente que nas próximas 6 a 12 semanas, nós vamos ver uma situação na pandemia como nada que vimos até agora. E este é um desafio que acredito que muitas pessoas ainda não perceberam”, disse Michael Osterholm, epidemiologista na Universidade de Minnesota e membro do Conselho da Covid-19 do governo de transição de Joe Biden, à CNN.

“Um duplo escape do sistema imune”

Ilustração em 3D representando o novo coronavírus
Foto: Nexu Science Communication/Reuters

No estudo, Moore e suas colegas recolheram o sangue de 44 pessoas que tiveram Covid-19. Quase todos os casos foram confirmados de que ocorreram antes de setembro, ou seja, antes de a nova variante ter sido encontrada na África do Sul.

Os pesquisadores então observaram para ver se seus anticorpos lutariam contra a nova variante.

Para cerca de metade das 44 pessoas, seus anticorpos foram impotentes contra a nova cepa.

“Nós vimos um nocaute”, disse Moore. “Foi um resultado assustador”.

Para a outra metade, a resposta imune foi fraca, mas não totalmente nocauteada.

A análise mostrou que a resposta imunológica mais forte veio daqueles que sofreram casos mais severos de Covid-19, e portanto, desenvolveram uma resposta de anticorpos mais robusta depois da doença.

As culpadas são mutações em duas partes diferentes nos “espinhos” (spikes) que estão no topo do coronavírus. As vacinas funcionam mirando nesses espinhos.

“É um escape duplamente armado do sistema imune”, disse Moore.

Moore enfatizou que estes resultados foram vistos em laboratório, e estudos precisam ser feitos para ver se pessoas que já tiveram Covid-19 serão infectadas pela nova variante. 

O ensaio com os anticorpos não mediu outras respostas imunes, como das células-T, que são geradas por infecções anteriores e vacinas.

O que isso significa para a vacina

Vacina contra Covid-19 da Pfizer/BioNTech
Foto: Charles Platiau/Reuters (30.dez.2020)

O time de Moore está agora colhendo sangue de pessoas que foram vacinadas para verificar se seus anticorpos podem lutar contra a nova cepa da doença.

“Eu acredito que os dados sobre pessoas com infecções anteriores levantam todo o tipo de alerta para as vacinas”, ela disse. “Precisamos testar para entender”.

Montefiore, o virologista da universidade Duke, concorda.

“Eu não tenho nenhuma razão para pensar que os resultados com pessoas que foram vacinadas serão tão diferentes do que com pessoas que tiveram infecções prévias”, ele disse.

Em um primeiro momento, as duas vacinas autorizadas para uso nos Estados Unidos — Pfizer e Moderna — funcionam muito bem, até mesmo se a nova variante quiser brigar, a redução na eficácia provavelmente será leve.

“Temos de lembrar, as vacinas Pfizer e Moderna possuem 95% de eficácia — este é um nível extraordinário de eficácia”, disse Montefiori. “Se cair para 90, 80, 70%, continuam muito, muito boas e provavelmente terão grande impacto na pandemia”.

 

Além disso, enquanto a vigilância na África do Sul mostra que a nova cepa está se tornando a dominante no país, Montefiori aponta que ela foi encontrada em pequenos números em apenas outros 13 países.

O Reino Unido, que possui um sistema de vigilância bastante agressivo, encontrou 45 pessoas com a variação, de acordo com a GISAID, uma iniciativa independente de compartilhamento de dados. Botsuana sofreu com 6 casos, Japão com apenas cinco; houveram quatro casos identificados na Alemanha, e dois em cada: França, Austrália, Suíça e Finlândia; e um em cada: Suécia, Coreia do Sul, Noruega, Irlanda e Países Baixos.

Além disso, a vacinação engatilha uma resposta imunológica mais forte do que a infecção.

Na segunda-feira (18), pesquisadores do Centro Médico Sheba, em Israel, anunciaram que a análise do sangue de 102 trabalhadores de hospitais que receberam duas doses da vacina da Pfizer aponta que a taxa de anticorpos encontrados neles são maiores que de pessoas que tiveram formas severas da Covid-19. O estudo ainda não foi revisado por pares, publicado ou postado na internet.

“Estas são boas notícias”, disse Moore.

Enquanto cientistas trabalham entender os efeitos da nova cepa do coronavírus na vacina, especialistas recomendam a prevenção: usar a máscara, se distanciar socialmente, é o melhor caminho para diminuir as taxas da Covid-19 — isto e vacinar-se quando puder.

Amir Tal e Naomi Thomas contribuíram para esta reportagem.

(Texto traduzido. Leia o original em inglês.)