Fiocruz relata perfil das vítimas da Covid-19 e desigualdades na pandemia

Pesquisadores analisaram 89.405 internações registradas na rede pública do Brasil, nos quatro primeiros meses da chegada do novo coronavírus ao país

Pauline Almeida, da CNN, no Rio de Janeiro
29 de janeiro de 2021 às 14:15 | Atualizado 29 de janeiro de 2021 às 14:27
Ilustração em 3D representando o novo coronavírus
Estudo da Fiocruz analisou o perfil das vítimas da Covid-19 no Brasil
Foto: Nexu Science Communication/Reuters


Um estudo da Escola Nacional de Saúde Pública da Fiocruz traçou o perfil das vítimas da Covid-19 e apontou maiores chances de morte entre pessoas obesas e negras, além das dificuldades enfrentadas por municípios e estados no início da pandemia. 

Pesquisadores analisaram 89.405 internações registradas na rede pública do Brasil, nos quatro primeiros meses da chegada do novo coronavírus ao país, quando 24,4% dos pacientes morreram devido à doença. As hospitalizações trouxeram custos de R$ 332 milhões ao Sistema Único de Saúde (SUS). 

Risco das comorbidades

Os cientistas confirmaram a influência das comorbidades nas mortes, especialmente em obesos - com 56,3% mais chances. A pesquisa também identificou o reflexo da desigualdade na distribuição de recursos e na capacidade para gerenciar as ações de enfrentamento à pandemia. Esses fatores tiveram efeitos no maior índice de mortes registrado em negros, além de em estados do Norte, Nordeste e Sudeste. 

São Paulo somou 31,8% das internações de todo o Brasil, mas o Amazonas teve 34,1% de mortes dentro de hospitais. Chama atenção os casos de Acre, Roraima e Amapá, que tiveram apenas 0,1%, 0,8% e 0,3%, respectivamente, das internações no país. No entanto, destacaram-se nas proporções de óbitos hospitalares: 43,8%, 35,9% e 44,7%. 

Rio de Janeiro, Rio Grande do Norte, Alagoas, Ceará, Paraíba, Pará, Espírito Santo, Pernambuco e Maranhão também tiveram percentuais de mortes hospitalares acima da média nacional.

“O estudo aponta ampla variação na mortalidade hospitalar por Covid-19 no SUS, associada a fatores demográficos e clínicos, desigualdade social e diferenças na estrutura dos serviços e desempenho dos serviços de saúde”, afirmou Margareth Portela, autora do artigo publicado na revista científica Plos One.

Perfil das vítimas

A pesquisa apontou a dificuldade do combate inicial à pandemia. Os cientistas identificaram que municípios do Acre, Roraima, Amazonas, Pará e Amapá apresentavam baixa ou nenhuma capacidade de atender casos graves. Já no Rio Grande do Norte, apenas três municípios tinham a capacidade mínima. A situação também foi grave no Rio de Janeiro, mesmo com a maior disponibilidade de leitos. 

“Houve pouca interação entre o estado e os municípios gravemente afetados, como na capital, a gestão da pandemia foi caótica e a estratégia de implantação de hospitais de campanha falhou parcialmente, com alguns nunca concluídos e outros entregues muito tarde”, descreve o artigo. 

Os dados levantados dos pacientes internados no SUS mostram que 56,5% são do sexo masculino, com média de idade de 58,9 anos. Já o tempo de hospitalização variou de menos de 24 horas a 114 dias, com média de quase uma semana, e 22,6% dos pacientes com necessidade de UTI. As vagas em Unidade de Terapia Intensiva tiveram grande peso nos custos do SUS, com 66,4% do valor total pago com internações de Covid-19.

“As chances de óbito durante a internação foram 72,1% maiores nos municípios com pelo menos 100 mil habitantes, valendo ainda sublinhar que a internação em hospital no mesmo município de residência do paciente foi um fator protetor em relação ao desfecho considerado”, explicou a pesquisadora Margareth Portela.

Com os resultados, os cientistas esperam contribuir na definição das novas estratégias contra a pandemia, especialmente até a vacinação em massa dos brasileiros.