Para especialistas, suspensão da vacina de Oxford na África do Sul foi prematura

Médicos ouvidos pela CNN afirmam haver evidências de que imunizante da AstraZeneca atua também para reduzir mortes e casos graves

Murillo Ferrari, da CNN, em São Paulo
09 de fevereiro de 2021 às 05:00
Homem é vacinado durante teste clínico em humanos para potencial vacina contra a Covid-19 em Soweto, África do Sul
Foto: Siphiwe Sibeko - 24.jun.2020 / Reuters

A decisão da África do Sul de suspender a aplicação da vacina contra Covid-19 da AstraZeneca e de Oxford foi considerada prematura por especialistas ouvidos pela CNN. O governo local tomou a decisão depois de pesquisas mostrarem que o imunizante oferece proteção mínima contra casos leves de uma variante do novo coronavírus. 

A África do Sul anunciou no domingo (7) a interrupção do uso da vacina depois que pesquisadores da Universidade de Witwatersrand e da Universidade de Oxford descobriram que o imunizante só proporcionou uma proteção mínima contra infecções amenas ou moderadas da variante B.1.351, forma dominante do vírus no país.

“Considero que foi um grande exagero terem suspendido a vacinação já que não há informações sobre a diminuição da proteção para casos graves e para a diminuição de mortes e internações”, afirmou Paulo Lotufo, epidemiologista e professor da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP).

“Desde o início, já se planejava que as vacinas seriam úteis contra os casos graves e para diminuir as mortes por Covid-19”, completou, ressaltando que os dados da pesquisa levam em consideração uma amostra relativamente pequena.

Lotufo disse ainda que casos como esse acabam desviando o foco do que deveria continuar como uma das prioridades dos governos: garantir a manutenção das medidas de isolamento, distanciamento e higiene.

“Se tivermos um bom isolamento, o vírus não vai circular e vai ser muito mais difícil espalhar mutações. Tanto é que essas variantes apareceram em locais onde o isolamento foi ruim, como a África do Sul, o Reino Unido, o sul da Califórnia e Manaus”, destacou.

O epidemiologista disse ainda que são os programas de vacinação que vão salvar vidas e não apenas as vacinas propriamente ditas. 

“Se você tiver uma vacina excepcional, mas não der para uma grande quantidade de pessoas rapidamente, ela não funciona. Por outro lado, uma vacina não tão sensacional, mas administrada em larga escala rapidamente terá um impacto muito grande.”

Sequenciamento genético das cepas

O vice-presidente de Produção e Inovação em Saúde da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), Marco Krieger, afirmou que o estudo sul-africano chamou a atenção para a necessidade de se ampliar os esforços de vigilância genômica em relação à Covid-19.

“Vimos milhares de mutações acontecerem desde o início da emergência sanitária – e isso depende da capacidade dos países de fazerem vigilância genômica”, afirmou.

Vacina de Oxford/Astrazeneca
Foto: Luiz Lima Jr./Fotoarena/Estadão Conteúdo (5.fev.2021)

“Na Inglaterra, observou-se que segunda onda de casos estava fortemente associada a uma mutação em região importante da proteína S, que faz a recepção na célula humana. Sobre essa variante já temos dados mais confiáveis de que a vacina de Oxford/AstraZeneca tem uma eficácia que praticamente não mudou em relação à cepa original”, continuou.

Em participação recente no podcast E Tem Mais, da CNN, o virologista Amilcar Tanuri, chefe do laboratório de virologia molecular da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), também destacou que o sequenciamento de amostras pode ajudar no controle da pandemia.

“A gente não está sequenciando no ritmo que o pessoal no exterior está. Então, nossa capacidade de identificar mudanças populacionais do vírus é limitada pela quantidade de amostras que sequenciamos”, explicou

“A P1 foi identificada no exterior e confirmamos aqui. A P2 foi identificada no RJ, mas ela já estava circulando antes de outubro e só identificamos em dezembro.”

Ele disse que um dos entraves para aumentar a quantidade de sequenciamento genético do vírus é o custo. “Cada sequenciamento custa US$ 120 (cerca de R$ 640) no Brasil. A Inglaterra sequencia 600 genomas por dia. Aqui, nós sequenciamos 300 em 3 meses”, destacou.

Krieger destacou que é preciso acompanhar se está havendo estabilidade genômica a nível da população viral para saber se algumas das mutações podem ter características que transformem o curso da doença.

“O ideal seria aumentar para 3 mil sequências genéticas por mês para termos uma qualidade estatística que permita acompanhar essas variantes”, disse.

Variante sul-africana

De volta à questão da cepa sul-africana, Krieger disse seria mais prudente manter a vacinação como previsto ao mesmo tempo em que fossem feitos estudos para aprofundar os dados de eficácia.

“As vacinas diminuem as chances de as pessoas serem infectadas, mas também mostram outra característica desejável que é diminuir a gravidade das que acabam infectadas”, explicou.

Ele disse ainda que efeito similar foi observado em outros imunizantes, como os desenvolvidos pela Jansen, Pfizer/BioNtech e Novavax, que funcionaram contra a variante detectada no Reino Unido, mas perderam eficiência para a cepa sul-africana.

Para Krieger, no entanto, esse é um efeito normal e sinaliza que as empresas precisam estar preparadas para atualizar suas vacinas no futuro.

“Mas não é motivo para pânico. Estamos melhor preparados para fazer a identificação, controle e o acompanhamento dessas variantes e, quando for o caso, atualizar as vacinas que temos disponíveis e já se mostraram serem plataformas confiáveis.” 

Variantes brasileiras

Em relação às duas principais variantes identificadas no Brasil – a P1 com origem no Amazonas e a P2 descoberta no Rio de Janeiro – o executivo da Fiocruz ressaltou que foram enviadas amostras para a Universidade de Oxford investigar se o imunizante já desenvolvido pela instituição é eficiente contra essas cepas.

“A Fiocruz estabeleceu uma parceria com o grupo de pesquisa da Universidade de Oxford, já recebemos alguns protocolos do grupo que pesquisa lá para que possamos rapidamente fazer a avaliação em relação à variante brasileira”, afirmou.

Ele disse que a vacina funcionou muito bem para a variante britânica, mas que ainda é preciso concluir as análises em laboratório para saber se os anticorpos serão capazes de combater a variação brasileira do vírus.

Enfermeira sul-africana cuida de paciente internado após contrair a variante do coronavírus
Foto: Reuters

“Temos expectativa de que daqui pra frente, com base nessas três variantes, vamos fazer o monitoramento genético mais rápido. No momento, não há nenhuma indicação [para a necessidade de atualizar a vacina], mas essa é uma realidade discutida por todos produtores de vacina”, concluiu.

A CNN entrou em contato com a Secretaria de Estado da Saúde do Amazonas já que o estado foi um dos primeiros a usar a vacina de Oxford/AstraZeneca e foi também o local de origem da variante P1.

“A Fundação de Vigilância em Saúde do Amazonas (FVS-AM) informa que monitora os estudos referentes a mutações do novo coronavírus e que está acompanhando todo o esquema de distribuição das doses de Oxford/AstraZeneca por parte do Ministério da Saúde”, informou a pasta, em nota.