Em meio a enchentes, médico do Acre atende pacientes dentro da água

Estado enfrenta inundações, surto de dengue e pandemia do novo coronavírus

Henrique Melo*, da CNN em São Paulo
20 de fevereiro de 2021 às 21:04 | Atualizado 21 de fevereiro de 2021 às 12:09

 

O Acre enfrenta uma enchente histórica nos últimos dias. As fortes chuvas que começaram no início desta semana elevaram perigosamente o nível de rios no estado e causaram inundações em diversos municípios.

Segundo o Corpo de Bombeiros do estado, cinco rios já ultrapassaram as cotas de transbordamento. No total, mais de 23 mil famílias foram atingidas pelas inundações e cerca de 88 mil pessoas foram afetadas em todo o Acre.

Em meio ao caos, o médico Rodrigo Damasceno tem ido às ruas ajudar a população. Em Tarauacá (380 km de Rio Branco), cidade onde mora, o rio atingiu a marca de 11 metros, dois metros acima da cota de transbordamento e alagou mais de 80% do município. Segundo o médico, que foi prefeito da cidade entre 2012 e 2016, alagamentos são comuns na região mas a situação atual é chocante.

"É uma cidade baixa, entre dois rios (Tarauacá e Muru), e é relativamente comum períodos de alagamentos. Na minha época á frente do município, enfrentamos vários alagamentos, mas nenhum próximo do que estamos nos deparando agora, tanto em dimensão quanto em impactos sociais", disse.

O médico também alerta para o efeito econômico: "Nosso município também é muito vulnerável no aspecto social, e a população está passando por esse momento difícil de pandemia".

Enchente no Acre (21 fev 2021)
O médico Rodrigo Damasceno atende pacientes embaixo d'água em Tarauacá, no Acre
Foto: Reprodução / CNN

 

Nesta semana, Rodrigo viralizou nas redes sociais após uma foto em que ele dentro da água atendendo um bebê em um barco. "Nesses atendimentos, temos dificuldade de locomoção. Tem momentos em que é melhor andar nas ruas alagadas para atender as pessoas".

O médico Rodrigo Damasceno atende pacientes dentro d'água em Tarauacá, no Acre
O médico Rodrigo Damasceno atende pacientes dentro d'água em Tarauacá, no Acre
Foto: Lucas Melo

À CNN, ele contou mais sobre o encontro: "Após sair de uma casa em que realizamos atendimento, me deparei com essa criança, que sofria com um caso de pneumonia. Dei antibiótico para a mãe e apliquei a medicação para baixar a febre, assim eles foram para casa mais sossegados".

O médico também descreveu o impacto da inundação no sistema de saúde do município: "Praticamente 80% da população está debaixo d'água e muitos postos de saúde estão sem funcionar. Esse trabalho que a gente faz é para facilitar o atendimento às pessoas. Juntei minha equipe, consegui alguns remédios e fui atender a população".

A foto de Rodrigo e a situação crítica em todo o estado chamaram a atenção de celebridades, como o DJ Alok, que se disponibilizou a ajudar. Nas redes sociais, o artista compartilhou imagens dos alagamentos e recebeu resposta do governador do Acre, Gladson Cameli (PP), que informou que o estado necessita de colchões, cestas básicas e muito mais. Cameli pede que as pessoas realizem doações para a Associação do Ministério Público do Acre para ajudar a população.

O médico Rodrigo Damasceno atende pacientes dentro d'água em Tarauacá, no Acre
O médico Rodrigo Damasceno atende pacientes dentro d'água em Tarauacá, no Acre
Foto: Lucas Melo

Na última terça-feira (17), o governador decretou situação de emergência e instituiu, temporariamente, o Gabinete de Crise no estado do Acre. Cameli disse que o momento crítico também é causado pela pandemia do novo coronavírus e pela epidemia de dengue no estado.

O governo estadual solicitou ajuda ao governo federal e ao Exército brasileiro para atender as famílias atingidas. Durante a semana, Cameli se reuniu com o ministro da Economia, Paulo Guedes e com o secretário nacional de Proteção e Defesa Civil, coronel Alexandre Lucas Alves para oficializar o suporte da União ao estado. O governo federal decidiu liberar R$ 450 milhões para auxiliar os municípios alagados em todo o país.

Além das enchentes, o estado sofre também com a alta dos casos do novo coronavírus e de dengue. O último boletim epidemiológico divulgado pela Secretaria de Saúde do Acre, de 12 de fevereiro, indica que já foram notificados 1.552 casos de dengue, além de outros 5.353 em investigação. Ainda não foram registrados óbitos pela doença neste ano.

Em relação à Covid-19, o estado contabiliza 54.743 casos e 957 óbitos. Na última semana, o estado bateu seu recorde semanal de novas infecções, com mais de 2 mil registros. Neste sábado (20), 91% dos leitos de UTI estão ocupados, enquanto 85% dos leitos clínicos estão preenchidos.

(*Sob supervisão de Victória Cócolo)