Pacientes que morrem de Covid-19 não podem ser doadores de órgãos

Se o vírus estiver ativo no organismo do doador, tanto a pessoa que recebe o órgão quanto a equipe cirúrgica podem ser contaminadas

Fernanda Colavitti, da CNN, em São Paulo
19 de março de 2021 às 10:20 | Atualizado 19 de março de 2021 às 13:17
Atendimento médico em Unidade de Terapia Intensiva (UTI) para pacientes de Covid
Vítima da Covid-19 com vírus ativo no corpo após o falecimento pode transmitir a doença para equipe médica
Foto: Mister Shadow/Estadão Conteúdo

Em comunicado divulgado no Twitter nesta sexta-feira (19), familiares do Major Olimpio (PSL-SP) informaram que "A doação de órgãos era um desejo do Senador e foi autorizada pela família, contudo, por conta da questão da Covid-19 os médicos avaliaram que não seria possível a realização"

De acordo com o cirurgião de fígado e transplantes Tercio Genzini, coordenador de Transplantes do Hospital Leforte, a morte encefálica, como foi o caso do senador, é uma condição para a doação de órgãos.

No entanto, assim como acontece com doadores que têm qualquer doença infectocontagiosa, pessoas que morrem em decorrência de infecção por Covid-19 não podem doar nenhum órgão ou tecido, segundo o Ministério da Saúde.

Contraindicação absoluta

Em nota técnica, o Ministério informa que há uma “contraindicação absoluta para doação de órgãos e tecidos nos casos de doadores com COVID-19 ativa, com teste para SARS-CoV-2 positivo, e com Síndrome Respiratória Aguda Grave (SARS) sem etiologia definida e teste laboratorial não disponível”.

Segundo Paulo Pego, cirurgião cardiotorácico do HCor, essa orientação se deve ao fato de que se o vírus estiver ativo no organismo do doador, a pessoa que recebe o órgão pode ser potencialmente contaminada.

Major Olimpio em entrevista à CNN em maio de 2020
Foto: CNN Brasil

Quarentena de 28 dias

Nos casos de doadores que tiveram Covid-19, mas já estavam recuperados quando morreram, o Ministério da Saúde recomenda uma “contraindicação relativa”.

Isso significa que se o doador já estava curado há mais de 28 dias, o processo para a liberação dos órgãos deve ser validado pela equipe de transplante, conforme a urgência do paciente.

“Esse prazo é uma precaução adicional para que não exista nenhum risco de transmissão do vírus tanto para receptor do órgão quanto para a equipe cirúrgica”, afirma Genzini.

O especialista explica que as pessoas se recuperam dos sintomas da Covid-19 e deixam de ser transmissoras em até 12 dias.

“O prazo recomendado para a quarentena, de 14 dias, já é uma margem de segurança. No caso dos doadores, 28 dias, é uma faixa muito segura”, conclui.

Nos Estados Unidos, já há casos de pessoas que tiveram Covid-19, se curaram, morreram posteriormente de uma causa não relacionada ao vírus e tiram seus órgãos doados. 

Desde o ano passado, qualquer doador de órgãos precisa ser testado negativamente para Covid-19, mesmo que a pessoa tenha morrido em decorrência de um acidente ou de qualquer outra causa sem nenhuma relação com o coronavírus.

“Sabemos que a maioria dos portadores de Covid-19 são assintomáticos, por isso adotou-se essa precaução extra”, explica.