Transplantados têm dez vezes mais risco de morrer de Covid-19, segundo a ABTO

Associação Brasileira de Transplante de Órgãos pede urgência na inclusão desses pacientes em fila prioritária da vacina

Fernanda Colavitti, da CNN em São Paulo
23 de março de 2021 às 06:56 | Atualizado 23 de março de 2021 às 11:59
Transplantes durante a pandemia
Número de transplantes caiu durante a pandemia de Covid-19
Foto: CNN Brasil

Enquanto na população geral a taxa de letalidade (que mede a porcentagem de pessoas infectadas que evoluem para óbito) da Covid-19 é de 2,4%, em pessoas que receberam transplante de órgão esse número está em torno de 20%, de acordo com a Sociedade Brasileira de Transplante de Órgãos (ABTO).

Todo paciente que recebe um transplante de órgão precisa tomar medicamentos imunossupressores pelo resto da vida para evitar a rejeição do novo órgão pelo organismo. 

“Esses medicamentos debilitam o sistema imunológico, tornando esses pacientes mais vulneráveis a infecções. Por isso, a infecção por Covid-19 nesse grupo tende a ser mais grave e daí a urgência em serem imunizados”, diz José Huygens Garcia, presidente da ABTO.

“Temos hoje no Brasil aproximadamente 80 mil pacientes transplantados em regime de imunossupressão, e é para esses pacientes que estamos pedindo prioridade na vacinação ao Ministério da Saúde”, acrescenta. Procurada, a pasta informou que “os pacientes imunossuprimidos, como os oncológicos e transplantados, entre outros, estão contemplados no ‘Grupo com comorbidades’ desde a 1ª edição do Plano Nacional de Operacionalização da Vacinação Contra a Covid-19”.   

“A priorização do Programa Nacional de Imunizações (PNI) para determinados grupos leva em conta o cenário epidemiológico e considera a necessidade de preservação do funcionamento dos serviços de saúde e a proteção dos grupos que apresentam maior risco de internações por complicações da doença e de óbito”, segue a nota.

Até lá, a estudante Maria Cristina de Souza Santana, de 27 anos, de Rondônia, aguarda. Ela fez um transplante de rins e pâncreas no começo de novembro de 2020 e pegou Covid-19 durante a recuperação da cirurgia, no fim do mesmo mês. 

Maria Cristina diz que os primeiros sintomas foram perda de olfato e paladar, mas logo evoluíram para falta de ar e cansaço extremos. “Eu não conseguia levantar da cama nem para ir ao banheiro. Precisei de respirador e fiquei 4 dias na UTI”, conta. A recuperação demorou 18 dias, mas ela diz que ainda não deixou de sentir cansaço e tontura quando precisa fazer caminhadas mais longas. “Ainda estou com muito medo”, diz.

Fila de espera mais longa

Os mais de 43 mil pacientes que aguardam por um transplante também estão enfrentando dificuldade para realizar suas cirurgias desde o ano passado. Segundo Huygens, em 2020 houve uma queda de 12,7% nas doações de órgãos em comparação com 2019. 

O cenário para 2021 pode ser ainda pior do que o de 2020, segundo o presidente da ABTO. “Não temos os números de 2021 ainda, pois fechamos os dados a cada 3 meses. Mas claramente teremos uma queda grande no número de doações neste ano”, afirma. 

A falta de leitos gerais e de UTI nos hospitais do Brasil é um dos principais fatores que explicam essa queda. Isso acontece porque, após a cirurgia de transplante, o paciente precisa ir para um leito de UTI - se não houver vaga, a cirurgia não pode acontecer. 

O hepatologista Tercio Genzini, coordenador de Transplantes do Hospital Leforte e cirurgião de transplantes do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, conta que na última semana precisou recusar três transplantes por esse motivo.

A falta de leitos próprios para doadores também prejudica o processo. Genzini explica que os doadores em potencial precisam estar acomodados em leitos isolados, sem contato com pacientes com Covid. 

Quando isso não é possível, o processo de transplante é prejudicado. Nenhum órgão pode ser doado sem que o doador passe pelo teste de Covid-19, cujo resultado demora de 3 a 5 dias para positivar após o contato. No entanto, quando um paciente tem morte encefálica, o que o torna elegível para ser um doador, seus órgãos continuam funcionando por, no máximo, dois dias.  “Não há tempo hábil para fazer o teste, por isso, as chances de perder aquele órgão são muito grandes”, explica Genzini.

Outro complicador, de acordo com Huygens, são órgãos que precisam ser descartados porque o doador tinha Covid-19 quando morreu e não sabia. Desde o ano passado, todos os doadores precisam ser testados. “No Ceará, em 2020, 41 doadores não foram utilizados porque testaram positivos para Covid. E a causa da morte desses pacientes nem era Covid”, diz Huyges.