No Brasil, quase 20% dos jovens internados por Covid-19 morreram em 2021

Cientista da Fiocruz que participou de estudo publicado no periódico The Lancet explica fenômeno do 'rejuvenescimento' da pandemia no Brasil

Flávia Martins, da CNN, em São Paulo
16 de julho de 2021 às 13:37
 UTI-Covid do hospital de campanha na zona norte de São Paulo
Profissionais atende paciente na UTI-Covid do hospital de campanha na zona norte de São Paulo
Foto: Mister Shadow/ASI/Estadão Conteúdo (31.mai.2021)

De 2020 para 2021, com diferentes cenários e o início da vacinação, o panorama de internações e mortes pela Covid-19 mudou completamente no país. Pesquisadores brasileiros publicaram no periódico científico The Lancet Respiratory Medicine, especializado em medicina respiratória, uma análise comparativa entre a primeira onda da doença e a segunda, que teve início ainda no final de 2020.

No segundo período, todos os indicadores, no geral, foram maiores do que os apresentados no pico da primeira onda. Aumentou a mortalidade média, a mortalidade entre os pacientes internados e entre os intubados. Dos doentes que deram entrada em hospitais na segunda onda, 40,6% não conseguiu resistir. Já em 2020, essa taxa era de 33,1%.

Este indicador é ainda mais relevante quando se fala dos jovens na faixa dos 20 aos 39 anos. Na primeira onda, a taxa de mortalidade entre os internados foi de 11,6%. Este número passou para 18,5% na segunda onda.

Segundo os especialistas, a segunda onda teve surtos “explosivos” e simultâneos por todo o país, o que adicionou uma “enorme pressão” a um sistema de saúde já sobrecarregado por um ano de pandemia. Contribuiu para a piora da situação a rápida transmissão das variantes, entre elas a originária em Manaus – recentemente nomeada de “Gama” pela OMS – que hoje representa mais da metade dos casos sequenciados no país.

Para análise, os pesquisadores compilaram dados de cerca de 1,2 milhões de internações, de 16 de fevereiro de 2020 a 24 de maio de 2021, extraídos da plataforma do  SIVEP-Gripe (Sistema de Informação de Vigilância Epidemiológica da Gripe).

Mais jovens em estado grave

A presença cada vez maior da doença entre os jovens não é novidade, e os dados disponibilizados evidenciam a tendência. A idade média dos pacientes internados diminuiu de 63 para 59 anos, com um aumento de 18% nas faixas etárias abaixo dos 60 anos, de uma onda para a outra.

Segundo Fernando Bozza, pesquisador e cientista da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) que participou do estudo, o fenômeno pode ser chamado de “rejuvenescimento” da pandemia. A redução da idade média dos casos e o aumento das formas graves da doença com necessidade de hospitalização, de acordo com ele, têm ao menos duas justificativas.

“Por um lado, ao longo de todo este tempo de pandemia, as pessoas estão cansadas, então tendem a descuidar dos cuidados sanitários e de isolamento. Por outro, temos a evidência de que a vacinação de pessoas mais velhas é eficaz e controla as formas graves da doença”.

Hospital de campanha para pacientes da Covid-19 em Santo André, em São Paulo
Foto: Amanda Perobelli/Reuters (7.abr.2021)

Predominância da variante Gama

Em entrevista à CNN, Bozza também explicou o papel indiscutível que a variante Gama teve na segunda onda: “No final de dezembro, a variante de Manaus já estava presente em mais de 50% dos genomas virais, o que indica que ela começou a se proliferar com mais rapidez naquela época”.

Além disso, para o cientista, o relaxamento das medidas de restrição e as festas de final de ano foram o combo que levou ao grande pico de casos e mortes observado em meados de março, e a uma consequente nova sobrecarga do sistema de saúde.

Aumento nas internações

Com base nesses números, a segunda onda teve 59% mais internações do que 2020. O número mais alto de internações em uma única semana mais do que dobrou de uma onda para outra. No primeiro pico, 21.294 pessoas foram internadas; na segunda onda, a semana com mais internados teve 53.424 pacientes conduzidos a hospitais. Dessas internações, os pacientes que tiveram que ser intubados aumentaram em 53%.

No entanto, na segunda onda, o número de internações nas capitais foi menor, contrário ao que aconteceu na onda anterior, em que o movimento de pacientes era em direção a elas. Isso é explicado pela transmissão da doença, que se “interiorizou”, com grande quantidades de casos e mortes no interior de estados como São Paulo e Santa Catarina, por exemplo.

Nos próximos meses

Segundo Fernando Bozza, o surgimento e disseminação de outras variantes indica a necessidade urgente de entender a efetividade das vacinas disponíveis sobre elas, não só aqui no Brasil, mas a nível mundial.

“Os dados iniciais sugerem que as vacinas são efetivas, mas para isso precisamos acelerar a vacinação dos jovens, que ainda estão sujeitos a essas variantes”.

De acordo com os pesquisadores, no geral, as conclusões do levantamento indicam uma necessidade urgente de ações para conter a transmissão, aumentar a cobertura vacinal e providenciar um melhor acesso ao sistema de saúde.