Fiocruz inicia teste de efetividade da vacina da AstraZeneca no Complexo da Maré

Experiência começa na próxima quinta (29) com a vacinação em massa de todos os 140 mil moradores do complexo de favelas

Elis Barreto, da CNN, no Rio de Janeiro*
22 de julho de 2021 às 14:57
Movimentação em rua do Complexo da Maré, na zona norte do Rio
Movimentação em rua do Complexo da Maré, na zona norte do Rio
Foto: Marcos Arcoverde/Estadão Conteúdo

A Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) iniciará um estudo inédito para testar a efetividade da vacina AstraZeneca/Oxford, no complexo de favelas da Maré, na capital do Rio de Janeiro.

De acordo com o coordenador do projeto, o médico Fernando Bozza, a pesquisa será dividida em duas etapas para testar a proteção direta e indireta do imunizante. 

A primeira parte será a de vacinação em massa, que será do dia 29 de julho ao dia 1º de agosto, promovida pela Secretaria Municipal de Saúde do Rio.

Os pesquisadores irão imunizar com a primeira dose da vacina de Oxford toda a população acima de 18 anos que reside na Maré.

A expectativa é antecipar a vacinação de 31 mil pessoas, e manter a vigilância epidemiológica dos mais de 140 mil cariocas que moram na comunidade. 

À CNN, Bozza explicou que vai analisar a proteção direta da vacina. “O desenho dessa primeira parte do estudo é identificar os testes positivos para a doença, e se a pessoa foi vacinada ou não. É um processo clássico para testar a efetividade vacinal. Você quantifica tanto os sintomáticos, quanto os vacinados, e calcula a proteção.”, disse.

A segunda fase, segundo o coordenador do estudo, consiste no acompanhamento, durante seis meses, de duas mil famílias, somando aproximadamente oito mil indivíduos.

“O outro desenho é um grupo de pessoas específico, para testar o que chamamos de imunidade indireta. Dessa forma, analisamos como a vacinação em larga escala afeta também quem não foi imunizado. Por exemplo, a gente vai intensificar a vigilância nas escolas e em menores de 18 anos, para incidência nesse grupo.”, finaliza o médico.

Segundo a Fiocruz, as duas frentes do estudo serão conduzidas simultaneamente. 

Além da vacinação em massa, o acompanhamento e testagem dos moradores serão usados para a vigilância genômica da doença no local. Todas as amostras colhidas serão sequenciadas pela fundação, para análise de quais linhagens e variantes estão em circulação.

De acordo com Fernando Bozza, o sequenciamento genômico possibilita tanto a identificação de variantes que já são conhecidas, como novas mutações do vírus.

“Identificar as linhagens ajuda a compreender as cadeias de transmissão da Covid-19 na Maré. A gente consegue entender as dinâmicas de transmissão dentro da favela, se a linhagem vem de fora do local, ou se está em circulação ali.”, disse.

O estudo de vigilância genômica que teve início no mês de junho na Maré, já sequenciou cerca de 150 amostras positivas de moradores, colhidas através do Conexão Saúde.

O projeto foi criado no ano passado durante a pandemia, e oferece gratuitamente serviços de testagem, telessaúde e apoio no isolamento domiciliar a pessoas com Covid.

Até agora, das amostras sequenciadas, a linhagem predominante é a P1, identificada inicialmente em Manaus. Até agora, nenhuma amostra da variante Delta foi detectada.

*Sob supervisão de Thayana Araújo