Bêbado sem tomar álcool? Estudo liga bactérias à síndrome da autocervejaria

Pesquisa revela microrganismos que transformam o intestino em uma “cervejaria” e aponta novos caminhos para diagnósticos mais simples e tratamentos

Jorge Marin, colaboração para a CNN Brasil
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Pessoas com síndrome da autocervejaria apresentam sinais de embriaguez, mesmo absolutamente sóbrias  • aleksandarlittlewolf/Freepik
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O sonho de viver um happy hour constante, mesmo sem ingerir uma gota de álcool, pode se transformar em um pesadelo se, apesar de absolutamente sóbrio, você apresentar sinais de embriaguez em um teste de bafômetro. Essa condição rara — conhecida como síndrome da autocervejaria — acaba de ter suas causas bacterianas identificadas por uma equipe de cientistas americanos.

Pesquisadores da Universidade da Califórnia em San Diego e do sistema de saúde Mass General Brigham identificaram, pela primeira vez com precisão, as bactérias e as vias metabólicas responsáveis por fermentar carboidratos e produzir álcool dentro do corpo humano (de origem endógena) em níveis compatíveis com embriaguez.

De acordo com o estudo, publicado recentemente na revista Nature Microbiology, “a síndrome da autocervejaria [ABS nas iniciais em inglês] é uma desordem de intoxicação alcoólica raramente diagnosticada, causada pela produção de etanol pela microbiota intestinal”. Na prática, o paciente sóbrio pode apresentar fala arrastada, tontura, confusão mental e perda da coordenação motora.

Até agora, a ciência sabia que a microbiota intestinal estava envolvida na ABS, mas não havia identificado ainda quais eram os microrganismos responsáveis nem a forma como operavam. Falta de conhecimento, dificuldade de diagnóstico e estigma ainda impediam que os perfis microbiológicos fossem bem compreendidos.

O subdiagnóstico, que continua sendo uma realidade em nossos dias, faz com que pessoas com ABS sejam confundidas e até diagnosticadas como casos de transtorno por uso de álcool. Além do impacto social, a confirmação clínica é difícil, pois o teste de sobrecarga de carboidratos, considerado padrão-ouro, é caro, complexo e pouco acessível.

Identificando as bactérias “cervejeiras”

Pacientes com ABS têm intestinos povoados por bactérias com capacidade “turbinada” para produzir álcool • Freepik
Pacientes com ABS têm intestinos povoados por bactérias com capacidade “turbinada” para produzir álcool • Freepik

No estudo observacional, a equipe analisou amostras fecais de 22 pacientes com a síndrome e as comparou com as de 21 pessoas que moram na mesma casa (e não têm a doença) e com as de 22 indivíduos saudáveis do grupo controle. O objetivo foi analisar a composição e a função da microbiota intestinal entre os grupos.

A verdade é que o corpo humano produz naturalmente pequenas quantidades de álcool endogenamente. Isso ocorre principalmente pela fermentação microbiana de carboidratos no intestino. No entanto, essas “doses” são baixíssimas e rapidamente metabolizadas pelo fígado, sem qualquer efeito clínico.

Já os pacientes com ABS possuem intestinos povoados por cepas específicas de bactérias — principalmente a Klebsiella pneumoniae e a Escherichia coli — que revelaram uma capacidade "turbinada" de fermentação, utilizando vias metabólicas especializadas na conversão de açúcar em etanol de forma massiva.

Em seu artigo, os autores explicam: "Nós descobrimos que essas bactérias não estão apenas presentes; elas estão ativamente usando vias de fermentação mista de ácidos para produzir álcool em quantidades que podem alterar o estado de consciência do paciente".

Uma das implicações mais promissoras do estudo é a facilitação do diagnóstico: em vez do complicado teste de sobrecarga de carboidratos — geralmente feito em ambiente hospitalar — a ABS poderá ser confirmada em um exame de fezes simples, capaz de detectar a assinatura genética das bactérias produtoras de álcool.

Transplante fecal: uma esperança de cura?

O transplante de fezes substitui a flora intestinal doente pela de um doador saudável • Freepik
O transplante de fezes substitui a flora intestinal doente pela de um doador saudável • Freepik

O estudo ultrapassou a observação clínica. Além de comparar as amostras dos pacientes com as de um grupo controle saudável, e isolar as bactérias produtoras de álcool em laboratório, os pesquisadores acompanharam um paciente que, após falhar em tratamentos com antibióticos e dietas sem carboidratos, foi submetido a um transplante de microbiota fecal.

Popularmente conhecido como transplante de fezes, o procedimento substitui a flora intestinal doente pela de um doador saudável. Embora a colonoscopia seja uma via comum e eficaz, o paciente analisado no estudo ingeriu "pílulas de microbiota", cápsulas preparadas em laboratório com material intestinal saudável liofilizado.

Após uma recaída inicial, o paciente tomou uma segunda dose das cápsulas, após um ciclo de antibióticos para “limpar” a Klebsiella. Depois disso, o paciente ficou totalmente livre dos sintomas por mais de 16 meses, e as bactérias "cervejeiras" desapareceram de seus exames.

Em um comunicado, a coautora sênior Elizabeth Hohmann, do Mass General Brigham, destacou que, “ao determinar as bactérias e vias microbianas específicas responsáveis, nossas descobertas podem abrir caminho para um diagnóstico mais fácil, melhores tratamentos e uma melhor qualidade de vida para indivíduos que vivem com essa condição rara”.

"Ter uma validação biológica clara de que isso é uma doença infecciosa e metabólica, e não um vício ou falta de caráter, muda tudo", afirmam os autores. Ao transformar um mistério médico em um alvo microbiológico claro, a ciência devolve a essas pessoas não apenas a saúde, mas a dignidade perdida.