Brasil só terá resultado como o de Israel se vacinar idosos, diz especialista

Idosos e pessoas com comorbidades somam mais de 40 milhões de pessoas; país vacinou 5,4 milhões até o momento

Profissional de saúde aplica vacina em idoso no Rio de Janeiro
Profissional de saúde aplica vacina em idoso no Rio de Janeiro Foto: Daniel Resende/Enquadrar/Estadão Conteúdo

Anna Satie, da CNN em São Paulo

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Os países que têm o maior índice de vacinação contra Covid-19 a cada 100 mil habitantes já veem os efeitos da imunização.

Em Israel, onde 47% da população já recebeu ao menos a primeira dose da vacina — o maior índice em todo o mundo —, os casos sintomáticos da doença causada pelo novo coronavírus caíram em 94%.

“Isso mostra, inequivocamente, que a vacina contra o coronavírus da Pfizer é extremamente efetiva, na vida real, uma semana depois da segunda dose, assim como mostraram os estudos clínicos”, avalia Ran Balicer, presidente de inovações da Clalit, a maior provedora de serviços de saúde de Israel.

No Reino Unido, o primeiro país ocidental a iniciar a vacinação, onde mais de 16 milhões de pessoas já receberam a primeira dose, o número de novos casos de Covid-19 foi de 55 mil em 15 de janeiro para 9.700 em 15 de fevereiro.

O sucesso nesses países provoca o questionamento: quando o Brasil começará a ver efeitos semelhantes?

Para Carla Domingues, epidemiologista e ex-coordenadora do Plano Nacional de Imunização, só será possível observar resultados quando a população idosa for vacinada.

“O Brasil poderá ter o mesmo efeito se vacinar os idosos, como Israel e Reino Unido estão fazendo. Depois de 30 dias, veríamos uma diminuição importante da carga da doença”, disse.

Ela explica que, neste primeiro momento – e com uma quantidade pequena de doses disponíveis –, a vacinação pretende reduzir o número de internações e casos graves, não a transmissão — o que requereria uma grande parte da população vacinada.

“Para diminuir o número de casos graves e óbitos, precisamos vacinar os idosos e pessoas com comorbidades”, disse. “Nosso objetivo tem que ser atingir cobertura suficiente para evitar que as pessoas adoeçam”.

De acordo com o Plano de Operacionalização da Vacinação Contra a Covid-19 do Ministério da Saúde, o grupo de pessoas com condições que podem agravar a Covid-19 soma 12,6 milhões de indivíduos. Mais a população idosa, estimada em 28 milhões pelo IBGE, o total seria de 40,6 milhões de pessoas.

Até o momento, 5,4 milhões de brasileiros receberam a primeira dose da vacina, de acordo com levantamento da CNN junto às secretarias estaduais. Esse número também inclui profissionais de saúde, indígenas, quilombolas e pessoas institucionalizadas, que fazem parte da primeira fase da vacinação.

Redução da transmissão

O microbiologista da USP (Universidade de São Paulo) Luiz Gustavo de Almeida afirma que, para observar uma queda na transmissão, seria necessário vacinar cerca de 75 a 80% da população. “Esse é o mínimo, a gente sempre mira vacinar quanto mais pessoas for possível”, disse.

Ele explica que se a eficácia da vacina for maior, o número ideal pode cair. “Quanto maior a eficácia da vacina, menor o número necessário de pessoas vacinadas para começar a diminuir os casos. No caso da vacina da Pfizer, que tem 95% de eficácia, essa porcentagem pode ser de cerca de 60 a 65%”, afirmou.

A estimativa, no entanto, não é unânime. Em entrevista à CNN, Carla Domingues destaca que ainda não se sabe se as porcentagens usadas para outras doenças podem se aplicar à Covid-19.

“No caso da vacina contra HPV, estima-se que se 70% da população entre 9 e 12 anos for vacinada, você obtém a imunidade [de rebanho]. Já no caso do sarampo, mesmo com a vacina tendo 95% de eficácia, é preciso uma cobertura vacinal de 95% para chegar à imunidade”, afirma.

(*Com informações de Murillo Ferrari, da CNN em São Paulo, e da Reuters)

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