Capital do Rio afrouxa distanciamento social e especialistas recomendam cautela

Infectologistas afirmam que é preciso que a cidade atinja uma cobertura vacinal maior. "Estamos pagando para ver", diz Júlio Croda

Mylena Guedes, da CNN*, no Rio de Janeiro
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Apesar da cidade do Rio de Janeiro ter prorrogado medidas restritivas até o dia 20 de setembro, a prefeitura relaxou o distanciamento social em algumas situações.

A decisão, publicada no diário municipal nessa sexta-feira (10), ocorre após a capital fluminense registrar queda nos indicadores da doença, como número de internações e fila de espera zerada.

A partir de agora, nas aulas em grupo em academias e piscinas o distanciamento obrigatório passa de 4 metros para apenas 1 metro.

Já em lojas, shoppings e pontos turísticos, está permitido 60% de ocupação também em locais fechados e o distanciamento mínimo passou de 1,5 metro para 1 metro. O uso de máscara é obrigatório.

À CNN, o infectologista e professor da UFRJ, Celso Ferreira Ramos, recomenda cautela.

“É evidente que as vacinas funcionam e dão resultado positivo. Mas eu esperaria duas semanas em queda de casos, internações e óbitos, esperaria dar a terceira dose no grupo dos idosos, esperaria a vacinação dos adolescentes surtir efeito, para depois ser feito algum tipo de relaxamento”, diz o professor.

O diretor da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), Renato Kfouri, explica que decisões de relaxamento ou endurecimento das medidas devem levar em conta a taxa de transmissão do vírus, o número de casos e óbitos, além da taxa de internação.

“Se os números estão caindo, algumas medidas mais brandas podem ser tomadas. Mas é importante lembrar que não é para aglomerar, de jeito nenhum. Não é para abandonar o uso de máscara e álcool em gel”, lembra o infectologista, que ressalta que o índice de pessoas com o esquema vacinal completo ainda é baixo em todo o país e no Rio.

Em agosto, a variante Delta foi responsável por 95,8% dos casos de Covid-19 na capital fluminense.

Segundo o pesquisador da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), Julio Croda, o Rio está “pagando para ver”. Ele afirma que o município poderia esperar um pouco mais e ter uma cobertura vacinal maior antes de relaxar.

“O Rio é um caso singular e acho que vai ser modelo do Brasil de como a Delta vai impactar no número de hospitalizações, casos e óbitos. Vamos ver se a vacina vai segurar e se a infecção que já ocorreu no passado associada à cobertura vacinal vai conter a Delta", disse.

"A gente está pagando para ver. Vamos ver se o Rio tomou a decisão acertada, a gente só vai saber se aumentar o número de hospitalizações e óbitos. Mas o que a gente pode observar, na última semana, houve uma estabilização no número de internações a Delta já vem circulando há bastante tempo no Rio, o que traz alguma uma esperança, principalmente para o gestor, no sentido de flexibilizar algumas medidas”

Questionados sobre o avanço da variante Delta no Rio, os especialistas Renato Kfouri e Celso Ferreira afirmam que a nova variante preocupa todo o país e não apenas o território fluminense.

No momento, o decreto em vigor no município mantém proibido o funcionamento de boates, danceterias e salões de dança. Já bares, lanchonetes, quiosques e restaurantes seguem com autorização para servir apenas clientes sentados, com distanciamento de 1,5 metro entre as mesas.

Atualmente, a capital tem 81% dos leitos ocupados para covid-19.

Esquema vacinal

De acordo com o painel da prefeitura do Rio, 5.181.867 pessoas receberam a primeira dose do imunizante contra o vírus, o que representa 97%% da população carioca adulta vacinada com a D1 ou dose única.

Em relação ao esquema vacinal completo, 2.816.161 pessoas foram imunizadas com a segunda dose e 138.556 pessoas receberam a vacina Janssen, administrada em dose única. Sendo assim, a porcentagem diminuiu para 56% da população carioca acima dos 18 anos totalmente imunizada contra a Covid-19.

*Sob supervisão de Helena Vieira, da CNN