Cientistas avançam na busca por anticorpos monoclonais contra a febre amarela

Dados de pesquisa internacional poderão orientar a busca de formulações capazes de estimular a produção de anticorpos sintéticos contra diferentes linhagens do vírus

Pesquisadores avaliaram a capacidade de neutralização de diferentes linhagens virais da febre amarela pelo soro de pessoas vacinadas
Pesquisadores avaliaram a capacidade de neutralização de diferentes linhagens virais da febre amarela pelo soro de pessoas vacinadas Adene Sanchez/Getty Images

Lucas Rochada CNN

em São Paulo

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Os anticorpos são moléculas produzidas pelo organismo que ajudam o sistema imunológico a combater microrganismos nocivos, como vírus, bactérias e protozoários. Avanços técnicos e científicos permitiram o desenvolvimento de anticorpos monoclonais sintéticos, que podem ser utilizados tanto no tratamento como no diagnóstico de doenças.

A tecnologia ficou amplamente conhecida na pandemia de Covid-19, devido ao surgimento de anticorpos monoclonais específicos para a terapia da infecção causada pelo novo coronavírus. Um deles, o sotrovimabe, foi recomendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) para o tratamento de pacientes que não apresentam quadros graves.

A partir de uma parceria internacional, com a participação de pesquisadores brasileiros, cientistas realizaram avanços na busca por anticorpos monoclonais contra a febre amarela. Para funcionar de maneira eficaz, esses anticorpos artificiais precisam se ligar a uma região específica da partícula do vírus, com o objetivo de interromper o processo de infecção.

Na primeira etapa da pesquisa, os especialistas realizaram o mapeamento de fatores que alteram a superfície da partícula viral, dificultando a ação de algumas classes de anticorpos.

O fármaco em desenvolvimento poderá ser utilizado no tratamento da infecção e como medida de prevenção à doença. Os estudos contam com a participação de pesquisadores do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz), da Universidade de São Paulo (USP) e da Faculdade de Medicina Albert Einstein, nos Estados Unidos. Os primeiros resultados foram publicados no periódico científico Cell Host & Microbe.

“Os anticorpos monoclonais são baseados em anticorpos naturais, produzidos pelo organismo. Nosso estudo mostra que é obrigatório selecionar as moléculas contra a febre amarela considerando os vírus que circulam em cada região, porque alguns anticorpos que neutralizam o vírus vacinal e outras cepas de origem africana não foram capazes de neutralizar os vírus da América do Sul”, explica a pesquisadora, Myrna Bonaldo, da Fiocruz, em um comunicado.

Por dentro do estudo

Na primeira etapa do estudo, os pesquisadores avaliaram a capacidade de neutralização de diferentes linhagens virais da febre amarela pelo soro de pessoas vacinadas. As amostras contêm dezenas de tipos de anticorpos induzidos pela imunização.

Foram consideradas as linhagens utilizadas nas formulações da vacina da febre amarela no Brasil e nos Estados Unidos, sendo ambas versões atenuadas de um vírus isolado na África, em 1927, e uma linhagem isolada no Brasil, em 2017.

As análises revelaram que a neutralização do vírus de origem brasileira foi significativamente menor do que a dos vírus vacinais. Em seguida, os cientistas investigaram a capacidade de atuação de cerca de cem anticorpos monoclonais, produzidos com base nos anticorpos naturais presentes no soro de vacinados.

“Detectamos que a capacidade de neutralização de algumas moléculas que eram muito reativas para o vírus vacinal caiu para zero contra o vírus brasileiro. Os experimentos apontaram que os anticorpos que falhavam tinham um alvo comum: o domínio II da proteína E”, diz a doutoranda da Pós-graduação em Biologia Celular e Molecular da Fiocruz, Nathalia Dias Furtado.

De acordo com os pesquisadores, a proteína E tem um papel importante na infecção. Ela se liga à célula do hospedeiro, permitindo a entrada do vírus. Por isso, para bloquear a infecção, os anticorpos se voltam para os diferentes segmentos dessa proteína.

Ao comparar o vírus brasileiro com a linhagem vacinal e outros dois vírus de origem africana, os pesquisadores identificaram variações em pontos da proteína. Segundo os cientistas, essas alterações explicam por que uma parte dos anticorpos perde a capacidade de neutralizar o vírus.

No estudo, também foram analisadas 281 sequências genéticas do vírus da febre amarela disponíveis em bancos de dados. Os pesquisadores observaram que mutações já estavam presentes em quase todos os vírus do genótipo I Sul Americano, que é predominante no Brasil. Já os vírus do genótipo II da América do Sul, encontrados com maior frequência na Bolívia, Peru e Equador, apresentaram apenas um dos pontos de variação. Nenhum vírus de origem africana exibiu este tipo de variação na proteína.

Evolução viral

Os dados indicam que as mutações fazem parte do processo de adaptação do vírus da febre amarela à circulação nas Américas. Apesar da menor capacidade de neutralização dos anticorpos, a eficácia da vacina contra a febre amarela pode se manter elevada devido a outros mecanismos imunológicos, segundo as pesquisadoras.

“O vírus da febre amarela se originou na África e foi trazido para as Américas com o tráfico de escravos. Aqui, ele encontrou espécies de mosquitos e primatas não humanos diferentes das que existiam no continente africano e isso forçou uma adaptação, que provavelmente ocorreu séculos atrás”, aponta Nathalia.

Os dados obtidos na pesquisa podem orientar a busca de formulações capazes de estimular a produção de anticorpos contra diferentes linhagens virais. “Com tecnologias mais avançadas, é possível pensar em uma vacina múltipla. Porém, para isso, os estudos terão que provar que as novas formulações são mais eficazes do que a vacina atualmente utilizada”, afirma Myrna.

(Com informações da Agência Fiocruz de Notícias)

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