CNN Sinais Vitais mostra os benefícios dos cuidados paliativos

Área da medicina tem como objetivo oferecer conforto, qualidade de vida e alívio do sofrimento a pacientes com doenças que ameaçam a continuidade de suas vidas

Adriana Farias e Lucas Rocha, da CNN, em São Paulo

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A medicina conta com uma área específica que tem como objetivo principal oferecer conforto, qualidade de vida e alívio do sofrimento aos pacientes que estão em fim de vida ou que recebem um diagnóstico de uma doença que ameaça a continuidade de suas existências. Os cuidados paliativos amenizam impactos físicos, emocionais, sociais e até mesmo espirituais a partir do trabalho de equipes de saúde multidisciplinares.

O CNN Sinais Vitais desta semana traz um raio-X desse tipo de serviço no Brasil. O programa apresentado pelo cardiologista Roberto Kalil vai ao ar na quarta-feira (18), às 22h30, logo após o Jornal da CNN, na faixa nobre da CNN Brasil.

“É uma forma de olhar o indivíduo como um todo, entender que existe ali uma pessoa com toda uma história que antecede, inclusive, o processo de adoecimento, e de fazer um cuidado voltado para oferecer uma melhor qualidade de vida para essa pessoa e um fim de vida com mais dignidade”, explica Lucas Andrade, médico cardiologista e diretor da Clínica Florence, de Salvador (veja entrevista no vídeo acima).

O episódio conta com entrevistas de alguns dos maiores nomes da especialidade e acompanha a rotina de pacientes e familiares que tiveram acesso a esses serviços.

“No caso de um paciente com muitas dores por conta de um câncer, por exemplo, temos muitos caminhos para aliviar o sofrimento em paralelo ao tratamento da doença”, destaca a médica geriatra Ana Claudia Quintana, autora do bestseller “A morte é um dia que vale a pena viver”. “Você vai ver um paciente que tem condição de superar todas as adversidades do tratamento e alcançar um tempo de vida muito maior do que se ele não tivesse esse cuidado”, completa.

Segundo o médico intensivista e paliativista Daniel Neves Forte, o cuidado paliativo não busca cuidar da morte, mas da vida. “As pessoas não querem morrer, elas querem viver bem. Acho que é isso que o cuidado paliativo busca: cuidar da vida, e vida só é vida porque tem morte”, diz.

“O médico foca tanto na doença, em querer consertá-la, que esquece do sofrimento. O que priorizar agora? Querer consertar nas melhores intenções pode quebrar e machucar. O paciente é frágil, aí vem complicação atrás de complicação”.

A experiência de familiares

O CNN Sinais Vitais acompanhou cuidados paliativos em dois serviços de saúde, um público e outro privado. Na rede do Sistema Único de Saúde (SUS), a imersão foi no Hospital do Câncer IV, que é a unidade de Cuidados Paliativos do Instituto Nacional do Câncer (INCA), no Rio de Janeiro. Lá, a equipe mostra as modalidades de internação e atendimento domiciliar e a experiência pessoal com o tema de Ana Cristina Pinho, diretora-geral da instituição.

O marido de Ana Cristina, médico anestesista do INCA, morreu em casa recebendo esse tipo de tratamento. Do diagnóstico de câncer de pulmão, em 2014, até a morte, decorreu um ano. A médica conta que foi realizada a tentativa de tratamento, mas a doença evoluiu. 

“Nós demos tudo o que podíamos dar, principalmente muito amor, muito afeto, muito respeito, muita dignidade e, inclusive, deixá-lo até o último momento lá perto da gente, ouvindo as músicas que ele gostava de ouvir, comendo enquanto ele conseguia comer, tomando sorvete de chocolate,  ter o prazer até quando fosse possível. Essa é aplicação prática do conceito dos cuidados paliativos”, conta Ana.

CNN Sinais Vitais apresenta os cuidados paliativos
Cuidados paliativos oferecem conforto aos pacientes em fim de vida
Foto: CNN/Reprodução

Na rede particular, a equipe apresenta a primeira unidade no Brasil criada exclusivamente para pacientes em fim de vida. Na Clínica Florence, em Salvador, as irmãs Quézia e Rebeca vivenciaram a perda da mãe, Maria Lícia, em 2019, por conta de um câncer de pulmão com metástase no cérebro. Elas alertam para a importância da união entre o tratamento convencional e os cuidados paliativos.

“A gente teve uma despedida digna, uma família acolhida e a dor amenizada”, relata Quézia, que tira da bolsa cor-de-rosa o livro da médica geriatra Ana Claudia Quintana e lê um trecho para a equipe. “Para estar ao lado de alguém que está morrendo, precisamos saber como ajudar a pessoa a viver até o dia em que a morte dela chegar. Apesar de muitos escolherem viver de um jeito morto, todos têm o direito de morrer vivos. Quando chegar a minha vez, quero terminar minha vida de um jeito bom, quero estar viva nesse dia. E minha mãe estava viva nesse dia”.

“E na piscina de bolinhas”, complementa a irmã Rebeca. A bancária Maria Lícia faleceu no dia 25 de julho de 2019 realizando um sonho: ao lado da família, dos amigos e dos médicos que possibilitaram a divertida imersão dela em bolinhas coloridas de plástico.

Para o filósofo Mario Sergio Cortella, também um dos entrevistados do episódio, esse é o universo dos cuidados paliativos: quando o paciente está no cerne do cuidado, em que se respeita e se entende sua biografia. “Vou usar a expressão de um médico mineiro, Guimarães Rosa, a pessoa que sabe que há momentos em que a vida parece um grande sertão, mas tem veredas, e essas veredas são, em larga escala, aquilo que cabe aos cuidados paliativos”.

Ampliação na oferta

Apesar de ser um tratamento fundamental, os cuidados paliativos ainda não são uma realidade difundida e com acesso para a população brasileira. Segundo o Atlas 2019 produzido pela Academia Nacional de Cuidados Paliativos (ANCP), o Brasil possui cerca de 2.500 hospitais com mais de 50 leitos cada, porém apenas 5% deles disponibilizam uma equipe de cuidados paliativos. Quando se trata da modalidade de Hospice (hospedaria em cuidados paliativos), existem apenas 12 instituições do tipo em todo o país.

O Ministério da Saúde e o Conselho Nacional de Secretários de Saúde (Conass) em parceria com o Hospital Sírio-Libanês atuam em um projeto nacional para implementação de cuidados paliativos na rede pública.

Entre os anos de 2021 e 2023, serão realizados treinamentos e implementação de protocolos da área em um conjunto de serviços do SUS (um hospital, um ambulatório de especialidades e um atendimento domiciliar) em cada um dos 27 estados brasileiros. O projeto foi publicado em Diário Oficial no dia 16/04/2021.

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