Cólica menstrual afeta rotina de 6 em cada dez alunas no Brasil, diz estudo

Estudo mostra que dor impacta diretamente frequência escolar e que meninas que menstruam mais cedo estão mais suscetíveis a cólicas intensas

Laura Toyama, colaboração para a CNN Brasil
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Cólicas menstruais são uma das principais causas de ausência escolar entre meninas no Brasil. Em estudo divulgado na última quarta-feira (27) pelo Instituto Alana e Equidade.info, os dados revelaram que 4 em cada 10 meninas que menstruam já faltaram às aulas pelo menos uma vez por mês devido a dores menstruais.

O levantamento feito pelos institutos entrevistou 2.552 estudantes, sendo 770 menstruantes, 330 docentes e 181 gestores escolares das redes pública e privada por todo o Brasil. As alunas apontaram a cólica como principal sintoma menstrual que influencia o desempenho escolar, seguido de fadiga e dores no corpo. Cerca de 20,1% também relataram vergonha e medo de vazamento de sangue, o que revela a importância da educação menstrual no ambiente escolar.

A falta de banheiro e itens de higiene básica, como absorventes, papel e lenços umedecidos, são 8,2% das queixas das alunas. A ausência de estrutura para acolher estudantes no período menstrual evidencia não só o tratamento da questão como um problema individual, mas as desigualdades de acesso a informações sobre menstruação e saúde, afetando mais diretamente meninas pobres e negras.

Cólicas são mais intensas em quem menstrua mais cedo

A pesquisa revelou que grande parte das meninas começou a menstruar até os 10 anos de idade (36,5%), em comparação a 65,2% que menstruaram pela primeira vez após os 11 anos. A menarca — primeira menstruação — tem sido cada vez mais precoce, o que aumenta a importância da adaptação do ambiente escolar para acolher meninas que já menstruam.

Mariana Granado, ginecologista do Hospital M’Boi Mirim, gerido pelo Einstein Hospital Israelita, explica que a menstruação precoce é multifatorial e tem sido cada vez mais comum nos últimos anos. O consumo de ultraprocessados na infância, poluição e fatores genéticos são algumas das coisas que podem influenciar o quadro.

"Isso acontece por conta de fatores nutricionais e ambientais, principalmente, ligados ao índice de massa corporal de meninas mais jovens", explica a médica.

Os dados levantados sugerem que esse início precoce pode estar associado a dores mais intensas: entre as meninas que menstruaram até os 10 anos, 43% relatam cólicas intensas. O percentual cai para 27% entre aquelas que menstruaram aos 11 ou 12 anos.

Granado acrescenta que a falta de maturidade emocional para lidar com o ciclo e os sintomas da menstruação é uma das principais causas de abstinência escolar. "Muitas, por vergonha e falta de mecanismos para lidar com o que está acontecendo, deixam de frequentar", conta. "E, em adição a tudo isso, há fatores ligados à saúde mental, ansiedade e até casos de bullying."

Adaptação do ambiente escolar é fundamental para garantir saúde menstrual

A médica Mariana Granado defende que é importante disseminar o conhecimento sobre a menstruação para o corpo escolar como um todo, não apenas para as meninas. "Essa medida pode diminuir o preconceito e o bullying com as meninas que vão iniciar a menarca naquele momento", defende ela.

Para ela, é fundamental que esse conhecimento seja difundido para que as estudantes, antes de menstruarem, já entendam as mudanças que podem ocorrer no corpo como um todo, inclusive dores e sintomas que não são normais: "Aprender a reconhecer como é o funcionamento normal daquele fenômeno, e consequentemente, se ele não estiver funcionando, ajuda a identificar a necessidade de uma avaliação médica."

Joyce Martins, ginecologista e sexóloga, defende que a saída é um processo de educação continuada, que envolve educadores e alunos. "É importante que se chame atenção para o assunto nas escolas para que não só elas tenham repertório, mas possam trocar com outras pessoas que menstruam, enquanto assistência, cuidado", explica ela.

Apoios como como usar o absorvente, colocação do absorvente, uma outra muda de roupa para dar assistência em caso de vazamento, podem ser algumas medidas tomadas por profissionais da educação para tornar o ambiente mais confortável para meninas durante o período menstrual dentro da escola.

Desigualdades raciais e socioeconômicas aprofundam desconhecimento sobre menstruação

Os sintomas da menstruação também podem ser aprofundados por questões raciais e atingir meninas de grupos economicamente mais vulneráveis. De acordo com a pesquisa, meninas brancas relatam mais frequentemente dores menstruais fortes, contra número menor entre meninas negras. Apesar da diferença, os dados escondem uma realidade estrutural: há casos de subnotificação de dor entre meninas racializadas, que temem não serem acolhidas.

“Essa diferença vai na contramão da literatura clínica internacional, que indica maior prevalência de cólicas fortes em mulheres negras", afirma Sofia Reinach, gerente de saúde do Instituto Alana. Uma possível explicação é que, historicamente, mulheres negras são ensinadas a dar menos nome à sua dor e a tolerá-la mais antes de falar”, explica.

Os dados de absenteísmo nas escolas confirmam essa hipótese: 14,5% das meninas negras faltaram de dois a cinco dias, ante 9,6% das estudantes brancas que faltaram pela mesma quantidade de dias. Joyce Martins comenta que a correlação entre questões sociais e a desinformação menstrual ocorre porque as meninas mais vulneráveis são atravessadas por questões muito mais sensíveis.

"Isso tudo também é atravessado pela questão específica de acesso, né? Acesso não só à medicação ou absorvente, mas até mesmo à questão associada à educação menstrual em si", explica ela.

Integração entre saúde e educação pode reduzir desinformação sobre saúde menstrual

Cólicas fortes em cerca de 1 em cada 3 meninas indicam necessidade de triagem clínica. Condições como endometriose, que afeta 1 em cada 10 mulheres e pode levar até 7 anos para ser diagnosticada, sendo comum o início na adolescência. Os dados indicam uma necessidade de aproximação entre a área da saúde e da educação para promover a educação menstrual.

A disseminação sobre doenças pode auxiliar o diagnóstico de condições patológicas que são, muitas vezes, normalizadas. O diagnóstico tardio pode agravar o quadro e dificultar tratamentos no futuro.  A médica Mariana Granado defende a criação de políticas públicas que promovam maior conhecimento sobre condições como endometriose e adenomiose como medida preventiva.

"Se eu dissemino o conhecimento, há mais políticas relacionadas ao tema que podem alcançar as pessoas", defende. "Quando a gente fala de equidade de gênero, as políticas públicas direcionadas a isso são capazes de reduzir o estigma relacionado à saúde menstrual."

Para ela, os profissionais da saúde podem colaborar com instituições de ensino, sobretudo públicas, fornecendo materiais educativos sobre o tema, com palestras e rodas de conversa. "Se o paciente está com essa quantidade de desinformação a respeito de diversas questões da sua saúde e do funcionamento do corpo, também é responsabilidade do médico, dos profissionais de saúde em geral".

A ginecologista Joyce Martins faz coro com esta visão e defende uma relação próxima com a unidade de saúde referência. "Uma consulta de acolhimento, seja com a pediatra, ginecologista, médico da família, enfermeira responsável, para acolher meninas, pode garantir que ela receba melhores cuidados a partir daí", explica.