Com 290 mil comprimidos em estoque, Exército não distribuiu cloroquina em 2021

De setembro ao final de dezembro de 2020, governo federal distribuiu 482 mil doses do medicamento para tratar pacientes em estado grave de Covid-19

Comprimidos de cloroquina produzidos no Laboratório Químico Farmacêutico do Exército brasileiro
Comprimidos de cloroquina produzidos no Laboratório Químico Farmacêutico do Exército brasileiro Foto: LQFex/Exército Brasileiro (31.mar.2020)

José Britoda CNN

em São Paulo

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O Exército Brasileiro revelou à CNN que, sem demanda de Secretarias Estaduais e Municipais de Saúde, não houve distribuição de cloroquina 150 mg ao longo deste ano. O Centro de Comunicação Social do Exército (CCOMSEx) informa também que constam 290 mil comprimidos do medicamento armazenados no Laboratório Químico e Farmacêutico do Exército (LQFEX), no Rio de Janeiro.

Entre os meses de setembro e final de dezembro de 2020, o governo federal distribuiu 482 mil doses do medicamento para tratar pacientes em estado grave de Covid-19. O remédio tem ineficácia cientificamente comprovada contra o novo coronavírus.

Em fevereiro, o Ministério da Saúde afirmou que o governo federal não ampliou a produção de cloroquina, tampouco a de hidroxicloroquina. No ano de 2020, 19 unidades de saúde de municípios do Rio de Janeiro devolveram 19 mil comprimidos de cloroquina enviados pelo governo federal ao estado. O total corresponde a quase metade dos 42 mil comprimidos recebidos pelas unidades de saúde.

Segundo o Exército informou à reportagem, em maio, estavam registrados 298.090 comprimidos de cloroquina em estoque. Questionado, na época, sobre uma redução na quantidade dos medicamentos em comparação com o mês de março (317 mil comprimidos), foi explicado que é devido ao “fornecimento da capacidade prevista para as Regiões Militares”.

Em divulgação nas redes sociais da Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República (Secom), em março do ano passado, era explicado que o medicamento estava aprovado para casos graves da doença e que o Ministério da Defesa anunciava o aumento da produção do medicamento nos três laboratórios das Forças Armadas. No mesmo período, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) defendia o uso em reunião do G-20.

Por meio da Lei de Acesso à Informação (LAI), documentos obtidos pela CNN mostram que, entre abril e agosto, o Ministério da Saúde solicitou aos militares 1,5 milhão de comprimidos de cloroquina para serem distribuídos às Secretarias Estaduais de Saúde. O objetivo do envio dos medicamentos era para “combater a pandemia Covid-19” com base no número de casos suspeitos em cada estado.

Em setembro de 2020, a CNN revelou que o Exército pagou preços superfaturados em insumos para a fabricação da cloroquina. Um contrato a que a reportagem teve acesso mostra que o LQFEX gastou R$ 782,4 mil com a matéria-prima necessária para a produção da cloroquina, pagando 167% acima do valor de mercado — uma compra que foi sinalizada como suspeita pelo Escritório de Contabilidade Geral Federal.

Na época, o Exército não contestou formalmente esse aumento do valor da compra e só cobrou explicações por escrito à empresa depois da negociação, já finalizada, ter virado alvo de uma investigação no Tribunal de Contas da União (TCU). A justificativa dada foi de que os preços subiram por causa das oscilações da taxa de câmbio e do aumento da demanda internacional.

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