Como se manter sensível à pandemia após 600 mil mortes por Covid-19 no Brasil

Cerca de 500 pessoas morrem por dia no país, mas, para não se sentir anestesiado com as estatísticas, é preciso falar das perdas e entender que a pandemia continua

Especialistas destacam que a pandemia de Covid-19 é um momento de luto sem precedentes
Especialistas destacam que a pandemia de Covid-19 é um momento de luto sem precedentes Alex Pazuello/Semcom/Prefeitura de Manaus

Lucas Rochada CNN

em São Paulo

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Todos os dias, a CNN noticia o número de mortes e casos de Covid-19 das últimas 24 horas. Pode parecer algo repetitivo, desnecessário. Mas o destaque dado a esse assunto tem uma motivação além de informar: não deixar esquecer.

Com a evolução da pandemia, as mais diferentes linguagens e termos técnicos passaram a fazer parte do cotidiano de pessoas comuns. Taxa de mortalidade, média móvel de casos e de óbitos, semana epidemiológica. Em alguns momentos os números estiveram no pico; em outros, apresentaram queda.

“Números”. Por trás de cada balanço diário, estão pessoas que não estão mais aqui. E famílias que, pela perda de entes queridos, foram tiradas da sua rotina, do convívio com familiares e amigos e que não têm a chance de voltar à “normalidade” desejada por todos nós.

Transformar a pandemia em números e índices tem um propósito científico e de desenho de políticas públicas. Mas também é um dos motivos pelos quais vamos perdendo a sensibilidade diante da tragédia ao longo do tempo, mesmo com a perda diária de cerca de 500 brasileiros para uma doença para a qual já existem vacinas. Ninguém consegue se manter indignado e triste o tempo todo por tanto tempo.

Na quinta-feira (7), o Brasil atingiu a marca de 600 mil vidas perdidas para a Covid-19. Para dimensionar o peso da crise humanitária causada pelo novo coronavírus, conversamos com especialistas brasileiros que acompanharam a pandemia desde o início, quando os primeiros casos na China, em dezembro de 2019, ainda estavam sendo classificados como “uma pneumonia de origem não identificada”. E com quem perdeu alguém próximo e tem de lidar diariamente com essa dor.

Eles acompanharam a pandemia desde o início

No início da pandemia de Covid-19, a pesquisadora Chrystina Barros, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), tornou-se presença constante na televisão para explicar tudo o que se sabia, até então, sobre o novo coronavírus. Com uma linguagem simples e bastante acessível, Chrystina respondia a dúvidas comuns, como por exemplo, se era possível se contaminar por meio de correspondências ou compras do mercado.

“Quando a gente vê uma tragédia de um acidente aéreo, estamos falando às vezes de 80 ou 100 mortos, mas num evento único, isolado”, pontua. “Seiscentas mil mortes acumuladas ao longo do tempo começam a entrar num entendimento de coisas que são ruins, mas passam a ser transparentes no nosso olhar e ficam incorporadas ao nosso dia a dia. Passamos a entender aquilo como normal”, acrescenta.

Para a especialista, uma das formas de impedir que as perdas da pandemia sejam percebidas como algo “normal” é reforçar o entendimento de que a doença ainda está presente e de forma impactante.

“A única forma que temos de tentar evitar [nos sentirmos anestesiados] é trazer sempre ao debate, trazer a lembrança, tentar humanizar e relembrar o quanto nós somos vulneráveis. O ser humano tem dificuldade de entender grandes números. Mesmo que tenhamos perdido 600 mil vidas, dói mais quando essa morte tem nome e sobrenome, quando é um famoso que a gente gosta”, ressalta.

Hoje, quase um ano e meio após a declaração oficial da Organização Mundial da Saúde (OMS) de situação de pandemia, no dia 11 de março de 2020, a pesquisadora também enfatiza a importância da manutenção de medidas de prevenção contra a doença.

Para o sanitarista Gonzalo Vecina, professor da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP) e ex-diretor da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), a pandemia chegou a uma fase em que as pessoas enfrentam uma grande exaustão.

“Eu tenho feito o possível para manter a minha capacidade de continuar indignado todos os dias. Mas, para isso, precisamos ter uma noção correta do que está acontecendo. A sociedade está muito cansada, e isso vem acontecendo no mundo inteiro. As pessoas estão cansadas de usar máscaras, do distanciamento social, do isolamento e estão querendo alternativas”, afirma.

Segundo o pesquisador da USP, a informação em saúde se tornou uma ferramenta fundamental para evitar que as pessoas relaxem em relação à proteção contra a Covid-19.

“Neste momento, o que temos que fazer é difundir informações da melhor maneira possível e deixar claro para as pessoas que a doença continua sendo muito importante e que tem muitos casos acontecendo. Por outro lado, temos de conseguir informar que existe a possibilidade de fazer algumas coisas”, acrescenta.

Para Vecina, o retorno às atividades deve acontecer de forma gradual, de acordo com os indicadores da pandemia e com a adoção de medidas que restrinjam o acesso de pessoas que optaram por não se vacinar, como os passaportes das vacinas.

“Temos que permitir que as pessoas tenham o mínimo de atividade social, mas exigindo que elas estejam vacinadas. Elas precisam estar minimamente protegidas para não colocar em risco os próximos. Não dá para conviver com uma pessoa que nega a importância da vacina e fazer de conta que está tudo bem”, disse.

A pneumologista Margareth Dalcolmo, da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), no Rio de Janeiro, também se tornou uma das referências em Covid-19 no país. E diz que se manter sensível é conseguir enxergar além da estatística.

“Em primeiro lugar temos de entender que 600 mil não é um número, não é uma taxa, nem uma cifra. São muitas vidas e talvez muitas dessas mortes pudessem ter sido evitadas. Eu vejo esse dado não como um número, mas como muitas vidas e muitas famílias que foram aniquiladas por essas perdas todas. Algumas em condições inaceitáveis, gente que morreu em casa sem ser assistido. Pessoas que não tiveram acesso ao tratamento adequado.”

Em menos de um mês, quatro perdas na família

Em um conjunto de casas na cidade de Valença, no Sul fluminense, moravam quatro irmãs com idades entre 50 e 60 anos. Quem conta a história é a publicitária Andréia Costa de Castro, 41, do Rio de Janeiro, sobrinha das quatro mulheres.

No final de abril, uma delas começou a apresentar sintomas característicos da infecção pela Covid-19. Em cerca de uma semana, outra irmã também manifestou sinais da doença. Algum tempo depois, a infecção já havia atingido quase todos os familiares que moravam próximos.

Em maio, Andréia e os familiares viram a preocupação com os parentes se transformar em pânico. Em meados do mês, o estado de saúde da primeira irmã infectada apresentou piora e ela precisou ser intubada. Três dias depois, ela morreu. No dia seguinte, a segunda irmã também teve o quadro clínico agravado e foi intubada. No dia 11 de maio, faleceu.

Num terrível efeito em cadeia, no dia seguinte, a terceira irmã também precisou ser submetida à intubação. Com o estado agravado, ela foi vítima da doença poucos dias depois. Diante da situação, a quarta irmã foi transferida para o Rio de Janeiro, onde foi internada em outro hospital. No entanto, o agravamento da doença também levou à intubação. No dia 29 de maio, ela foi a quarta vítima da Covid-19 na família em menos de um mês.

“Foi muito difícil. Nós não sabíamos mais o que estava acontecendo, achávamos o tempo todo que estávamos no meio de um pesadelo”, desabafa Andréia.

A pandemia pode transformar a maneira como as pessoas entendem e vivenciam o luto, segundo especialistas / Wilson Dias/Agência Brasil

Andréia conta que, além das tias, a Covid-19 também acometeu outros parentes e o irmão, que conseguiram se recuperar da doença. “Duas cenas ficaram marcadas na minha cabeça. Uma delas é a minha mãe chorando ajoelhada no meu quarto, pedindo ‘pelo amor de Deus, salva o meu filho’. Aquilo partiu meu coração e me tocou muito. No dia seguinte, eu acordei, fiz uma oração e falei ‘eu vou pra lá, eu quero enfrentar isso'”, relembra.

A publicitária viajou do Rio para Valença para cuidar do irmão após ele ter recebido a alta hospitalar. Ainda debilitado, ele precisou de atenção e cuidados em casa, devido às sequelas da Covid-19. Ela conta que o segundo momento marcante da pandemia foi a descoberta pelo irmão da perda das tias.

“Em dado momento da internação, meu irmão foi transferido para a enfermaria comum. Um rapaz que estava internado ao lado dele falou assim: ‘meus sentimentos’.  Ele perguntou por quê. ‘Pelas suas três tias’, respondeu o moço. Ele soube naquela hora e desabou. Ele era muito apegado às minhas tias, morava com elas. Foi um desespero”, conta Andréia. “A gente não podia nem participar do enterro, porque é caixão fechado, uma coisa muito fria.”

O processo de luto

Nas últimas semanas, a média móvel de mortes por Covid-19 no Brasil ficou em torno de 500, o que segundo os epidemiologistas significa um sinal de estabilidade em um patamar elevado. A psicanalista Talita Azambuja, da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP), explica que a sensação de anestesiamento emocional pode ser entendida como um mecanismo de defesa dos indivíduos.

“Isso é uma defesa clássica frente à angústia. Aquilo que a cabeça não tolera, ignora. Isso passa a ser um problema especial, porque ao ignorar as pessoas não se protegem – e nem aos outros – de uma realidade incontornável e comum a todos nós”, afirma.

A especialista destaca que cada indivíduo percebe a realidade à sua volta de forma singular e por isso algumas pessoas apresentam mais dificuldades em lidar com as frustrações da pandemia.

“A maneira de estarmos sensíveis é estarmos conectados com o que a realidade nos traz e com nossas emoções, com nosso mundo interno. Isso é muito favorecido para aqueles que se dedicam ao conhecimento da própria mente, pela análise pessoal, ou dizendo de maneira mais clara, através da terapia pela fala”, pontua.

Segundo a psicanalista, a pandemia e a singularidade desse momento de tantas perdas para a humanidade poderá transformar o entendimento do luto pela sociedade.

“A frequência, a velocidade e a quantidade das perdas e dos processos de luto que enfrentamos atualmente com a pandemia é algo sem precedentes. Não sabemos ainda qual será o resultado disso; estamos observando, e aprendendo com a experiência. O diálogo e a troca generosa entre todos será de grande valia para a construção desse conhecimento”, acrescenta.

Cemitério Nossa Senhora Aparecida, em Manaus (AM)
Os rituais associados ao funeral fazem parte do processo de formação do luto / Altemar Alcantara/Semcom/Prefeitura de Manaus

As restrições impostas à realização de velórios e enterros, como a limitação da quantidade de pessoas ou a obrigatoriedade de caixão fechado, foram características marcantes da perda de entes queridos pela Covid-19. Para a psicanalista, a ausência dos rituais de luto pode trazer impactos para a saúde mental.

“A falta dos rituais pode dificultar o já doloroso e trabalhoso processo de luto perante a perda. Os rituais são grandes auxiliares da aceitação da transformação que a realidade nos impõe a todo momento. Demarcam grandes mudanças e despedidas, seja de uma fase da vida, de uma relação, ou de uma pessoa. Ajudam que aquele que enfrenta a mudança tenha mais condições de percebê-la e aceitá-la”, explica.

Segundo Talita, os rituais são de extrema importância pois através deles simbolizamos nossa existência, o mundo em que vivemos, a passagem do tempo e, consequentemente, nossas perdas. Nesse caso, o apoio de familiares e amigos é um ponto essencial para amenizar os impactos da ausência.

“O ser humano tem uma capacidade enorme de se reinventar e, naturalmente, a análise pessoal nos ajuda a encontrarmos lugares de mente para lidarmos com a perda e o vazio. É preciso que a pessoa esteja amparada, sentindo-se acompanhada de alguém, para poder reinventar novas formas de amar. Acredito na esperança e na capacidade de desenvolver o amor”, conclui.

Lições da pandemia

A pandemia de Covid-19 provocou uma crise global, com impactos sanitários, econômicos e sociais. Países em todo o mundo recorreram, ao mesmo tempo, a equipamentos de proteção individual (EPIs), insumos farmacêuticos e, por fim, às vacinas.

Segundo epidemiologistas, uma das principais lições desta pandemia é evitar a concentração da produção e exportação de itens essenciais de saúde em poucos países, como a China.

Para a pesquisadora da Fiocruz, Margareth Dalcolmo, a Covid-19 trouxe ao menos mais dois alertas: a necessidade de reforço o investimento público no Sistema Único de Saúde (SUS) e a preparação para o enfrentamento de outras pandemias.

“A nossa arma mais poderosa, que é o SUS, tem de ser muito valorizada. Foi o SUS que mais salvou vidas no Brasil, apesar dos pesares. No dia 13 de março de 2020, eu afirmei que nós tínhamos duas armas poderosas para enfrentar o ‘tsunami’ que estava por vir, o SUS e o distanciamento físico, considerando uma doença de alta transmissibilidade”, afirmou Margareth.

A pesquisadora aponta que o Brasil apresenta uma taxa de mortalidade considerada alta para a doença. “O país teve 600 mil mortes e quase 22 milhões de casos, então há uma desproporção muito grande. Quando você analisa a mortalidade, ou seja, número de casos registrados como morte por Covid-19, a nossa taxa também é bastante superior a outras médias, incluindo europeias e a americana”, afirma Margareth.

Manutenção da queda de casos e óbitos

O avanço das campanhas de vacinação no Brasil nas últimas semanas refletiu na queda dos índices de casos e de mortes pela Covid-19. No entanto, os especialistas ressaltam que a melhora não pode ser entendida como motivo para o relaxamento das medidas de prevenção contra a doença.

A pesquisadora Chrystina Barros, da UFRJ, explica que o retorno seguro às atividades depende da vacinação completa contra a Covid-19, com as duas doses para imunizantes com esse regime, e a adoção das medidas chamadas “não farmacológicas”, que incluem o uso de máscaras, a higienização das mãos com água e sabão com regularidade, o uso de álcool em gel e o distanciamento físico.

Para a especialista, a realização de eventos com grande número de pessoas, como o réveillon e o carnaval, deve ser avaliada com prudência por gestores da saúde e governos estaduais e municipais. Segundo Chrystina, eventos desse porte só poderão ser feitos com segurança com uma cobertura vacinal acima de 80% da população.

“A partir do momento em que a gente tenha a cobertura vacinal em níveis que mostrem uma queda efetiva para o controle da disseminação da Covid-19, aí sim vamos ter o sinal verde tanto pro réveillon quanto para o carnaval”, afirma.

Margareth Dalcomo, da Fiocruz, destaca ainda a importância do monitoramento das linhagens virais do novo coronavírus em circulação no país.

“É absolutamente fundamental investir na vigilância genômica, ou seja, no monitoramento das cepas que circulam. Nós precisamos monitorar o que está circulando e verificar a  intensidade, porque nós não podemos assegurar que não vão aparecer novas cepas, que podem ser mais transmissíveis, como a variante Delta”, afirma Margareth.

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