“Covid longa é hoje o maior desafio médico a ser enfrentado”, diz Margareth Dalcolmo

Pesquisadora da Fiocruz falou sobre os impactos e cuidados com a manifestação persistente da doença, em evento realizado nesta quinta-feira (2)

Foto: Governo do Estado de São Paulo

Iuri Corsinida CNN

no Rio de Janeiro

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A pneumologista e pesquisadora da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) Margareth Dalcolmo afirmou, em evento realizado nesta quinta-feira (2) pela fundação, que a Covid longa é, atualmente, o maior desafio médico a ser enfrentado.

Segundo a especialista, a preocupação ocorre diante da complexidade e diversidade dos efeitos a médio e longo prazos da Covid-19 no organismo humano. A Covid longa, também denominada síndrome pós-Covid, é assim caracterizada pela ocorrência de sintomas e efeitos da Covid-19 que persistem por semanas ou meses após a infecção inicial.

“Tenho visto muitos pacientes de Covid-19 que não recuperam as funções respiratórias no sentido de deixá-los aptos a levarem uma vida normal como levavam antes. Pessoas que perdem sua capacidade respiratória, sobretudo para suas atividades aeróbicas, e isso gera um impacto muito grande. Exige reabilitação. E não é só respiratória”, disse Margareth.

Segundo a pesquisadora, o tratamento da Covid longa exige um trabalho transdisciplinar, devido à sua complexidade e dimensão.

“Não é só reabilitar respiratoriamente”, disse, “mas reabilitar do ponto de vista motor. Pessoas que saíram com grandes sequelas cardiovasculares e, surpreendentemente, muitas sequelas do ponto de vista psicológico e psiquiátrico. Pessoas que saem com trauma, seja pela longa internação, pelo medo que viveram, pelo terror e solidão e todo o impacto que causaram as internações longas, e também pela própria vivência com a doença”.

Margareth fez o alerta durante um webinar realizado pela Fiocruz, que abordou os desafios futuros e fez um balanço da pandemia de Covid-19 no Brasil. O evento contou com a participação de outros pesquisadores como Julio Croda, Fernando Bozza, Ana Lúcia Pontes e Maria Helena Machado.

De acordo com Margareth, a Covid longa tem consequências que vão do ponto de vista clínico, incluindo questões médicas sofisticadas, a investimentos sociais de reintegração das pessoas afetadas a grupos de trabalho e a grupos sociais.

“Essa recuperação exige complexidade, investimento, porque muitas dessas pessoas tiveram problemas vasculares, inclusive com amputações de membros. Tudo isso exige reabilitação para que elas tenham reincorporação não só na sua vida, como no próprio mercado de trabalho”, pontuou.

Ao concluir, a especialista afirmou que é preciso preparo para as próximas epidemias que virão, uma vez que a Covid-19 “não será a última epidemia de nossas vidas”, e fez um apelo a mais investimentos e a uma melhora na formação médica em relação à preparação para lidar com pandemias.

“Não podemos ser surpreendidos de novo como fomos, sem EPIs [equipamentos de proteção individual] e sem gente suficientemente qualificada para enfrentar pandemias. Isso passa desde a formação da graduação das escolas médicas, sobretudo, que têm que começar a tratar desses assuntos”, finalizou.

Segundo uma pesquisa publicada pela Fiocruz em meados de maio, mais de 50% dos infectados pela Covid-19 desenvolvem sequelas a longo prazo. Foram contabilizados 23 sintomas diferentes desenvolvidos após o término da infecção por Covid-19. A principal queixa relatada pelos pacientes foi em relação à fadiga, que se caracteriza por cansaço extremo e dificuldade em realizar atividades rotineiras.

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