Crianças mais novas, que morrem mais por Covid, serão as últimas vacinadas; entenda

De acorco com dados de cartórios, 324 crianças de cinco a onze anos morreram em decorrência da Covid-19 desde o início da pandemia

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Ingrid Oliveirada CNN

São Paulo

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O governo federal já recebeu as doses para a vacinação contra o coronavírus em crianças de cinco a 11 anos. As vacinas do imunizante da Pfizer, aprovado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária para uso nas crianças, chegou ao país na madrugada de 13 de janeiro.

Após muita discussão acerca do tema, consulta pública e audiência, o ministério da Saúde incluiu o grupo no Plano Nacional de Operacionalização da Vacinação contra a Covid-19 (PNO). O Brasil tem cerca de 20 milhões de crianças nesta faixa etária.

 

De acordo com o dados compilados pela Arpen Brasil (Associação Nacional dos Registradores de Pessoas Naturais), uma plataforma de Transparência do Registro Civil, em 11 de janeiro, cartórios registraram 324 mortes de crianças de cinco a 11 anos por Covid-19. Nesta faixa etária, ainda houveram 77 mortes por Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG), 30 por causas indeterminadas e 57 mortes súbitas.

Para o presidente do Departamento Científico de Infectologia da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), Marco Aurélio Sáfadi, houve um “equívoco, desde o início da pandemia, no que diz respeito à importância do coronavírus no grupo pediátrico.”

Ele disse à CNN que “se esquecermos a Covid-19 na população de adultos e nos concentramos no que ela representa para as crianças, chegamos à conclusão de que é uma doença de muito impacto na população pediátrica, com número de hospitalizações muito grande, número de mortes que nenhuma doença, que seja passível de prevenção por vacina, teve.”

AInda de acordo com a Arpen, as crianças mais afetadas pela doença foram aquelas de cinco anos, com 65 mortes registradas, seguida pelas que tinham seis anos, com 47 registros, pelas de sete e pelas de 11 anos, ambas com 46 falecimentos registrados. Crianças de 10 anos totalizaram 43 óbitos, as de nove, 40, e as de oito, 37 mortes.

À CNN, Delcides Neto, professor de pediatria na Universidade Federal do Tocantins (UFT), disse que esse número não pode ser levado como base para justificar prioridade do grupo, já que “há muitas mortes em outras faixas etárias abaixo de cinco anos e até mesmo acima dos 11.”

Neto ainda destaca que pode haver subnotificação no número de óbitos. “No Brasil, nós temos uma dificuldade em notificar, como a gente teve nesse último mês uma invasão nos sistemas, as alimentações [de dados] não foram legais. Mas como um todo, o Brasil não notifica muito bem”, disse.

Vacinação em forma decrescente

Alguns municípios já começaram a organizar o calendário vacinal das crianças, por recomendação do ministério da Saúde, elas devem ser vacinadas em ordem decrescente, ou seja, de 11 aos cinco anos — priorizando os grupos com comorbidade (assim como em adultos).

Apesar disso, as cidades têm autonomia para organizar o calendário e não seguir a orientação da pasta.

Como o número de crianças mais novas que morrem por Covid-19 é maior, alguns discutem se deveria haver prioridade para os mais jovens.

Estevão Urbano, infectologista da Sociedade Mineira de Infectologia, disse à CNN que “o objetivo de vacinar depois as crianças que talvez tenham até maior risco [de morte por Covid] é porque as pesquisas estão sendo feitas mais tardiamente com foco nessas faixas etárias.”

“Quando você tem uma nova vacina, ela é estudada, demonstra a segurança nos adultos e depois vai reduzindo a faixa etária”, disse Sáfadi, da SBP.

À CNN, Gabriela Bonente, pediatra e intensivista no Hospital Albert Einstein e Hospital M’ Boi Mirim comenta que a vacina da Covid foi liberada após estudos, mas desenvolvida em caráter de urgência.

“No início da pandemia, as crianças não eram a população com maior mortalidade e por isso optou-se por priorizar os adultos. Atualmente, com o surgimento das novas variantes e maior cobertura vacinal dos adultos, elas estão sendo mais acometidas”, disse.

Neto, da UFT, acredita que a escolha do ministério da Saúde, de colocar a vacinação em “ordem decrescente de idade, talvez seja uma forma de organizar a distribuição.”

Confira orientações do Ministério da Saúde diante do diagnóstico de Covid-19

Crianças mais novas, maior risco de morte

Apesar de as crianças mais novas estarem no grupo de maior risco, o pediatria da SPB, Marco Aurélio Sáfadi, diz que há “várias doenças infecciosas que têm uma carga de morte maior nas crianças pequenas, como pneumonia e bronquiolite, e isso tem sido algo que a gente tem visto com a Covid-19.”

Sáfadi destaca que a “maior taxa de morte, no entanto, tem sido observada em bebês — grupo que não será vacinado — mas outros fatores, como prematuridade e comorbidades, podem ampliar ainda mais o risco”, disse.

Gabriela Bonente, explica que isso acontece também porque “as crianças mais novas acabam sendo mais suscetíveis a alguns tipos de doenças e também a infecções no ambiente intra-hospitalar.”

Sáfadi falou que a taxa de mortalidade no primeiro ano de vida é muito alta por si, e que, no que diz respeito à Covid-19, “alguns testes para menores de cinco anos já estão acontecendo, mas os resultados ainda não foram compilados, por isso a vacina ainda não está liberada para eles”, disse.

Ainda assim, o pediatra aponta que há um protagonismo da SARS-CoV-2 como causa de morte [nas crianças].”

 

Síndrome inflamatória multissistêmica pediátrica

Além de contarem com um sistema imunológico mais fraco, as crianças mais novas enfrentam outro desafio após a Covid: a síndrome inflamatória multissistêmica pediátrica (SIM-P).

A SIM-P é uma complicação da infecção pelo SARS-CoV-2 na população de 0 a 19 anos, caracterizada por uma resposta inflamatória tardia e exacerbada que, em geral, acontece dias ou semanas após a Covid-19.

Apesar de rara, é uma doença potencialmente grave e grande parte dos casos necessita de internação em unidade de terapia intensiva (UTI).

Segundo dados do Ministério da Saúde, foram 1.377 casos registrados entre 2020 e 2021, sendo que o maior número de notificações foi em crianças de um a quatro anos, acometendo 456 crianças, ou 33,1 % do total.

A pasta também informa que foram 84 óbitos pela síndrome nesse período e que as crianças de cinco a nove anos foram as mais acometidas, com 23 mortes.

Relação de casos e óbitos por Sindrome Inflamatória Multissistêmica entre 2020 e 2021 em crianças / Ministério da Saúde / reprodução

A pediatra especializada em pneumologia Ingrid Teixeira, disse à CNN que a SIM-P é uma resposta exacerbada do nosso sistema imunológico aos agentes infecciosos.

“Esse é um dos motivos para o número de morte entre as crianças, pois elas ainda estão com o sistema imune em formação e não têm uma resposta tão acentuada. Essa “resposta imune” exacerbada, que muitos de nós temos, é que pode levar à gravidade da doença. A cascata de citocinas inflamatórias que liberamos para combater o agente infeccioso é menor nas crianças”, explica.

Sáfadi destaca muitas crianças que sobrevivem à Covid têm sequelas da doença e são acometidas pela SIM-P. “A SIM-P é uma complicação que a maioria das crianças que foram acometidas eram saudáveis. Ela é relativamente rara dentro do contexto, mas também é um cenário relevante, são mais de mil hospitalizações desta síndrome, com uma letalidade de 6%”, disse.

O presidente do Departamento Científico de Infectologia da SPB diz que boa parte dessas crianças vai precisar de terapia pós Covid. “Precisarão de terapia intensiva por conta das sequelas neurológicas e cardíacas”, disse.

Ingrid Teixeira ressalta “que é importante que as crianças sejam acompanhadas de perto por um pediatra, de preferência regularmente. Dessa forma, o profissional poderá identificar qualquer adversidade e, se necessário, adotar medidas intervencionistas antes que a resposta inflamatória se torne multissitêmica, evitando o agravamento da doença.”

O ministério da Saúde lançou uma plataforma de monitoramento nacional da ocorrência da SIM-P associada à Covid-19, em 24 de julho de 2020.

Os sinais observados no quadro pós coronavírus envolvem:

  • Presença de febre elevada  e persistente por três dias; 
  • Conjutntivite não purulenta;
  • Inflamações na cavidade oral, pés e mãos;
  • Hipotensão arterial ou choque;
  • Manifestações de disfunção miocárdica, como batimentos acelerados;
  • Problemas gastrointestinais agudos (diarreia, vômito ou dor abdominal).

Em caso de qualquer sintoma, procurar a unidade de saúde.

A pediatra Ingrid Teixeira diz que os cuidados pós Covid-19 envolvem manter bons níveis de vitaminas, minerais, substâncias antioxidantes e imunomoduladoras no organismo, na tentativa de prevenir uma resposta inflamatória multissistêmica, assim como agravos à saúde de forma geral.

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