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    Saiba como é feito o diagnóstico laboratorial da varíola dos macacos

    Ministério da Saúde recomenda que o teste seja feito em todos os pacientes com suspeita da doença; sintomas incluem lesões na pele, aumento dos gânglios, febre e dores no corpo

    Diagnóstico laboratorial da varíola dos macacos
    Diagnóstico laboratorial da varíola dos macacos Josué Damacena/IOC/Fiocruz

    Lucas Rochada CNN

    em São Paulo

    A varíola dos macacos – ou monkeypox – pode causar sintomas como lesões na pele, aumento dos gânglios, febre, dores no corpo além de fraqueza e indisposição. Diante de sinais suspeitos da doença, deve-se buscar atendimento especializado para a realização do diagnóstico laboratorial.

    O Ministério da Saúde recomenda que o teste seja feito em todos os pacientes com suspeita da doença e que o isolamento comece antes mesmo do resultado dos exames.

    A amostra a ser analisada deve ser coletada preferencialmente das secreções das lesões. No entanto, se elas já estiverem secas, amostras das crostas formadas devem ser encaminhadas para estudo.

    Nos casos em que os pacientes não apresentam lesões na pele, pode ser coletada amostra da boca e da garganta (orofaringe) por meio de swab (cotonete), de maneira semelhante à utilizada no diagnóstico de Covid-19, ou de amostras por via anal ou genital.

    Como é realizado o diagnóstico de monkeypox

    O diagnóstico da varíola dos macacos é realizado de forma laboratorial, por teste molecular ou sequenciamento genético.

    O diagnóstico molecular (chamado tecnicamente de RT-PCR) é considerado a técnica padrão ouro para a detecção de vírus. O método permite a identificação do material genético de um microrganismo e tem sido amplamente utilizado no diagnóstico do SARS-CoV-2, por exemplo, na pandemia de Covid-19.

    Já o sequenciamento genético é uma técnica mais complexa, associada à identificação de bases do DNA viral. Com o mapeamento genético, é possível comparar o genoma do vírus com outros disponíveis nas bases de dados, por exemplo.

    A médica infectologista Mirian Dal Ben, do Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo, afirma que não há disponibilidade de testes de sorologia ou de antígeno para monkeypox e que a maneira mais eficiente de diagnóstico é a detecção do vírus nas lesões por teste molecular (PCR).

    “O diagnóstico correto é feito a partir do momento em que você coleta uma amostra da lesão de pele, que pode ser tanto da lesão bem ativa, com úlcera ou bolhas com líquido dentro, quanto da lesão de pele com crostas, que são casquinhas. Essa amostra é enviada ao laboratório, que realiza uma técnica chamada PCR que nada mais é do que detectar o material genético do vírus da monkeypox”, explica Mirian.

    Após a realização do teste, o material é encaminhado pelos estados para a rede de referência laboratorial.

    Atualmente são oito unidades, sendo quatro Laboratórios Centrais de Saúde Pública (Lacens), nos estados de São Paulo, Minas Gerais, Rio Grande do Sul e no Distrito Federal. Além de quatro unidades de referência nacional, da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) localizadas nos estados do Rio de Janeiro e Amazonas, na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e no Instituto Evandro Chagas, no estado do Pará.

    De acordo com o Ministério da Saúde, a previsão para o resultado do teste molecular é de até 72 horas após o recebimento da amostra no laboratório de referência. Em caso de necessidade de realização do sequenciamento genético, este resultado é liberado em até cinco dias, após o resultado do teste molecular.

    Como são obtidos os resultados

    Os resultados dos testes processados pelos laboratórios são disponibilizados em um sistema chamado Gerenciador de Ambiente Laboratorial (GAL). O profissional de saúde que solicitou o exame tem acesso ao resultado e pode comunicar aos pacientes via serviço de saúde.

    Para quem testou positivo, a conduta recomendada é a manutenção do isolamento até desaparecimento das crostas e a completa cicatrização da pele, sem a necessidade de um novo teste.

    A varíola dos macacos é, na maioria das vezes, uma doença autolimitada, com sinais e sintomas que duram de duas a quatro semanas. O período de incubação, fase em que a pessoa não apresenta sintomas, dura em média de 6 a 13 dias, mas pode chegar a 21 dias.

    Na maior parte dos casos, a infecção não requer internação e o tratamento oferecido é de suporte, com o objetivo de aliviar sintomas, prevenir e tratar complicações. Os medicamentos que podem ser utilizados em caso de dor ou febre são dipirona e paracetamol. Para casos mais severos, o uso de opioides, sob prescrição médica, pode ser necessário.

    Quem deve fazer o teste

    O Ministério da Saúde recomenda que o teste seja feito em todos os pacientes com suspeita da doença. Em nota técnica com orientações para as equipes da Atenção Primária à Saúde (APS) divulgada no último dia 5, a pasta recomenda que pessoas com lesão de pele característica ou que preencham um ou mais dos critérios epidemiológicos definidos no conceito de caso suspeito devem ser testadas.

    De acordo com o documento, um caso suspeito é definido pela apresentação de início súbito de erupção cutânea aguda sugestiva de monkeypox. A lesão pode ser única ou múltipla, em qualquer parte do corpo, incluindo a região genital, associada ou não ao aumento de tamanho dos gânglios (adenomegalia) ou relato de febre.

    Além disso, os profissionais de saúde devem considerar informações epidemiológicas que podem direcionar o pedido de exame, como o contato com casos suspeitos ou confirmados, ou histórico de contato íntimo com desconhecidos ou parceiros casuais nos últimos 21 dias que antecederam o início dos sinais.

    “Já atendi paciente no consultório que tinha lesão na região genital e que relatou ter tido contato com paciente que havia passado no Emílio Ribas e confirmado monkeypox. Epidemiologicamente, há praticamente uma certeza, mas como se tratam de lesões com características parecidas com outras infecções, como herpes, é importante a realização do PCR para fazer o diagnóstico certeiro”, afirma Mirian.

    Uma das características principais da varíola dos macacos é a manifestação na pele, na forma de bolhas ou lesões que podem aparecer em diversas partes do corpo, como rosto, mãos, pés, olhos, boca ou genitais. No entanto, no surto atual da doença que atinge múltiplos países, cientistas têm descrito novos sintomas associados à infecção.

    De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), os novos sintomas podem surgir como lesões na área genital ou do ânus que não se espalham pelo corpo, além de feridas que aparecem em diferentes estágios de desenvolvimento. Além disso, há relatos de aparecimento de lesões antes do início da febre, mal-estar e outros sintomas da doença.

    “A apresentação clínica da monkeypox no surto atual está bem variada. Há pacientes com lesão única, com lesão múltipla, restrita à região genital ou com lesões no corpo inteiro. A lesões estão se manifestando de forma assíncrona também. Na característica anterior, elas estavam todas na mesma fase de evolução, quando uma entrava na fase de formar casquinhas, todas entravam também”, explica Mirian.

    Pesquisadores do Reino Unido divulgaram, em um estudo publicado no periódico BMJ, que pacientes apresentaram dois novos sinais da doença: dor na região do ânus e inchaço do pênis. Os achados são resultado de uma análise observacional de 197 pessoas que tiveram o diagnóstico da doença e foram acompanhadas por meio de um centro de doenças infecciosas de alta consequência do sul de Londres, na Inglaterra.

    Um outro estudo, realizado na Espanha, aponta que em vez da tradicional manifestação na pele na forma de bolhas ou grandes lesões que podem aparecer em diversas partes do corpo, a doença pode causar feridas menores, chamadas pápulas ou pseudopústulas, que podem estar concentradas no local onde ocorreu a infecção, como a região genital. A pesquisa sugere que a manifestação mais discreta da doença pode levar à falta de diagnóstico adequado e precoce.

    Lesões na pele são um dos principais sintomas da varíola dos macacos / Kateryna Kon/Science Photo Library/Getty Images

    Isolamento e cuidados

    Crianças, gestantes e pessoas com deficiências imunológicas podem apresentar risco de sintomas mais graves. O Ministério da Saúde recomenda que os cuidados voltados para essa população de risco sem sinais de gravidade, incluindo o local de isolamento desta população, devem ser analisados caso a caso.

    Em relação aos pacientes com bom estado geral, que não fazem parte da população de risco, recomenda-se que seja prescrito tratamento dos sintomas. O paciente deve permanecer isolado, preferencialmente em ambiente domiciliar, até a liberação dos resultados laboratoriais. Nesse momento, o paciente deve passar por nova avaliação médica e receber orientações quanto ao tratamento.

    As lesões na pele devem ser cobertas o máximo possível, com o uso de camisas de mangas compridas e calças, também para minimizar o risco de contato com outras pessoas. As roupas devem ser trocadas se ficarem úmidas e higienizadas de maneira separada. Para evitar o risco de contaminação de outras partes do próprio corpo, o paciente deve evitar tocar nas feridas e não levar as mãos à boca e aos olhos, por exemplo.

    O médico Demetrius Montenegro, consultor da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI), orienta que as bolhas, características da doença, não devem ser estouradas. A higienização da pele e das lesões pode ser realizada com água e sabão.

    “O paciente deve evitar o manuseio das lesões. Se tocar a lesão, lave as mãos com água e sabão e utilize o álcool em gel para evitar a contaminação de outras partes do próprio corpo”, afirma.

    O especialista recomenda que os pacientes evitem a automedicação e utilizem somente os fármacos prescritos pelo profissional de saúde. “A automedicação tem que ser evitada. O paciente recebe recomendações de analgésicos, para o caso de dor, então é importante seguir as orientações nesse sentido”, alerta.

    De acordo com o Ministério da Saúde, o Brasil registra 2.893 casos confirmados de varíola dos macacos nos estados de São Paulo (2.019), Rio de Janeiro (342), Minas Gerais (133), Distrito Federal (100), Paraná (62), Goiás (60), Bahia (26), Ceará (14), Rio Grande do Norte (10), Espírito Santo (8), Pernambuco (15), Tocantins (1), Maranhão (2), Acre (1), Amazonas (9), Pará (2), Paraíba (1), Piauí (1), Rio Grande do Sul (38), Mato Grosso (4), Mato Grosso do Sul (10), e Santa Catarina (35).

    Testes brasileiros da Fiocruz

    A Fiocruz desenvolveu dois testes para o diagnóstico da doença, o kit molecular Monkeypox (MPXV) e o kit molecular 5PLEX OPV/MPXV/VZV/MOCV/RP. Os dois testes permitem identificar a presença do material genético do vírus em uma amostra.

    O kit molecular Monkeypox (MPXV) faz a identificação, em uma mesma amostra humana, das duas cepas geneticamente distintas do vírus Monkeypox. A cepa da África Central (Congo) e a cepa da África Ocidental, esta com circulação já confirmada no Brasil, segundo a Fiocruz.

    O produto utiliza a tecnologia de PCR em tempo real, que permite identificar o material genético do vírus a partir da coleta de amostras das lesões na pele do paciente com suspeita da doença. De acordo com a Fiocruz, o kit foi desenvolvido a partir das recomendações da OMS para o diagnóstico da doença.

    O segundo kit molecular da Fiocruz faz a detecção e diagnóstico diferencial, em ensaio contendo diferentes alvos virais.

    Com a mesma tecnologia do primeiro teste, o produto é destinado a um protocolo que permite a diferenciação clínica em casos anteriormente classificados como “negativos” (sem infecção pelo vírus causador do monkeypox).

    Segundo a Fiocruz, a metodologia confere maior capacidade de esclarecimento diagnóstico, com a diferenciação dos vírus relacionados. Os dois testes foram submetidos para registro junto à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

    Anvisa avalia registro de testes

    A Anvisa avalia seis pedidos de registro de testes para o diagnóstico de varíola dos macacos.

    Os dois primeiros produtos foram Viasure Monkeypox Virus Real Time PCR Detection Kit, fabricado na Espanha pela empresa CerTest Biotec, e Monkeypox Virus Nucleic Acid Detection Kit, fabricado na China pela empresa Shanghai BioGerm Medical Technology.

    Segundo a Anvisa, os dois testes são ensaios que permitem o diagnóstico molecular do vírus. Os kits passaram pela avaliação do corpo técnico e aguardam complementação de informações por parte das empresas para continuidade da análise.

    O terceiro produto, chamado Standard M10 MPX/OPX, teve o pedido de registro submetido no dia 8 de agosto. O diagnóstico molecular é fabricado pela empresa brasileira Eco Diagnóstica, com parte da produção fora do país. A análise técnica da documentação está em andamento, segundo a Anvisa.

    Os pedidos mais recentes, recebidos pela Anvisa na última quarta-feira (10), são: Monkeypox Virus Antigen Rapid Test, que é o primeiro pedido relacionado a teste rápido para detecção de antígeno, fabricado pela empresa chinesa Shanghai BioGerm Medical Technology, e dois kits de diagnóstico molecular fabricados no Brasil pelo Instituto de Tecnologia em Imunobiológicos, da Fiocruz.