Especialistas explicam o que pode provocar uma nova pandemia de gripe

Vírus influenza, causador da gripe comum, possui uma capacidade de mutação muito maior do que a do novo coronavírus; última pandemia de influenza foi em 2009

Imagem microscópica do vírus influenza, causador da gripe comum
Imagem microscópica do vírus influenza, causador da gripe comum CDC/Unsplash

Lucas Rochada CNN

em São Paulo

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O vírus influenza, causador da gripe comum, possui uma capacidade de mutação muito maior do que a do novo coronavírus. Uma das principais preocupações dos cientistas é a possibilidade do surgimento de novos vírus capazes de provocar pandemias, como aconteceu pela última vez em 2009.

Apesar do monitoramento constante realizado por uma rede de vigilância global, prever quando acontecerá uma nova pandemia de influenza ainda é um desafio.

Pesquisadores consultados pela CNN explicam as condições que podem levar a uma nova epidemia global de gripe e falam sobre as medidas que podem minimizar os impactos de um vírus com esse perfil.

A pandemia de 2009

No dia 11 de junho de 2009, a Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou situação de pandemia de influenza devido ao impacto em grande escala causado por uma cepa do vírus A (H1N1).

O episódio, que ficou conhecido como “gripe suína” à época, provocou a morte de 151 mil a 575 mil pessoas em todo o mundo, de acordo com um estudo publicado por pesquisadores dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC), dos Estados Unidos, no periódico científico Lancet Infectious Diseases, em 2012.

Como surgem as pandemias de gripe

Os vírus do tipo influenza sofrem mutações frequentes, em uma proporção muito mais elevada do que os coronavírus, por exemplo. Essas diversas variações do vírus da gripe estão em circulação a todo momento pelo mundo.

Embora a circulação seja constante, o vírus tem uma característica sazonal, ganhando mais intensidade nas infecções no período do inverno. A transmissão acontece por espirro, tosse e contaminação de mãos e superfícies, assim como o SARS-CoV-2, vírus da Covid-19.

A virologista Marilda Siqueira, do Laboratório de Vírus Respiratórios e do Sarampo do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz), explica que as pandemias de influenza acontecem quando uma nova cepa viral surge a partir de rearranjos no genoma do vírus.

“Frente a esta nova variação do vírus, o conjunto de anticorpos das pessoas que já tiveram contato com os outros vírus influenza é ineficaz. Como resultado da combinação entre a característica de ausência de imunidade das pessoas e a rota de transmissão respiratória da gripe, que torna o ritmo do seu espalhamento muito acelerado e dificilmente controlável, as novas variações genéticas do influenza têm potencial de se espalhar pelo mundo”, diz.

Esse novo microrganismo pode levar a um número expressivo de infecções, cuja intensidade pode variar, entre grave e branda, de uma pandemia para outra. Os fatores que influenciam esse impacto ainda permanecem desconhecidos pela comunidade científica.

Vigilância genômica dos vírus da gripe pode levar à identificação de cepas com potencial pandêmico / Josué Damacena/IOC/Fiocruz

Fatores genéticos do vírus

Uma das pandemias de maior impacto dos últimos tempos, a chamada “gripe espanhola”, de 1918, causou entre 20 e 40 milhões de mortes no mundo, segundo a OMS.

A emergência de uma pandemia depende de estruturas microscópicas do vírus. Durante a infecção, o sistema imunológico é afetado por duas proteínas presentes na superfície do vírus Influenza A, chamadas hemaglutinina e neuraminidase.

Essas proteínas, essenciais para a capacidade de infecção do influenza, compõem as iniciais H e N que estabelecem o nome de cada variedade genética do vírus. Existem pelo menos 18 subtipos de hemaglutininas e 11 subtipos de neuraminidases descritos. O vírus A (H3N2), por exemplo, contém hemaglutinina subtipo 3 e neuraminidase subtipo 2.

A compreensão das características genéticas do vírus é um passo fundamental para a vigilância. As pandemias surgem na medida em que a composição genética do vírus sofre alterações.

No processo de replicação, o vírus deveria produzir cópias idênticas de si mesmo. No entanto, rearranjos genéticos acontecem quando duas (ou mais) variações do vírus influenza infectam e se multiplicam dentro de uma mesma célula de um hospedeiro.

Com dois (ou mais) vírus simultâneos no processo de produção de cópias, um rearranjo entre os genomas pode originar uma nova variedade genética.

De acordo com os pesquisadores, a pandemia mais recente de influenza surgiu a partir de um rearranjo do genoma de dois vírus que infectaram porcos de forma simultânea. Dessas mutações, teria surgido uma cepa capaz de infectar os humanos.

A complexidade que envolve o mecanismo de rearranjo genético torna praticamente impossível prever o surgimento de uma próxima pandemia de gripe

Marilda Siqueira, pesquisadora da Fiocruz

A pesquisadora da Fiocruz defende o investimento no sistema de vigilância epidemiológica e laboratorial, que possibilita a detecção dos primeiros casos de forma precoce.

Os países contam com planos nacionais para o enfrentamento de uma possível pandemia de influenza. No caso do Brasil, a estratégia contempla diretrizes que norteiam a ação dos serviços de saúde e orientações para situações de emergência.

O plano tem por objetivo reduzir o impacto em termos de morbidade e mortalidade, otimizar os recursos, reduzir os impactos socioeconômicos e a manutenção do funcionamento dos serviços essenciais do país.

“O plano de preparação para uma pandemia contempla diversos cenários que envolvem variáveis no que diz respeito à apresentação clínica, ao impacto da infecção, entre outros parâmetros que são analisados e definem ações, como o fechamento de escolas e aeroportos e o cancelamento de eventos públicos, por exemplo”, explica Marilda.

A especialista, que participou da construção do documento brasileiro, acrescenta que a velocidade no compartilhamento de dados científicos é fundamental para garantir uma resposta de saúde pública adequada.

“A disponibilização dos dados genéticos que caracterizam a variedade do vírus com potencial pandêmico, tão logo tenha sido detectado, é crucial para que o plano seja colocado em ação de forma eficaz. Da parte da população, cabe seguir a estratégia preconizada pelo Ministério da Saúde”, diz.

Diante da variante Ômicron, do novo coronavírus, a OMS orientou que os países devem melhorar a vigilância e os esforços para a realização do sequenciamento genômico do vírus, o que permite compreender melhor as variantes circulantes.

Segundo a OMS, os cientistas devem enviar as sequências completas do genoma e dados associados sobre a variante para um banco de informações disponíveis publicamente, como o GISAID.

Vacina contra a gripe é atualizada anualmente com o objetivo de manter a proteção contra a doença / Thamyres Ferreira/MS

Lições da pandemia de 2009

Desde 2009, a OMS adota uma série de medidas que visam o aperfeiçoamento das estratégias para uma nova pandemia de gripe.

“Há um movimento a nível global em termos da organização de grupos de trabalho, realização de reuniões científicas e no assessoramento aos países. O vírus Influenza é contemplado em vários tratados internacionais, devido ao potencial nocivo de uma próxima pandemia, tanto em relação à saúde, como os impactos econômicos e sociais”, afirma a pesquisadora da Fiocruz.

Desde 2009, houve um aumento no número de unidades sentinelas que monitoram os casos de Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG) e da Síndrome Gripal (SG). A rede de unidades sentinelas, distribuídas em serviços de saúde de todos os estados, aliada a uma rede de laboratórios de referência permite o acompanhamento da circulação do vírus influenza no país pelo Ministério da Saúde.

Além da pandemia de gripe de 1918, outras epidemias globais surgiram no mundo, com menor gravidade, dentre elas a gripe asiática (1957), causada pelo vírus Influenza A (H2N2), e a gripe de Hong Kong (1968), ocasionada pela cepa Influenza A (H3N2).

“O sequenciamento genético é fundamental para o acompanhamento da evolução do vírus e uma ferramenta importante para o desenvolvimento de protocolos de diagnóstico”, disse Fernando Motta, pesquisador do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz).

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