Especialistas pedem cautela no uso de testes rápidos, agora custeados por planos

Número limitado de kits de testagem e dificuldade para importação de insumos são alguns dos problemas

Stéfano Sallesda CNN

no Rio de Janeiro

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Anunciada na quarta-feira (19), a decisão da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) de aprovar a inclusão dos testes rápidos no rol de procedimentos obrigatórios dos planos de saúde foi aprovada por especialistas.

Com a mudança, os consumidores que tenham cobertura de assistência médica privada não precisarão mais pagar para fazer o teste de maneira particular. No entanto, eles alertam para as limitações impostas pelo momento da pandemia e pela legislação.

Diretor de análises clínicas da Associação Brasileira de Medicina Diagnóstica (Abramed), entidade que reúne laboratórios de todo o país, Alex Galoro destacou que a decisão da agência reguladora vem acompanhada por uma série de diretrizes. Entre elas, além da recomendação médica, o paciente precisa estar entre o primeiro e o sétimo dia de sintomas. E não pode ter contraído Covid-19 há pelo menos um mês.

“Encaramos como uma boa notícia e apoiamos. Mas a inclusão não foi feita para contatantes assintomáticos de casos confirmados, para indivíduos com menos de dois anos de idade e para quem tenha feito um RT-PCR ou teste rápido em pelo menos 30 dias. Não é feito para rastreamento e não há cobertura de testes para retorno ao trabalho. Nesse caso, deve ser feito com recurso próprio, ou da empresa”, afirma.

Presidente da Associação Brasileira de Planos de Saúde (Abramge), Renato Casarotti destacou que a entidade apoia a medida, mas aponta que ela não balanceia o desequilíbrio entre oferta e demanda de testes.

“A cobertura não resolve o problema de escassez, motivada pela alta demanda mundial e por uma dificuldade de importar esses insumos. Por isso a gente pede à comunidade médica para que evite prescrever vários testes para a mesma pessoa na mesma janela diagnóstica, para que não acabe faltando teste para aqueles que mais precisam. Principalmente para os pacientes internados”, avalia Casarotti.

Para a professora Lígia Bahia, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), especialista em saúde coletiva, a medida é benéfica para os consumidores e ajuda a sociedade a ter clareza do cenário enfrentado pelo país na pandemia, neste momento de avanço Ômicron.

Um estudo conjunto das redes Vírus e Corona-ômica BR, vinculadas ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações (MCTI), mostra que a linhagem já é responsável por 97% dos casos em janeiro.

“A inclusão [dos testes rápidos no rol de procedimentos obrigatórios] é uma boa notícia. Havia uma dificuldade muito grande, uma burocracia para obter a autorização. Primeiro, tinha que apresentar um pedido e, depois, ele teria que passar por análise e ser aprovado. Nem sempre isso era adequado no âmbito das janelas temporais para a realização dos testes. Quando as respostas saiam, muitas vezes, o teste já não era mais necessário”, lembra a pesquisadora.

A ANS recomenda que a prescrição médica ocorra em cenários nos quais os pacientes apresentem quadros de síndrome gripal ou de síndrome respiratória aguda grave (SRAG). Na última edição do boletim InfoGripe, da Fiocruz, divulgada em 15 de janeiro, foi detectado um aumento de 135% nos números de casos de SRAG das três últimas semanas para as três semanas finais de novembro.

Coordenador da Rede Corona-ômica BR, o virologista Fernando Spilki, professor da Universidade Feevale, do Rio Grande do Sul, reforça que a medida é benéfica, mas alerta para a necessidade de ter atenção às características do teste.

“Sem dúvidas, é um ganho. A testagem sempre é bem-vinda, desde que se entendam duas questões: os testes rápidos têm limitações especiais no diagnóstico precoce. Devem ser adequadamente tratadas, por vezes, com a necessidade de isolamento e reteste, além da necessidade de cuidado no registro das informações de casos positivos”, afirma, em alusão ao fato de a Covid-19 ser uma doença de notificação compulsória ao Ministério da Saúde.

Na quarta-feira (19), o Brasil registrou pela primeira vez mais de 200 mil novos casos de Covid-19: foram 204.854, além de 338 mortes.

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