Falta de testes para Covid: dependência de importação de insumos ajuda a explicar

Aumento exponencial na demanda e a concentração da produção dos insumos em alguns poucos países prejudica suprimento brasileiro de exames

Testagem é uma estratégia essencial para o acompanhamento do cenário epidemiológico da pandemia de Covid-19
Testagem é uma estratégia essencial para o acompanhamento do cenário epidemiológico da pandemia de Covid-19 Breno Esaki/Agência Saúde DF

Lucas Rochada CNN

em São Paulo

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A Anvisa debate os autotestes para Covid-19 em um momento que o país sofre com falta de testes devido ao avanço da variante Ômicron do novo coronavírus, uma linhagem altamente transmissível.

No dia 18 de janeiro, foram registrados 137.102 casos de Covid-19. No dia anterior, o número também expressivo chegou a 74.134 novas infecções.

Um levantamento da Associação Brasileira de Redes de Farmácias e Drogarias (Abrafarma) mostrou que o número de testes de Covid-19 feitos nas farmácias do país bateu o recorde diário, com 86,3 mil exames realizados no dia 12 de janeiro.

Uma pesquisa feita pelo Sindicato dos Hospitais, Clínicas e Laboratórios do Estado de São Paulo (Sindhosp) revelou que 88% dos laboratórios privados no estado enfrentam problemas para a reposição de testes de Covid-19 e influenza.

A Associação Brasileira de Medicina Diagnóstica (Abramed) alertou que, assim como em outras partes do mundo, a alta demanda de exames laboratoriais para o diagnóstico da Covid-19 trouxe ao setor de medicina diagnóstica brasileiro a preocupação com a falta de insumos necessários para a realização desses exames.

Dependência de insumos importados

Os insumos utilizados na realização dos testes são diferentes de acordo com a metodologia de cada exame. Para os testes de diagnóstico molecular (RT-PCR), são necessários reagentes chamados primers. Já os testes rápidos utilizam anticorpos monoclonais e antígeno de referência.

O professor da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Universidade de São Paulo (USP), Marco Antônio Stephano, explica que a dependência do país está associada principalmente aos insumos utilizados na realização dos testes rápidos.

“Não temos capacidade produtiva. Podemos fabricar 10 mil testes rápidos. Mas 4 milhões ou mais não temos capacidade. Não temos fábrica para uma produção tão grande de produtos biológicos para diagnóstico”, afirma.

De acordo com o especialista, o país conta com a produção nacional para os insumos utilizados no diagnóstico molecular, que são mais rápidos e mais simples de produzir.

“O problema é que temos produção nacional para o RT-PCR. Mas não temos o teste rápido. O PCR é o teste padrão, porém muito mais caro”, explica.

Na avaliação da especialista em Gestão de Saúde da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Claudia Araújo, a falta de testes é resultado de dois fatores: o aumento exponencial na demanda e a concentração da produção dos insumos em alguns poucos países.

“Os testes rápidos de antígenos dependem de insumos que vêm basicamente da China e da Índia. Da mesma forma, para o teste RT-PCR, considerado o padrão-ouro no diagnóstico da Covid-19, faltam insumos e recursos humanos para processamento dos testes, já que muitos profissionais estão contaminados pela Covid-19 e afastados de suas funções”, afirmou Claudia.

Avanço da variante Ômicron ocasionou escassez nos testes para Covid-19 / Myke Sena/MS

Pandemia impactou produção de insumos

A pesquisadora Chrystina Barros, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), destaca que a pandemia de Covid-19 provocou impactos para diferentes setores da economia, incluindo a produção de insumos médicos.

“Desde o início da pandemia, tivemos vários impactos como a própria disponibilidade de máscaras PFF2, que na maior parte são produzidas na China e de lá são distribuídas para todo o mundo. Não é diferente agora com os kits e material necessário para realizar o diagnóstico da Covid-19″, afirmou.

Segundo ela, o Brasil passa por uma situação semelhante à dos demais países que também enfrentam uma alta procura por testes devido ao número de casos.

“No Brasil, dependemos dessa comimportação porque ,apesar de termos alguma produção nacional, ela não dá conta do volume. Habitualmente, já importamos, mas principalmente na explosão de demanda, não há condição de que a nossa produção atenda ao volume que a gente precisa”, disse.

Barros defende o investimento na área nacional de ciência e tecnologia, como forma de reduzir a dependência de insumos estrangeiros.

Segundo ela, o que diferenciou a escassez dos insumos para testes da falta de matéria-prima utilizada no desenvolvimento das vacinas foi a possibilidade de transferência de tecnologia, que permitiu à Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) produzir imunizantes com o ingrediente farmacêutico ativo 100% nacional.

“A principal lição que fica é que esse modelo econômico produtivo, que opta pela importação para melhor gerir os recursos econômicos, não necessariamente consegue dar a garantia de segurança que a gente precisa em situações de crise, principalmente na saúde”, alertou.

Como são realizados os testes

O teste de diagnóstico molecular (RT PCR) identifica a presença do material genético do vírus em amostras de secreção respiratória, colhidas no nariz ou garganta por meio de um cotonete longo e estéril, chamado de swab.

O processamento da amostra é feito em laboratórios especializados e o teste demora de 30 minutos a 4 horas para ser feito, de acordo com o método, se manual ou automatizado.

Normalmente, o resultado é entregue ao paciente em 24 horas. Porém, com o atual aumento da demanda no Brasil, a demora tem sido de até cinco dias. A recomendação é que a coleta do material seja feita entre o terceiro e o sétimo dia após o início dos sintomas.

Antígenos são substâncias estranhas ao organismo que desencadeiam a produção de anticorpos. O teste de detecção de antígenos virais é feito por meio de técnicas de imunodiagnóstico, como estudos de fluxo lateral (LFAs), também chamados de testes rápidos.

Segundo a Organização Pan-Americana da Saúde (Opas), esse tipo de teste é mais simples de fazer do que o RT PCR e pode ser usado em larga escala, pois fica pronto de 15 a 30 minutos e não requer a mesma estrutura de laboratório. O exame indica a infecção ativa da Covid-19.

O teste rápido é indicado para pessoas com sintomas em locais com alta prevalência do vírus e para pessoas assintomáticas que tiveram contato com casos confirmados ou que estão frequentemente expostos, como trabalhadores da saúde. A coleta do material a ser analisado também é feita por swab e deve ocorrer entre o quinto e o sétimo dia de sintomas.

Importância da testagem para o monitoramento da pandemia

A Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda como medida sanitária essencial para o enfrentamento da pandemia as ações de testar, tratar, isolar e rastrear.

A partir do diagnóstico oportuno da doença, deve-se providenciar o tratamento adequado dos pacientes, orientar o distanciamento social e promover o rastreamento dos contatos, que são aquelas pessoas que podem ter sido expostas à infecção.

A testagem também é uma estratégia essencial para o acompanhamento do cenário epidemiológico da pandemia de Covid-19. Indicadores como os números de casos e de óbitos permitem que gestores e autoridades de saúde definam estratégias de controle e redução de danos pela doença.

(Com informações de Vinícius Bernardes e Tiago Tortella, da CNN, e da Agência Brasil)

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