Ioga facial funciona? Especialistas avaliam efeitos antienvelhecimento

Nas redes sociais, a prática é conhecida por prometer um "lifting natural" capaz de tonificar, afinar e reduzir linhas finas no rosto; veja se é verdade e quais são os benefícios

Kameryn Griesser, da CNN
A ioga facial envolve uma série de posturas e alongamentos, além de massagem no rosto  • Oscar Gutierrez Zozulia/GettyImages
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Franzir, estufar, contrair e esticar o rosto pode parecer bobo, mas, em alguns contextos, é coisa séria: trata-se da ioga facial.

O treino facial da moda envolve uma série de poses exageradas e movimentos repetitivos com o objetivo de trabalhar os músculos do rosto, trocando os movimentos tradicionais de ioga, como a “postura do cachorro olhando para baixo”, por orelhinha de pato com os lábios e outras expressões faciais.

Popular por ser econômica e dispensar produtos, a ioga facial tem testemunhos espalhados pelas redes sociais, com influenciadores e autoproclamados gurus prometendo um “lifting natural” capaz de tonificar, afinar e reduzir linhas finas no rosto. Mas até que ponto esses benefícios prometidos são exageros? E o que a ciência realmente comprova?

Veja o que dizem uma instrutora de ioga, uma dermatologista e o autor de um dos poucos estudos sobre ioga facial.

A ciência por trás da ioga facial

O rosto é composto por camadas de pele, gordura e músculos sobre o crânio.

Sob a camada superior da pele, ou derme, há uma camada de coxins de gordura subcutânea, que se apoiam sobre os músculos, explica Anetta Reszko, dermatologista em Nova York e professora assistente clínica de dermatologia no Weill Cornell Medical College. Esses músculos nos ajudam a sorrir, franzir a testa, mastigar e fazer outras expressões faciais.

“A gordura e os músculos trabalham juntos para dar volume ao rosto”, diz Reszko. “Mas, com o tempo, à medida que envelhecemos, ou se deixamos de usar esses músculos por causa do Botox, eles podem atrofiar (e) ficar menores.”

Essa atrofia pode fazer com que os coxins de gordura sobre os músculos despenquem, dando ao rosto uma aparência mais flácida ou encovada, de acordo com Reszko.

“A ideia da ioga facial é trabalhar abaixo desse nível, desenvolvendo a camada muscular que fica sob a gordura”, afirma Murad Alam, vice-presidente do departamento de dermatologia e professor da Feinberg School of Medicine da Universidade Northwestern, em Chicago. “Ao desenvolver o músculo, você restaura parte do contorno do rosto.”

Alam, que também atua como dermatologista, conduziu um dos poucos estudos conhecidos para testar essa hipótese da ioga facial, em 2018, com um pequeno grupo de adultos de meia-idade.

Após 20 semanas de exercícios diários de 30 minutos, um painel de dermatologistas observou melhora no volume facial dos 16 participantes que completaram o programa, segundo o estudo.

“O local onde notamos a maior mudança foi nas bochechas”, diz Alam. “O que faz sentido, já que os músculos das bochechas estão entre os maiores do rosto; então, se você os exercita, o crescimento será mais perceptível.”

Devido ao tamanho reduzido da amostra e à ausência de medições diretas, seriam necessários outros ensaios clínicos para confirmar esse efeito de ganho de volume, observa Alam. De modo geral, pesquisas médicas sem envolvimento de medicamento ou dispositivo são difíceis de financiar.

“Isso substitui procedimentos estéticos? Não exatamente, porque a melhora não foi tão significativa e outros aspectos do envelhecimento (estético) não foram estudados”, afirma Alam. “Mas pode ser útil para pessoas que absolutamente não querem fazer procedimentos estéticos, por preocupações com segurança, custo ou conveniência.”

O que mais a ioga facial pode fazer?

Na prática dermatológica de Reszko, ela recomenda os exercícios de ioga facial para aumentar a circulação sanguínea e do fluido linfático no rosto.

Nossos rostos têm centenas de linfonodos que usam fluido para drenar resíduos e combater infecções, segundo Reszko. Durante o sono, o fluido linfático pode se acumular no rosto por conta da posição deitada, causando uma aparência “inchada” ao acordar.

Movimentar, esticar e massagear o rosto por 10 a 15 minutos todos os dias pode ajudar a reduzir esse inchaço, afirma Reszko, citando outras técnicas, como as pedras gua sha da medicina tradicional chinesa, que têm propósito semelhante. Essa drenagem pode ser especialmente útil para pacientes que passaram por cirurgia estética recentemente ou para quem tem alergias crônicas.

Aumentar o fluxo sanguíneo para o rosto também pode fazer com que a pele pareça mais corada e hidratada, segundo Reszko, embora esse efeito normalmente seja temporário.

Se você tende a acumular tensão no pescoço, ombros, mandíbula, testa ou em outras partes do rosto, a ioga facial também pode ajudar a relaxar esses músculos, segundo Annelise Hagen, instrutora de ioga e autoproclamada pioneira da técnica, autora do livro The Yoga Face.

“A tensão é uma grande inimiga para muitos de nós. Fazemos caretas o tempo todo sem perceber”, diz Hagen. “Grande parte do meu trabalho é ensinar as pessoas a perceberem isso, serem mais conscientes, relaxarem e respirarem.”

Para Hagen, a ioga facial é mais que um treino ou um bio-hack estético — é uma forma de se conectar mais com o próprio rosto.

Em suas aulas, ela pode incentivar as pessoas a levantar os cantos da boca em um sorriso neutro, como o “rosto do Buda sorridente”. Ou, para o pescoço e a mandíbula, faz o “sopro do leão”, abrindo bem a boca, colocando a língua para fora, revirando os olhos e expirando.

“Quando você aborda o rosto sob uma perspectiva iogue, trata-se de estar consciente do que fazemos com ele e reconhecer que é uma espécie de manifestação do que está dentro de nós”, diz Hagen. “Algumas pessoas podem ver isso de forma diferente, mas tudo que te fizer sentir mais sereno, calmo e em paz com o rosto que você tem, acho legítimo.”

A ioga facial pode fazer mal?

De modo geral, os exercícios de ioga facial são inofensivos, segundo Alam. Para causar rugas, linhas de expressão, hematomas ou outros traumas no rosto, seria necessário aplicar força a ponto de causar dor. Por outro lado, se alguém quiser realmente adotar uma rotina diária de ioga facial, Reszko sugere evitar movimentos que esfreguem ou estiquem a delicada região abaixo dos olhos. A pele ao redor dos olhos tende a ser mais fina e sensível que a do restante do rosto.

Para intervenções mais drásticas, como firmar rugas ou tratar a acne, ela recomenda procurar um dermatologista certificado.

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