Maconha medicinal e autismo: “Estou trazendo meu filho de volta”, diz mãe

Ezra Fouquette foi diagnosticado com autismo quando tinha 22 meses, o tratamento com canabidiol apresentou melhoras significativas no comportamento

O pequeno Ezra vive com autismo. Para a mãe, Joann Fouquette, o comportamento agressivo de seu filho resultou de não ser capaz de comunicar suas necessidades
O pequeno Ezra vive com autismo. Para a mãe, Joann Fouquette, o comportamento agressivo de seu filho resultou de não ser capaz de comunicar suas necessidades Acervo pessoal/Joann Fouquette

Natalie Angleyda CNN

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No início, o filho de Joann Fouquette, Ezra, estava atingindo todos os marcos. É o que toda mãe espera: um bebê feliz e saudável.

No entanto, por volta dos 17 meses, as coisas começaram a mudar. Ele parou de falar, começou a tapar os ouvidos e a bater a cabeça no chão como se algo o estivesse incomodando.

Joann se lembra de sua mãe dizendo a ela: “Acho que precisamos testá-lo. Há algo definitivamente acontecendo”.

Cinco meses depois, em 2012, Ezra foi diagnosticado com transtorno do espectro do autismo.

“É devastador”, disse ela ao correspondente médico-chefe da CNN internacional, Sanjay Gupta. “Já ouvi pessoas compararem isso com perder um filho. Você perde a ideia do filho que você ia ter, a vida que você ia ter, a vida que ele vai ter”.

O autismo é um distúrbio do neurodesenvolvimento que afeta 1 em cada 44 crianças nos Estados Unidos, de acordo com os Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC). O distúrbio começa cedo e os sintomas principais são problemas sociais e de comunicação, bem como comportamentos repetitivos e rigidez.

“Eles podem falar muito bem, mas não conseguem manter uma conversa. Então você tem o extremo oposto do espectro, como crianças e adultos que são totalmente não-verbais”, disse Doris Trauner, neurologista pediátrica e professora de neurociências e pediatria na Universidade da Califórnia, San Diego.

“Eles têm uma certa rotina. Gostam de fazer as coisas indefinidamente”, disse ela a Gupta. “Eles têm comportamentos repetitivos, os mais típicos dos quais são coisas como bater as mãos ou girar em círculos”.

Mas o autismo também pode levar a problemas mais preocupantes, como comportamento disruptivo grave e automutilação.

“Agressão e comportamentos autolesivos são infelizmente muito comuns, especialmente em crianças com autismo severo”, disse Doris. “Qualquer coisa, desde bater a cabeça repetidamente contra a parede, bater a cabeça com as mãos, beliscar-se ou morder as mãos”.

Terapia comportamental, terapia ocupacional e terapia da fala podem ajudar, mas não existem tratamentos aprovados pela Food and Drug Administration (FDA), agência semelhante à Anvisa nos Estados Unidos, para os principais sintomas do autismo.

Existem dois medicamentos antipsicóticos aprovados pela FDA, usados ​​para tratar transtorno bipolar e esquizofrenia, que são aprovados para tratar crianças com autismo, mas apenas se elas mostrarem agressão severa ou automutilação.

“Esses medicamentos são eficazes para esses sintomas, mas infelizmente estão associados a efeitos colaterais significativos”, disse Eric Hollander, diretor do Programa de Autismo e Espectro Obsessivo Compulsivo do Sistema de Saúde Montefiore em Nova York. “Isso pode predispô-los ao desenvolvimento de coisas como diabetes ou problemas do tipo cardiovascular“.

“Há uma necessidade importante de desenvolver novos tratamentos, tanto para tratar os principais sintomas do autismo quanto para ter menos efeitos colaterais”, acrescentou.

Ezra Fouquette foi diagnosticado com autismo quando tinha 22 meses / Acervo pessoal/Joann Fouquette

Procura por respostas

Quando se tratou de seu filho Ezra, Joann tentou tudo que pôde para ajudá-lo. “Tentamos dieta sem glúten, sem caseína, sem laticínios. Tentamos remédios homeopáticos. Tentamos todas as terapias que existem”, disse ela a Gupta.

Mas ela não queria utilizar drogas psicotrópicas quando ele começou a ficar mais agressivo. “Eu não queria tentar nenhuma dessas apenas porque havia tantos efeitos colaterais”, disse ela. “Mas, a certa altura, tive muitos hematomas porque ele estava ficando mais violento”.

Joann estava desesperada para encontrar ajuda. Foi quando ela viu uma história no noticiário local sobre um ensaio clínico envolvendo crianças com autismo e canabidiol (CBD), a parte não psicoativa da planta de cannabis, no Centro de Pesquisa de Cannabis Medicinal da UC-San Diego.

“Ele tinha 9 anos”, disse ela. “O que vou fazer no futuro, enquanto ele continua a crescer, se já estou tendo dificuldades com sua agressividade agora?”.

Joann não hesitou quando se tratou de experimentar cannabis medicinal para seu filho. “Já vi o CBD ser usado em crianças com epilepsia”, disse ela. “Eu vi o quanto ele ajudou outras pessoas e pensei, ‘é totalmente natural. Pode não haver nenhum efeito colateral real com ele. Por que não tentar?'”.

Então, ela inscreveu Ezra no ensaio clínico.

Cannabis medicinal, autismo e o cérebro

Doris Trauner é a pesquisadora principal do ensaio UCSD, um estudo duplo-cego controlado por placebo, o que significa que os participantes não sabem quando estão recebendo o placebo ou o medicamento, nem os médicos. Os pesquisadores estão examinando como o canabidiol pode afetar o cérebro de crianças com autismo.

“Sabemos que no autismo existem algumas diferenças na química do cérebro. Existem algumas mudanças nos sistemas de neurotransmissores, tanto no sistema da dopamina quanto no sistema da serotonina, que podem contribuir para alguns dos sintomas”, disse ela a Gupta.

A serotonina e a dopamina são neurotransmissores que transportam sinais ou informações de uma célula nervosa para outra. Acredita-se que a serotonina regula o humor e tem um grande efeito no desenvolvimento inicial do cérebro. A dopamina pode reforçar o comportamento quando recebemos uma recompensa.

Vários estudos demonstraram que os níveis de dopamina que são muito baixos ou muito altos em crianças com autismo podem causar o mau funcionamento de certas áreas do cérebro, resultando em altos níveis de comportamentos repetitivos e níveis reduzidos de interação social, disse Doris.

Em modelos animais que estudam o autismo, os níveis de serotonina no cérebro podem ser mais baixos do que o esperado, e adicionar serotonina melhora o funcionamento social em camundongos, disse ela.

“E o CBD, entre muitas outras coisas, tem efeitos no sistema da serotonina com o aumento da disponibilidade de serotonina”, acrescentou ela. “E isso pode estar ajudando em termos de interações sociais em particular”.

Em Nova York, um ensaio semelhante em todo o país, envolvendo crianças e adolescentes com autismo e o canabinoide canabidivarina (CBDV), também está em andamento no Sistema de Saúde Montefiore.

“Nós sabemos que o autismo é um distúrbio do desenvolvimento que começa cedo, enquanto o cérebro está sendo moldado”, disse Hollander, o principal pesquisador deste estudo duplo-cego controlado por placebo.

“Acho que o CBD pode desempenhar um papel importante no autismo”, disse ele. “Pode diminuir a excitação nos neurônios e aumentar a inibição”.

Quando as crianças com autismo estão muito agitadas ou não têm inibição suficiente, isso pode levar a comportamentos explosivos, como acessos de raiva ou automutilação, e podem exibir comportamentos repetitivos, disse Hollander.

“Portanto, isso muda a proporção de excitação para inibição em diferentes neurônios”, disse ele.

Embora ambos os estudos ainda estejam em andamento, o feedback inicial foi positivo.

“Alguns dos pacientes tiveram um benefício realmente substancial”, disse Hollander. “Nós vimos o que esperávamos, que era uma redução significativa nos sintomas de irritabilidade, acessos de raiva ou episódios explosivos. Tivemos pacientes que tiveram melhora em seus comportamentos repetitivos também”.

Na Califórnia, relatórios semelhantes chegaram de pais. “Estamos vendo algumas mudanças bastante impressionantes”, disse Doris. “Crianças cujo comportamento agressivo era diário mas foi embora. Quer dizer, foi embora. […] Crianças cujo comportamento autolesivo está melhor, e estão a ponto de os calos em seus pulsos começarem a cicatrizar”, ela disse. “Muitas crianças estão mais sociais”.

Mas Doris afirma que mais pesquisas precisam ser feitas. “É muito cedo para ficar animado com isso. Acho que há algum motivo para esperança, mas não é uma boa ideia sair correndo e comprá-lo e apenas tentar usá-lo por conta própria”, disse ela em relação ao canabidiol.

“Existem várias razões para isso. Uma é que pode ser tóxico. Pode causar disfunção hepática”, acrescentou ela. “Também não está claro qual dose é a melhor, se funcionar, e se o que você está comprando realmente tem o que você acha que tem, porque não é regulamentado”.

‘Estou recuperando meu menino de volta’

Durante o ensaio, o filho de Joann, Ezra, recebeu o placebo em um ponto e o CBD em outro momento, mas ela e os médicos ainda não sabem quando ele estava recebendo o canabidiol.

Ezra era principalmente não-verbal quando começou a participar do ensaio clínico, disse ela. Mas nas primeiras semanas, algo notável aconteceu.

“Um dia, eu estava no supermercado e meu marido me enviou um vídeo. Era Ezra deitado no chão enrolado em um cobertor, e ele estava cantando”, disse ela. “Ele nunca tinha cantado antes […] e está cantando a música inteira”.

Joann contou a Gupta o que se passava em sua mente na época. “Estou trazendo meu bebê de volta. Estou recuperando meu filho de volta”, disse ela, lutando contra as lágrimas.

“Eu consigo me comunicar com ele. Ele está falando comigo. Ele está feliz. Ele não é mais agressivo. Ele está cantando”, disse ela. “O que mais eu poderia pedir?”

Desde que Ezra terminou a participação no estudo, há um ano, ele não demonstrou nenhuma agressão e continuou a se comunicar.

“Ele não teve qualquer regressão”, disse ela. “Isso o ajudou […] o que quer que esteja acontecendo em seu cérebro, fez as conexões que ele precisava fazer. E uma vez que essas conexões foram feitas, ele nunca as perdeu”.

Não está claro qual papel o tratamento pode ter desempenhado no progresso de Ezra. O estudo não foi publicado e não estava analisando se a cannabis ou o CBD poderiam ser regenerativos para o cérebro. Mais pesquisas são necessárias nesta área.

“Algumas das crianças que mostraram um efeito […] mostram isso por várias semanas após a droga do estudo ser retirada. E algumas parecem manter alguma melhora”, disse Doris. “Mas eu não sei por que isso acontece”.

Independentemente de por que isso aconteceu com Ezra, que agora tem 11 anos, Joann é grata. “Não acho que seja uma cura. Deu a ele a capacidade de falar. Deu-lhe a capacidade de se comunicar mais. Acho que é por isso que a agressão foi embora”, disse ela. “Isso apenas tornará as coisas mais fáceis para ele – mais fácil para ele viver, mais fácil para ele ser ele mesmo”.

Este conteúdo foi criado originalmente em inglês.

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