Mais de 50 mil pessoas esperam na fila para serem transplantadas no Brasil

No Dia Nacional da Doação de Órgãos, dados mostram que pandemia afeta as cirurgias; número de doadores caiu 13% no primeiro semestre de 2021

Mylena Guedesda CNN*

No Rio de Janeiro

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A fila de transplante no Brasil, atualmente, tem mais de 50 mil pessoas (53.218) em busca de um órgão ou tecido. De acordo com dados do Ministério da Saúde, as cirurgias de córnea e rim reúnem o maior número de pacientes na espera.

Nesta segunda-feira (27), quando é comemorado o Dia Nacional da Doação de Órgãos, levantamento da Associação Brasileira de Transplantes de Órgãos (ABTO) chama a atenção para a queda no número de doadores efetivos durante a pandemia de Covid-19.

Os dados mais recentes da ABTO mostram que, nos seis primeiros meses de 2021, houve uma redução de 13% no número de doadores efetivos na comparação com o mesmo período do ano passado e de 18% em relação a 2019. Este ano, foram registrados 1.452 doadores.

De janeiro a junho de 2021, São Paulo foi o estado que mais teve doadores de órgãos – 476. Em seguida, aparecem o Paraná, com 190, e Rio de Janeiro, com 135 doadores efetivos.

De acordo com a associação, o principal motivo do declínio é o aumento de 44% na taxa de contraindicação, pelo risco de transmissão do coronavírus ou pela dificuldade de realizar o teste por RT-PCR. Especialistas lembram que as doações sofreram queda também devido à lotação e excesso de trabalho nos centros de terapia intensiva (CTI) do país. O fato das pessoas que morrem em decorrência da Covid-19 não poderem ser doadoras quando estão infectadas também piorou o cenário.

A espera é angustiante, de acordo com o médico Lucio Pacheco, que é coordenador e cirurgião do transplante de fígado dos Hospitais da Rede D`Or. Ele, que já realizou mais de mil transplantes em pacientes, precisou de uma doação de fígado no fim do ano passado, em meio à pandemia.

“Eu tenho a visão dupla. Tenho o lado do médico, que acompanha a espera de muitos pacientes e vê muita gente morrer na fila. E tenho o lado do paciente, com a angústia da espera. A fila do transplante de fígado é por gravidade. Na época em que eu entrei, não era grande, geralmente demorava um mês, mas com a pandemia, fiquei três meses. Você olha o celular o tempo todo, espera ele tocar e falar que a sua vez chegou. É péssimo”, disse Pacheco.

A Associação Brasileira de Transplantes de Órgãos reforça que o impacto da Covid-19 nas doações é evidente. Desde 2014, não havia uma taxa tão baixa no Brasil. Os transplantes renais são os que mais sofreram redução. No primeiro semestre deste ano, 5.312 pacientes ingressaram na fila de espera por uma doação de rim e foram realizados 2.035 transplantes renais.

Há três meses, a fila de espera por transplantes tinha 45.664 pacientes ativos. Desses, 26.230 precisavam de uma doação de rim, o que representa mais de 57%. No período, os estados com mais pessoas no aguardo de um transplante de órgão ou tecido eram São Paulo, com 17.854 pacientes ativos, Minas Gerais, com 5.218, e Rio de Janeiro, com 3.723.

Transplantes durante a pandemia
Médicos realizam transplante durante a pandemia de Covid-19 (27.set.2020) / Foto: CNN Brasil

Já em relação à fila pediátrica, 865 crianças brasileiras aguardavam por um transplante, sendo que 52% precisavam de uma doação de córnea e 35% esperavam por um rim.

No momento em que Lucio Pacheco descobriu que sua vez chegou e ele poderia fazer a cirurgia para ficar curado do câncer, foi um misto de sentimentos. “Me lembro de cada detalhe desse dia, poderia ficar horas falando, foram muitos pensamentos que passaram pela minha cabeça. Queria ver meus filhos para dar um tchau, um até logo. Sempre passa na cabeça que pode acontecer algo ruim, que a gente pode não voltar. Ouvi uma playlist no carro que eu e minha filha fizemos para esse dia, ela não deixou que eu botasse músicas tristes”, relembrou.

Questionado sobre o tempo médio que as pessoas podem aguentar até a cirurgia, Pacheco disse que é imprevisível. “A vida de quem está esperando está nas mãos de pessoas que acabaram de saber que algum parente próximo morreu. É uma situação muito difícil e é nessa hora que o familiar de quem acabou de falecer precisa pensar em uma pessoa que necessita do órgão, pessoa que ela nunca vai ver na vida. Esse é um gesto lindo de solidariedade. Todo dia eu agradeço à família do meu doador, toda vez que eu olho para o mar, naquela imensidão, eu penso neles”, disse Lucio Pacheco.

Doadores vivos

Nem todos os transplantes, contudo, são da doação de uma pessoa falecida. Apesar de ser em menor frequência, também há casos do doador vivo, que pode ser qualquer pessoa que concorde com a doação desde que a saúde não seja prejudicada. Ele pode doar um dos rins, parte da medula óssea, parte do pulmão ou parte do fígado.

Esse foi o caso da Daniele Tavares, que fez a doação para o seu próprio pai, Manuel, e se tornou a primeira doadora de 18 anos do Rio de Janeiro. A cirurgia foi feita em agosto de 2005, com o próprio doutor Lucio Pacheco.

“Eu tenho quatro irmãos e todo mundo se candidatou na mesma hora para doar 40% do fígado para o meu pai. Mas só eu tinha compatibilidade com ele, por questões de tipo sanguíneo e peso. O problema é que, na época, eu era muito nova, isso gerou um pouco de receio até dos médicos e o procedimento demorou um pouco mais por isso. Mas eu nunca tive dúvida, nunca hesitei, eu só queria salvar o meu pai, e salvei. Era a única oportunidade que ele tinha de viver, o caso era muito sério. Doze anos depois, no meu casamento, eu liguei para o doutor Lucio e falei: ‘ainda bem'”, relatou Daniele.

Ainda de acordo com a Associação Brasileira de Transplantes, foram feitas 3.195 operações de órgãos e tecidos, como córnea, até o mês de junho. Desses transplantes, apenas 277 foram de um doador vivo.  Pela lei, parentes até o quarto grau podem ser doadores, enquanto pessoas que não têm grau de parentesco precisam de autorização judicial.

O cirurgião Lucio Pacheco explica que são poucos os casos de doador vivo apto e que, na maior parte das vezes, as crianças se beneficiam com esse tipo de doação. Isso porque elas têm maior dificuldade para encontrar um doador compatível que faleceu, por causa da altura e tamanho corporal.

“De qualquer forma, o transplante é um renascimento. Os meus pacientes me falavam isso e, desde o dia 14 de janeiro, dia da minha cirurgia, eu sinto isso na pele. É uma nova data de nascimento, como comemorar um aniversário, um marco em nossas vidas”, afirmou Pacheco.

A ABTO acredita que as taxas de doações e transplantes devem aumentar no segundo semestre. A recuperação deve ocorrer por causa da diminuição da incidência, internação e letalidade da Covid-19.

(*Sob supervisão de Isabelle Resende)

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