Na Índia, Covid-19 deixa crianças sem cuidadores e pedidos de ajuda aumentam

ONGs indianas têm recebidos relatos e ligações em busca de ajuda para crianças cujos pais estão mortos ou desenvolveram quadros graves de Covid-19

Índia vive uma das crises mais agudas da Covid-19 no mundo
Índia vive uma das crises mais agudas da Covid-19 no mundo Foto: Getty Images

Reuters

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Quando um grupo indiano pelos direitos das crianças rastreou dois meninos de 6 e 8 anos, após serem informados de que seus pais estavam gravemente doentes com Covid-19 e não podiam cuidar deles, as crianças já não comiam há dias.

O caso, relatado pelo grupo Bachpan Bachao Andolan (BBA) que localizou os meninos em uma pequena cidade no coração rural da Índia, foi um de um número crescente de emergências envolvendo crianças afetadas pela crise de coronavírus da Índia.

O aumento exponencial de infecções e mortes deixou algumas crianças, principalmente em comunidades pobres, sem cuidados porque seus pais ou outros parentes estão muito doentes ou morreram.

“Como o número de mortes aumentou, a crise é que as crianças estão perdendo seus pais ou seus cuidadores estão hospitalizados e não há ninguém para cuidar deles”, disse Dhananjay Tingal, diretor executivo do BBA.

Os serviços sociais subfinanciados da Índia estão lutando para lidar com a situação e, em certas partes do país, ainda existe estigma em torno das pessoas que contraem o vírus, deixando algumas crianças isoladas.

“Vizinhos e parentes não querem ajudar porque têm medo da infecção, tratando essas famílias quase como párias”, disse Tingal. Ele não compartilhou mais detalhes sobre os dois meninos por causa da preocupação com sua privacidade.

Tingal disse que o BBA, que é chefiado pelo ganhador do Prêmio Nobel da Paz Kailash Sayarthi, começou a receber ligações sobre crianças em situações terríveis ligadas ao surto de Covid-19 no início de abril. O volume de ligações aumentou depois que Sayarthi postou um número de linha de ajuda nas redes sociais em 29 de abril.

O BBA agora recebe cerca de 70 ligações por dia em busca de ajuda para crianças cujos pais estão mortos ou gravemente doentes, e um número maior de ligações de pais que tiveram resultado positivo e querem saber se o grupo pode cuidar de seus filhos se sua saúde piorar.

O hospital Sardar Patel Covid, na Índia, por dentro
O hospital Sardar Patel Covid, na Índia, por dentro
Foto: Cortesia Sadanand Patel

Com 3,57 milhões de casos ativos de coronavírus, a Índia registrou mais de 400 mil novas infecções nas últimas 24 horas – a maior contagem diária relatada globalmente – enquanto as mortes aumentaram para um recorde de 3.980.

Os especialistas dizem que os números reais podem ser de cinco a dez vezes maiores. Cidadãos de todo o país, o segundo mais populoso do mundo, estão lutando para encontrar camas, oxigênio ou remédios necessários para o tratamento, e muitos estão morrendo por falta de tratamento.

Pedidos desesperados para ajudar as crianças têm aparecido nas redes sociais. “Preciso de uma doadora de leite materno para um bebê de um dia em Delhi. A mãe dela faleceu devido ao Covid”, dizia um tweet. A pessoa disse mais tarde que a ajuda havia sido encontrada.

A Protsahan India Foundation, uma ONG de direitos da criança, disse que seus funcionários de linha de frente recentemente atenderam crianças que ficaram sem comer por dias após o falecimento de sua mãe, a principal cuidadora.

“O pai é um trabalhador assalariado diário e também está em estado de choque e trauma. Estamos ajudando com alimentação e cuidados imediatos, educação e necessidades de proteção dessas crianças”, disse Sonal Kapoor, diretor-fundador da Protsahan.

No estado de Karnataka, onde fica a cidade tecnológica de Bengaluru e epicentro da segunda onda, o governo nomeou um oficial para identificar as crianças órfãs da Covid-19 e garantir que recebam o apoio adequado.

O estado também intensificou as mensagens sobre a segurança das crianças e apelou aos cidadãos para que não procurem ajuda online de grupos desconhecidos. Na capital, Nova Delhi, o braço de proteção infantil da cidade-estado escreveu esta semana à polícia pedindo que investigassem postagens nas redes sociais pedindo adoções urgentes.

“Também podem ser casos de tráfico e compra e venda de crianças”, advertiu a Comissão de Délhi para a Proteção dos Direitos da Criança.

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