O que se sabe sobre a variante XE, recombinante das sub linhagens de Ômicron

Ministério da Saúde afirmou na quinta-feira (7) que primeiro caso no país do recombinante das sublinhagens BA.1 e BA.2 foi confirmado pelo Instituto Butantan

Variantes e recombinantes do coronavírus são rastreados pela OMS de maneira contínua
Variantes e recombinantes do coronavírus são rastreados pela OMS de maneira contínua Josué Damacena/IOC/Fiocruz

Lucas Rochada CNN

em São Paulo

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O Instituto Butantan confirmou, na quinta-feira (7), o primeiro caso no país de Covid-19 causado pela variante XE da Ômicron, fruto de um evento recombinante que mistura as sublinhagens virais BA.1 e BA.2.

A informação foi confirmada pelo Ministério da Saúde, que afirmou realizar o constante monitoramento do cenário epidemiológico da Covid-19. Em nota, a pasta reforçou a importância do esquema vacinal completo para garantir a máxima proteção contra o vírus e evitar o avanço de novas variantes no país.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) realiza o monitoramento contínuo das variantes recombinantes do coronavírus; confira o que já se sabe e o que permanece incerto sobre a variante XE.

Como acontece a recombinação

Uma pessoa pode ser infectada ao mesmo tempo por duas linhagens (ou sublinhagens) diferentes do novo coronavírus. Episódios de coinfecção são raros, mas a alta circulação viral em uma região de uma variante com grande capacidade de transmissão, como a Ômicron, aumenta a probabilidade de ocorrência de casos desse tipo.

Uma vez dentro do organismo humano, o vírus invade as células com o objetivo de produzir inúmeras cópias de si mesmo. O virologista Fernando Spilki, pesquisador da Universidade Feevale, do Rio Grande do Sul, explica que em um caso de coinfecção é possível que duas linhagens virais penetrem a mesma célula humana.

Nesse momento, as enzimas utilizadas na replicação podem absorver informações genéticas das duas cepas envolvidas, gerando uma cópia viral mista, como no caso da Deltacron, que combina Delta e Ômicron, ou da variante XE, que une BA.1 e BA.2, da Ômicron.

A recombinação acontece quando dois genomas se encontram na mesma célula. Durante o processo de replicação, as enzimas que fazem a síntese de moléculas de RNA derivadas utilizam parte do genoma de BA.1 e parte do genoma de BA.2, gerando um RNA misto.

Características da variante XE

Nesta semana, a Organização Mundial da Saúde (OMS) afirmou que a recombinação é comum entre os coronavírus, sendo considerada um evento esperado no contexto das mutações. A OMS destaca que é provável que outras variantes, incluindo recombinantes, continuem a surgir devido ao alto nível de transmissão do coronavírus em todo o mundo.

O pesquisador José Eduardo Levi, da Universidade de São Paulo (USP), explica que o genoma final, formado a partir da combinação das duas sublinhagens de Ômicron se mostrou capaz de se multiplicar e de ser transmitido a outras pessoas.

As variantes e recombinantes do coronavírus são rastreados pela OMS de maneira contínua. Além da mistura de BA.1 e BA.2, estão sendo analisados derivados de Delta (AY.4) e Ômicron (BA.1), chamada variante XD.

Os dois recombinantes estão sendo rastreados como “variantes sob monitoramento”, classificação da OMS para linhagens do vírus que exigem atenção, mas não representam uma preocupação até o momento.

Segundo a OMS, as estimativas iniciais sugerem que o recombinante XE tem uma vantagem na taxa de crescimento comunitária de 1,1 (o que representa uma vantagem de transmissão de 10%) em comparação à BA.2. No entanto, segundo a OMS são necessários estudos complementares para confirmar a informação.

O recombinante entre as duas sublinhagens BA.1 e BA.2 está sendo rastreado pela OMS como parte da variante Ômicron. O recombinante foi detectado pela primeira vez no Reino Unido em 19 de janeiro e aproximadamente 600 sequências foram relatadas e confirmadas até o dia 29 de março.

Já o recombinante XD tem apresentado uma disseminação mais limitada, uma vez que estão disponíveis apenas 26 sequências da variante no Gisaid. Segundo a OMS, as evidências atualmente disponíveis não sugerem que ela seja mais transmissível do que outras variantes circulantes.

Técnica de sequenciamento genômico permite a identificação de variantes recombinantes do coronavírus / Josué Damacena/IOC/Fiocruz

Possíveis impactos ao cenário epidemiológico

Diante da identificação de uma nova variante do coronavírus, cientistas em todo o mundo se mobilizam para identificar possíveis impactos da linhagem para as vacinas em uso e para os testes de diagnóstico, além das características clínicas como transmissibilidade e gravidade da doença.

Segundo a OMS, os estudos sobre a variante XE ainda estão em desenvolvimento. Para o pesquisador da USP, José Eduardo Levi, embora o recombinante tenha apresentado capacidade de transmissão aumentada, não há motivo para alarme.

“A palavra ‘recombinante’ assusta, mas os recombinantes de influenza [vírus da gripe comum] que em geral tendem a ser muito mais perigosos. Quando acontece a recombinação de influenza, normalmente é de um vírus de porco com vírus humano e às vezes de aves também. Então é muito maior a taxa de diferença genética que é colocada junto em um recombinante de influenza do que esses de coronavírus”, explica Levi.

O pesquisador da USP, que também atua nas áreas de pesquisa e desenvolvimento dos Laboratórios Dasa, afirmou que o grupo de trabalho identificou um caso de coinfecção em um paciente brasileiro, de Volta Redonda, no Rio de Janeiro, pelas sublinhagens BA.1 e BA.2.

Segundo Levi, embora este seja o evento que antecede a recombinação, ela não chegou a ser detectada durante a análise dos dados genéticos das amostras.

Contexto das variantes no mundo

A variante Ômicron continua a ser a linhagem dominante que circula globalmente, respondendo por quase todas as sequências relatadas recentemente ao Gisaid. Entre as 417.147 sequências publicadas no banco de dados, com amostras coletadas recentemente, 416.175 (99,8%) eram Ômicron, 141 eram Delta e 562 sequências não foram atribuídas a uma linhagem. As informações foram disponibilizadas pela OMS no mais recente boletim epidemiológico, divulgado no dia 5 de abril.

De acordo com o documento, o número total de sequências de Ômicron submetidas por pesquisadores de todo o mundo continua a diminuir, uma tendência observada para cada uma das variantes descendentes de Ômicron. Entre as linhagens descendentes dela, a proporção relativa de BA.2 aumentou para 93,6%, enquanto BA.1.1 representa 4,8% e BA.1 e BA.3 representam <0,1% de todas as linhagens Ômicron circulantes.

BA.2 tornou-se dominante em todas as regiões do mundo e em 68 países para os quais estão disponíveis dados de sequenciamento. No entanto, houve diferenças no aumento de BA.2 entre as regiões. Na América do Sul, por exemplo, a BA.2 começou a aumentar mais tarde e em um ritmo mais lento em comparação com outras localidades, representando 28% das linhagens Ômicron na semana de 14 a 20 de março.

De acordo com a OMS, essas tendências devem ser interpretadas levando em consideração as limitações dos sistemas de vigilância, incluindo diferenças na capacidade de sequenciamento e estratégias de amostragem entre os países, bem como os tempos de resposta dos laboratórios para sequenciamento e atrasos na notificação.

As vacinas desenvolvidas e em uso contra a Covid-19 no mundo têm como objetivo central a prevenção de doenças graves e mortes. De acordo com a OMS, os imunizantes atuais conferem altos níveis de proteção diante da infecção pela Ômicron.

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