O que se sabe sobre os casos de hepatite infantil investigados pela OMS

Segundo a OMS, foram identificados 74 casos da doença de origem desconhecida no Reino Unido

Lucas Rochada CNN

em São Paulo

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A Organização Mundial da Saúde (OMS) foi notificada de dez casos de hepatite aguda grave de causa desconhecida em crianças menores de dez anos, na região central da Escócia, no dia 5 de abril. Segundo a OMS, até o dia 8, foram identificados 74 casos no Reino Unido.

Os testes laboratoriais realizados excluíram os vírus da hepatite (A, B, C, E e D). Novas investigações estão em andamento para entender a origem desses casos. Dado o aumento nos casos relatados no último mês e as atividades aprimoradas de busca de casos, é provável que mais casos sejam relatados nos próximos dias.

Na edição desta quarta-feira (20) do quadro Correspondente Médico, do Novo Dia, o neurocirurgião Fernando Gomes explicou o que já se sabe sobre os casos em investigação.

“O fígado é considerado um órgão extremamente importante para o nosso corpo, o segundo maior órgão depois da pele. Tem diversas funções, uma delas é eliminar toxinas do nosso organismo e também ajuda no processo de digestão e tem um papel de destruir hemácias, no processo de renovamento dos elementos figurados do sangue. Quando existe um comprometimento agudo, um problema muito grave pode acontecer”, explica Gomes.

Em grande parte dos casos, as hepatites virais são doenças silenciosas que não apresentam sintomas ao longo dos anos. Geralmente, a doença já está em estágio mais avançado quando os sinais aparecem. Os mais comuns são febre, fraqueza, dor abdominal, enjoo, náuseas, vômitos, perda de apetite, urina escura, olhos e pele amarelados (icterícia) e fezes esbranquiçadas.

O neurocirurgião explica que entre as possíveis causas de hepatite fulminante em adultos estão a exposição tóxica a alimentos, abuso de álcool ou efeito de medicamentos. No entanto, em crianças essas possibilidades são mais raras o que pode indicar que a causa seja viral.

“Pós-infecção por Covid-19 ou correlação com o adenovírus, um outro vírus que usualmente não provoca esse tipo de problema, que talvez uma variante tenha sido a causa e por isso estamos em investigação”, disse.

Como acontece a transmissão das hepatites

A contaminação pelas hepatites A e E acontece pela via fecal-oral, ou seja, por meio do contato entre indivíduos ou por meio de água ou alimentos contaminados. São agravos que costumam se propagar em regiões com condições precárias ou inexistentes de tratamento de água e esgoto.

A transmissão da hepatite C acontece pelo contato com sangue contaminado, compartilhamento de agulhas e seringas, reutilização ou falha de esterilização de equipamentos médicos, odontológicos, de manicure e tatuagem. O vírus também pode ser transmitido, de forma mais rara, por relações sexuais sem o uso de preservativos ou da mãe para o filho durante a gestação ou parto.

Em relação à hepatite B, as formas de transmissão são semelhantes. No entanto, o vírus da hepatite B é transmitido de forma mais frequente por relações sexuais desprotegidas e da mãe infectada para o filho durante a gestação, o parto ou a amamentação. Por isso, os cuidados incluem o uso de preservativo e a testagem das gestantes no início do pré-natal.

Já a hepatite D, também chamada de Delta, é mais comum na região amazônica. O vírus responsável pela doença depende da presença do vírus do tipo B para infectar uma pessoa. Por isso, as características gerais entre as duas hepatites são semelhantes.

OMS investiga casos de hepatite infantil de origem desconhecida / Arte/CNN

O que diz a OMS

No dia 5 de abril, o Ponto Focal Nacional (NFP) do Regulamento Sanitário Internacional (RSI) do Reino Unido notificou a OMS de 10 casos de hepatite aguda grave de causa desconhecida em crianças pequenas previamente saudáveis, de 11 meses a cinco anos de idade em toda a Escócia central.

Destes dez casos, nove tiveram início dos sintomas em março, enquanto um caso teve início dos sintomas em janeiro de 2022. Os sintomas incluíam icterícia, diarreia, vômito e dor abdominal. Todos os casos foram detectados após hospitalização.

Desde o dia 8 de abril, investigações adicionais em todo o Reino Unido identificaram um total de 74 casos (incluindo os 10 casos). A síndrome clínica nos casos identificados é de hepatite aguda com enzimas hepáticas acentuadamente elevadas, muitas vezes com icterícia, às vezes precedida por sintomas gastrointestinais, principalmente em crianças até dez anos de idade.

Alguns casos exigiram transferência para unidades especializadas para o tratamento de fígado infantil e seis crianças foram submetidas a transplante de fígado. Até 11 de abril, nenhuma morte foi relatada entre esses casos e um caso epidemiologicamente relacionado foi detectado.

Os testes laboratoriais excluíram os vírus da hepatite A, B, C, D e E nesses casos. Em vários pacientes, foram detectados o novo coronavírus ou adenovírus. O Reino Unido observou recentemente um aumento na atividade do adenovírus, que está co-circulando com o SARS-CoV-2, embora o papel desses vírus no mecanismo pelo qual a doença se desenvolve ainda não esteja claro.

De acordo com a OMS, nenhum outro fator de risco epidemiológico foi identificado até o momento, incluindo viagens internacionais recentes. No geral, a origem dos casos atuais de hepatite ainda é considerada desconhecida e permanece sob investigação ativa. Testes laboratoriais para infecções adicionais, produtos químicos e toxinas estão em andamento para os casos identificados.

Após a notificação do Reino Unido, foram notificados menos de cinco casos (confirmados ou possíveis) na Irlanda, estando em curso novas investigações. Além disso, três casos confirmados de hepatite aguda de causa desconhecida foram relatados em crianças (faixa etária de 22 meses a 13 anos) na Espanha. As autoridades nacionais atuam na investigação dos casos.

A resposta clínica e de saúde pública foi implementada em todo o Reino Unido para coordenar a descoberta de casos com a investigação da causa da doença.

Estão em andamento investigações adicionais pelas autoridades britânicas para incluir um histórico de exposição mais detalhado, testes toxicológicos e testes virológicos e microbiológicos adicionais.

Orientações foram emitidas para especialistas para apoiar uma investigação completa de casos suspeitos. Além disso, outras análises e uma resposta clínica e de saúde pública aos casos relatados também estão sendo realizadas na Irlanda e na Espanha.

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