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    Ouvir cores e saborear músicas: entenda os “poderes mágicos” de famosos como Billie Eilish e Kanye West

    A sinestesia é um distúrbio neurológico que aciona vários sentidos ao mesmo tempo, impulsionando o processo criativo

    Billie eilish diz que sua música "Bad Guy" é amarela, vermelha, morna e cheira a cookies
    Billie eilish diz que sua música "Bad Guy" é amarela, vermelha, morna e cheira a cookies Reprodução

    Flávia Martinsda CNN

    Sentir um cheiro barulhento, ouvir um som amarelo e ter frio ao ler um livro.

    Ficou confuso? Imagine o cérebro de quem tem sinestesia. Volta e meia, o assunto sobre o distúrbio emerge e gera curiosidade, afinal, não é frequente encontrar alguém com esses “poderes mágicos”.

    Diana Santana, médica neurologista do Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo, considera a condição um “dom”: “A sinestesia não é uma doença. É um fenômeno em que um único estímulo sensorial aciona diferentes áreas do cérebro, que apresenta uma simultaneidade de sensações”.

    Em entrevista à CNN, a especialista explica que a sinestesia ocorre, basicamente, quando os sentidos do ser humano – visão, audição, paladar, olfato e tato – se misturam e geram experiências diferentes e únicas para cada indivíduo.

    Segundo Santana, há relatos de pessoas que ao ver uma letra escutam um som; outras escutam uma música e sentem um gosto ou enxergam uma cor – são várias as combinações possíveis.

    Segundo a  American Synesthesia Association (Associação Americana de Sinestesia), há mais de 60 “combinações” do distúrbio, e pelo menos 4% da população os sente de alguma forma.

    Há, inclusive, quem tenha mais de uma sensação gerada por um estímulo, podendo, por exemplo, sentir um gosto e enxergar uma cor ao ver um número. E por aí vai.

    Tipos de sinestesia

    Além de ver cores ao ouvir músicas, há outras sensações mais comuns, como explicado no portal da Salz Clínica. Confira:

    Há relatos de pessoas que enxergam cores ao escutar música / Pexels

    Emoções com cheiro 

    Aqui há o cruzamento entre os receptores olfativos do sistema nervoso central e o sistema límbico, que regula as emoções. Assim, as emoções ganham cheiros específicos. A tristeza, por exemplo, terá gosto de chuva, ou vice-versa.

    Sabores com temperatura

    Aqui duas sensações diferentes se misturam no sistema nervoso central. Portanto, o sabor ou a menção a ele, traz uma sensação de temperatura.

    Cheiros barulhentos

    Por causa da confusão entre o córtex auditivo e os receptores olfativos, os cheiros podem fazer uma pessoa literalmente ouvir coisas.

    Palavras com gosto

    Estes sinestetas percebem gostos específicos para as palavras. É um tipo de interferência sensorial que afeta menos de 0,2% da população mundial.

    Personificar símbolos

    A sinestesia do tipo personificação é realmente rara, em que é possível perceber a “personalidade” de símbolos como letras ou números.

    Famosos sinestésicos

    A lista de famosos que já falaram sobre sua sinestesia é extensa: Kanye West, Pharrell Williams, Billie Eilish, Camila Cabello, Lady Gaga, Olivia Rodrigo.

    Notou um padrão? Todos trabalham com música, e os relatos são quase unânimes sobre como o distúrbio acelera o processo criativo.

    Em entrevista ao talk show de Ellen Degeneres, Kanye West, por exemplo, revelou que vê sons: “Tudo que eu componho de música é como se fosse uma pintura para mim”. Em outras ocasiões, ele também já contou que pensa na cor azul quando vê um piano e na cor amarela quando vê um tambor.

    Kanye West no MTV Video Music Awards de 2016 em Nova York / 28/08/2016 REUTERS/Lucas Jackson

    Em uma entrevista de 2019 para a revista Rolling Stone, Billie Eilish falou sobre a sua condição. “Todas as pessoas que conheço têm sua própria cor e formato na minha cabeça. O meu irmão, por exemplo, é um triângulo laranja”. Ela ainda acrescentou que até mesmo suas músicas têm cor: “A música ‘Bad Guy’ é amarela, vermelha e representada pelo número 7. É morna como um forno e cheira a cookies”.

    Pharrell Willams, cantor e compositor de inúmeros hits, também já citou seus dons. Para ele, cada nota musical corresponde a uma cor – e os sons só estão afinados quando dão “match” com o tom ideal de cada uma.

    Origem e incidência do transtorno

    Segundo Diana, não se sabe ao certo qual a incidência da sinestesia nas pessoas porque, geralmente, os pacientes não se queixam.

    A médica diz que os primeiros relatos são do século XIX, quando se acreditava ser uma doença rara, que afetava uma a cada duas mil pessoas. Hoje em dia, sabe-se que de 20 a 30 pessoas a cada duas mil podem ter apresentado alguma experiência sinestésica.

    Santana relata que a comunidade científica acredita que todos os bebês nascem sinestésicos, com os cinco sentidos “à flor da pele”, mas só alguns permanecem com essas características. Os outros vão perdendo a sinestesia com o amadurecimento do sistema nervoso central e do cérebro, bem como com a ação dos hormônios.

    Pessoas adultas que nunca foram sinestésicas provavelmente só conseguem adquirir os “poderes” após a perda de algum sentido, como a visão. Segundo a especialista, há casos de pacientes que ficaram cegos e passaram a imaginar imagens muito vívidas de alguma situação ao tocarem letras em braile.