Médicos se dividem sobre segurança de vacina da Covid em pacientes de câncer

Com dados limitados, cientistas se debruçam sobre estudos que possam responder com mais precisão o grau de segurança da vacina contra a Covid nesses pacientes

Lauren Kent, CNN

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As vacinas contra a Covid-19 são seguras para pacientes com câncer? Essa pergunta estava na cabeça de pesquisadores e oncologistas muito antes do lançamento dos imuninzantes da Pfizer e da Moderna.

Embora haja um consenso de que as vacinas são seguras para a maioria dos pacientes com câncer, de acordo com a Sociedade Americana de Câncer e outras entidades médicas, a investigação sobre se elas serão eficazes para pacientes com a doença ainda não gerou dados suficientes.

A Sociedade Americana de Câncer recomenda que os pacientes com a doença conversem com seus médicos antes de receber qualquer vacina, porque cada paciente, tipo de câncer e tratamento têm suas particularidades.

Há vários fatores que podem exigir que um paciente com câncer retarde a vacinação, incluindo transplantes recentes de células-tronco ou uso recente de agentes terapêuticos conhecidos por reduzir a eficácia da vacina. O alerta é da doutora Laura Makaroff, vice-presidente sênior de Prevenção e Detecção Precoce na Sociedade Americana de Câncer.

“Cada situação e cada paciente com câncer têm particularidade no que diz respeito à segurança da vacina. E há ainda questões relacionadas à fase em que o paciente está em sua jornada de câncer”, disse Makaroff à CNN.

“A vacina da Covid-19 é definitivamente segura para pessoas com câncer, mas é importante que os pacientes conversem com seu médico e sua equipe de atendimento para determinar quando é o momento certo para recebê-la.”

“Todas as orientações que estamos vendo – da Sociedade Americana de Câncer e de outros grupos de referência em oncologia – é no sentido de que a imunização é recomendada para pacientes em terapia ativa, mas entendemos que há dados limitados de segurança e eficácia sobre esses pacientes”, disse Makaroff.

Mesmo com dados limitados, muitos especialistas em câncer estão fazendo um grande esforço para vacinar a maioria dos pacientes com a doença – especialmente aqueles com quadros mais avançados.

“Os benefícios potenciais superam em muito os riscos”, disse o doutor Brian Koffman, diretor médico da Sociedade de Leucemia Linfoide Crônica, um grupo que representa pacientes com a forma adulta mais comum de leucemia no mundo ocidental.

“Apesar da falta de dados especificamente em pacientes com LLC (leucemia linfocítica crônica), a vacinação contra SARS-Cov-2 é considerada segura”.

Pacientes com esse tipo de leucemia e que desenvolvem a versão sintomática da Covid-19 têm um risco de 89% de hospitalização, disse Koffman à CNN com base em um estudo publicado na revista Nature.

A LLC é caracterizada por enfraquecer o sistema imunológico do seu portador. A imunossupressão é tão grave que os pacientes com LLC são aconselhados a evitar vacinas com vírus vivo e atenuado, como as contra o sarampo e a febre amarela.

E um sistema imunológico enfraquecido também significa um risco maior de morte no caso de contraírem a Covid-19, de acordo com a doutora Chaitra Ujjani, médica da Seattle Cancer Care Alliance e professora de oncologia da Escola de Medicina da Universidade de Washington.

O estudo da Nature, conduzido pela European Research Initiative on LLC, descobriu que a taxa de mortalidade para pacientes com essa doença e que contraem o coronavírus sintomático é de 31%. “O que as pessoas não percebem é que o sistema imunológico debilitado em pacientes com LLC devido à doença ou a alguns de seus tratamentos pode, realmente, afetar sua resposta à vacinação”, disse Ujjani à CNN.

“Recomendamos as vacinas Covid-19 para nossos pacientes, mas não temos certeza de quão eficaz serão”. E acrescenta: “pacientes com câncer no sangue são normalmente excluídos dos ensaios clínicos que avaliam a eficácia da vacina”.

Testes em andamento

Para remediar a falta de dados, Ujjani está iniciando um estudo envolvendo 500 pacientes com LLC nos Estados Unidos. A programação é vacinar todo o grupo para determinar o tipo de resposta imunológica que terão diante das vacinas que já estão comercialmente disponíveis.

O estudo, que é uma colaboração entre mais de dez instituições médicas, será o primeiro do tipo e pode trazer mais clareza com relação aos efeitos da imunização em pacientes com câncer.

O Seattle Cancer Care Alliance está conduzindo testes semelhantes para outros tipos da doença, incluindo cânceres do sistema imunológico e do sangue, disse Ujjani.

Grupos de pesquisa de outros tipos de câncer mais comuns também estão incentivando os pacientes com a doença a se vacinarem o mais rapidamente possível. A Lung Cancer Action Network, grupo de organizações que combatem e estudam o câncer de pulmão, pediu ao Comitê Consultivo sobre Práticas de Imunização dos Estados Unidos para dar aos pacientes com câncer de pulmão rápido acesso às vacinas.

“Como a Covid-19 é, principalmente, uma condição respiratória, a doença apresenta um desafio singular para os pacientes com câncer de pulmão, que correm um risco extremamente alto de hospitalização e morte”, disse o grupo em uma carta.

Necessidade urgente de mais pesquisas

A comunidade científica concorda que mais pesquisas são fundamentais para determinar a eficácia das vacinas contra Covid-19 em pacientes com câncer, e muitos médicos estão trabalhando 24 horas por dia para fazer com que mais testes decolem.

“Precisamos desses dados para que possamos informar melhor os pacientes e distribuir melhor as vacinas. Se esse grupo vulnerável ??dar uma resposta imunológica adequada, certamente devemos vaciná-los o mais cedo possível”, afirmou à CNN por e-mail o doutor Elad Sharon, pesquisador sênior do Instituto Nacional do Câncer.

“Mas, se os esforços de pesquisa mostrarem que esses pacientes não dão uma resposta eficiente a essas vacinas, então, o que precisaremos fazer é vacinar todos ao redor desses pacientes primeiro, para que os vulneráveis ??sejam mais protegidos pelas pessoas que convivem e que cuidam deles.”

Ujjani acrescentou: “Estamos todos trabalhando muito para responder a essa pergunta, mas é difícil porque temos trabalhado contra o relógio e as vacinas acabaram de ficar disponíveis”.

“Muitos de nossos pacientes sofreram isolados e com medo, e não têm certeza se vão voltar a uma vida normal”, disse Ujjani à CNN. “Portanto, todo oncologista está interessado em ver como seus pacientes responderão à vacina”.

 

 

 

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