Fiocruz relata perfil das vítimas da Covid-19 e desigualdades na pandemia

Pesquisadores analisaram 89.405 internações registradas na rede pública do Brasil, nos quatro primeiros meses da chegada do novo coronavírus ao país

Estudo da Fiocruz analisou o perfil das vítimas da Covid-19 no Brasil
Estudo da Fiocruz analisou o perfil das vítimas da Covid-19 no Brasil Foto: Nexu Science Communication/Reuters

Pauline Almeida, da CNN, no Rio de Janeiro

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Um estudo da Escola Nacional de Saúde Pública da Fiocruz traçou o perfil das vítimas da Covid-19 e apontou maiores chances de morte entre pessoas obesas e negras, além das dificuldades enfrentadas por municípios e estados no início da pandemia. 

Pesquisadores analisaram 89.405 internações registradas na rede pública do Brasil, nos quatro primeiros meses da chegada do novo coronavírus ao país, quando 24,4% dos pacientes morreram devido à doença. As hospitalizações trouxeram custos de R$ 332 milhões ao Sistema Único de Saúde (SUS). 

Risco das comorbidades

Os cientistas confirmaram a influência das comorbidades nas mortes, especialmente em obesos – com 56,3% mais chances. A pesquisa também identificou o reflexo da desigualdade na distribuição de recursos e na capacidade para gerenciar as ações de enfrentamento à pandemia. Esses fatores tiveram efeitos no maior índice de mortes registrado em negros, além de em estados do Norte, Nordeste e Sudeste. 

São Paulo somou 31,8% das internações de todo o Brasil, mas o Amazonas teve 34,1% de mortes dentro de hospitais. Chama atenção os casos de Acre, Roraima e Amapá, que tiveram apenas 0,1%, 0,8% e 0,3%, respectivamente, das internações no país. No entanto, destacaram-se nas proporções de óbitos hospitalares: 43,8%, 35,9% e 44,7%. 

Rio de Janeiro, Rio Grande do Norte, Alagoas, Ceará, Paraíba, Pará, Espírito Santo, Pernambuco e Maranhão também tiveram percentuais de mortes hospitalares acima da média nacional.

“O estudo aponta ampla variação na mortalidade hospitalar por Covid-19 no SUS, associada a fatores demográficos e clínicos, desigualdade social e diferenças na estrutura dos serviços e desempenho dos serviços de saúde”, afirmou Margareth Portela, autora do artigo publicado na revista científica Plos One.

Perfil das vítimas

A pesquisa apontou a dificuldade do combate inicial à pandemia. Os cientistas identificaram que municípios do Acre, Roraima, Amazonas, Pará e Amapá apresentavam baixa ou nenhuma capacidade de atender casos graves. Já no Rio Grande do Norte, apenas três municípios tinham a capacidade mínima. A situação também foi grave no Rio de Janeiro, mesmo com a maior disponibilidade de leitos. 

“Houve pouca interação entre o estado e os municípios gravemente afetados, como na capital, a gestão da pandemia foi caótica e a estratégia de implantação de hospitais de campanha falhou parcialmente, com alguns nunca concluídos e outros entregues muito tarde”, descreve o artigo. 

Os dados levantados dos pacientes internados no SUS mostram que 56,5% são do sexo masculino, com média de idade de 58,9 anos. Já o tempo de hospitalização variou de menos de 24 horas a 114 dias, com média de quase uma semana, e 22,6% dos pacientes com necessidade de UTI. As vagas em Unidade de Terapia Intensiva tiveram grande peso nos custos do SUS, com 66,4% do valor total pago com internações de Covid-19.

“As chances de óbito durante a internação foram 72,1% maiores nos municípios com pelo menos 100 mil habitantes, valendo ainda sublinhar que a internação em hospital no mesmo município de residência do paciente foi um fator protetor em relação ao desfecho considerado”, explicou a pesquisadora Margareth Portela.

Com os resultados, os cientistas esperam contribuir na definição das novas estratégias contra a pandemia, especialmente até a vacinação em massa dos brasileiros.

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