Quais são os sintomas da Covid e pós-Covid nas crianças

Entenda os principais sinais da doença nessa faixa etária e como ela pode se agravar

Criança e mãe usam máscaras durante consulta médica
Criança e mãe usam máscaras durante consulta médica Getty Images

Camila Neumamda CNN

São Paulo

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Como a Covid-19 se assemelha a outros vírus respiratórios, é impossível fazer o diagnóstico preciso sem o exame laboratorial para comprovação.

O exame padrão ouro para detecção do coronavírus é o RT-PCR, com uso de swab (aquele apetrecho que parece um cotonete gigante) inserido pelo nariz até o fundo da garganta, feito em laboratórios ou hospitais.

Como ele gera desconforto, nem sempre é uma opção para crianças muito pequenas. Alguns sintomas, no entanto, podem servir de alerta aos pais para relatar ao pediatra ou em uma unidade de saúde, diz o infectologista Francisco Júnior, gerente-médico do Sabará Hospital Infantil, em São Paulo.

“Nas crianças, a Covid apresenta sintomas gastrointestinais, dor abdominal, com ou sem diarreia e febre prolongada. Já nos adolescentes, o quadro se assemelha à Covid no adulto, com estes sintomas e comprometimento pulmonar e baixa oxigenação”, diz.

Francisco Júnior

“Se houver confirmação de caso de Covid entre pessoas próximas ou se os sintomas persistirem, vale procurar auxílio médico”, alerta o infectologista do Sabará.

No quadro agudo de Covid, crianças e adolescentes podem apresentar taquicardia e febre. Já no pós-Covid, a criança apresenta febre, taquicardia, manchas pelo corpo e dificuldades respiratórias.

Sequelas cardíacas

A bebê Mariana Carneiro precisou ser internada aos 27 dias de vida, em novembro do ano passado, por causa do agravamento da Covid.

A filha da dona de casa Talissa Carneiro, 26, de Pinhais (PR), apresentou febre alta que não cessava com medicamentos e foi levada ao Hospital Pediátrico Pequeno Príncipe, em Curitiba (PR), onde exames comprovaram que ela e seu pai tinham contraído a Covid-19.

O pai teve contato com um funcionário infectado no trabalho, mas apresentou sintomas leves. Mariana, no entanto, desenvolveu alterações cardíacas, comprometimento dos pulmões e precisou ficar 10 dias internada.

“Mariana não precisou de suplementação de oxigênio e nem de terapia intensiva, mas desenvolveu alterações sanguíneas e uma pneumonia que comprometeu quase 25% de seus pulmões”

Talissa Carneiro

Depois da alta, foi detectada uma miocardite na criança, o que os médicos classificaram como uma sequela pós-Covid. Para tratá-la, Mariana toma remédios controlados e passa por consultas mensais com um cardiologista e um fisioterapeuta para fortalecer o músculo cardíaco.

“Ela ainda não está cem porcento, mas não fica mais cansada nas mamadas e não apresenta atraso no desenvolvimento”, diz Carneiro.

O pai de Mariana desenvolveu pressão alta após ter contraído a Covid e hoje toma remédio controlado, segundo a dona de casa.

Apesar dos avanços, a mãe de Mariana ainda não consegue saber se a sequela da filha é passageira ou se será permanente.

“Não sabemos quando ela ficará bem da miocardite, o quanto isso pode afetar o futuro dela”.

Atualmente, a família faz o que pode para manter os cuidados para evitar uma nova infecção em casa e proteger a filha com 10 meses de vida.

“A médica me falou que é imprescindível evitarmos um novo contágio porque a Mariana pode não resistir. Então, não saímos e meu marido desde então trabalha em casa. Eu não desejo a ninguém o que eu passei”, diz.

Causas das internações por Covid

De um modo geral, o que leva uma criança ou adolescente a ser internado por Covid é quando a infecção evolui para Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG), caracterizada pela presença de desconforto respiratório e oxigenação baixa, que trazem a necessidade de suporte de oxigênio devido à dificuldade de respirar, explica o infectologista do Sabará.

Dados do Sivep-gripe, da Fiocruz, apontam mais de 15 mil internações por SRAG relacionada à Covid-19 entre pessoas de zero a 18 anos em 2021, destas 1.062 indo a óbito até 13 de setembro.

O volume de internações com esta causa específica em 2021 também ultrapassou o total de 2020, quando 14.638 pessoas de zero a 18 anos foram internadas em decorrência da SRAG/Covid, segundo o levantamento.

Nos adolescentes, além dos casos de SRAG, outro motivo que vem causando quadros graves e internações é a Síndrome Inflamatória Multissistêmica Pediátrica (SIM-P), que acomete crianças um pouco mais velhas, quando os sintomas aparecerem entre duas e seis semanas após terem contraído a Covid.

“Às vezes a criança nem teve sintomas respiratórios de Covid, mas a infecção no pós-Covid evolui para uma febre alta e prolongada, disfunção orgânica e pulmonar, quadros gastrointestinais que levam a internação”, explica o infectologista do Sabará.

Porém, a maioria das internações em crianças e adolescentes não tem necessidade de UTI ou de intubação, embora isso possa acontecer, afirma o infectologista Francisco Júnior.

Casos de SRAG e SIM-P não são a regra entre crianças e adolescentes, mas o surgimento de sequelas cardíacas pós-Covid tem sido observado com regularidade no Hospital Pediátrico Pequeno Príncipe, segundo o vice-diretor técnico do hospital, Victor Horácio de Souza Costa Júnior.

Segundo ele, um terço dos internados por Covid no Pequeno Príncipe entre janeiro e agosto deste ano eram adolescentes e alguns deles apresentavam a SIM-P ou problemas cardíacos isolados que mereceram atenção.

“As crianças têm apresentado mais problemas cardiológicos, embora a SIM-P seja mais comum no adolescente e as complicações e comprometimentos cardíacos sejam mais comuns nas crianças e pré-adolescentes. O que tem nos deixado preocupados são as manifestações cardíacas que eles apresentam na doença ou no pós-doença”, explica.

Victor Horácio de Souza Costa Júnior
/ CNN Brasil

Pós-Covid e intubação aos 11 anos

O menino Alisson Fontes, de 11 anos, ficou 15 dias internado no Hospital Pequeno Príncipe, em Curitiba (PR) – destes, foram oito intubado, entre janeiro e fevereiro deste ano.

Seu caso foi muito grave e de evolução rápida, o que assustou a família, porque o menino nunca tinha apresentado qualquer problema de saúde, conta a mãe dele, a dona de casa Maria Camila Calixto Fontes, 35.

Alisson foi diagnosticado com SIM-P caracterizada por alterações fisiológicas ocorridas até quatro semanas após a infecção pelo coronavírus. “O laudo dele hoje é de pós-Covid e os médicos acham que ele contraiu Covid próximo ao Natal”, diz a mãe.

Mas antes de ser internado, o menino havia passado por duas consultas, uma na Unidade Básica de Saúde e outra na Unidade de Pronto-Atendimento de São José dos Pinhais (PR), onde moram, sem qualquer suspeita levantada de Covid.

Nas unidades, ele recebeu remédios para enjoo e antitérmicos porque estava vomitando, com febre e dores abdominais.

Com a febre sem cessar, vômitos com sangue e dificuldade de respirar, a família o levou ao Pequeno Príncipe, onde ele fez exames que atestaram que ele já havia contraído o coronavírus e não estava mais infectado.

Com a saturação cada vez mais baixa, ele precisou ser intubado, para desespero da família.

“Como ele já estava com a respiração muito pesada, a médica falou que iria ter que passar uma mangueirinha na boca dele. Então, caiu a ficha de que ele precisaria ser intubado. Foram dias muito tristes e pesados”.

Maria Camila Fontes

O menino recebeu alta após 15 dias de internação e descobriu que havia desenvolvido miocardite em uma consulta de rotina. Com o novo diagnóstico, precisou ficar sem fazer esforço por três meses para evitar sobrecarregar o coração.

“Ele não podia correr, pular, nem montar a cavalo por três meses, que é uma das coisas que ele mais ama na vida. Tudo para não comprometer o coração.”

Alisson já foi liberado para brincar e fazer outras atividades, mas continua em acompanhamento com cardiologista e infectologista até completar um ano de sua alta, como protocolo da SIM-P.

Para Maria Camila, faltou uma avaliação médica mais criteriosa nas unidades públicas de saúde, atrasando o tratamento da criança, o que poderia ter sido fatal.

“Além de todos os sintomas, meu filho também tinha pintinhas pelo corpo que foram tratadas como picada de inseto, mas depois eu soube que é sinal de queda de plaquetas. Há coisas que precisam ser pesquisadas mais a fundo e o médico poderia ter avaliado melhor”, diz.

Adolescente se cansou para comer e tomar banho

Outro adolescente que desenvolveu Covid grave foi o filho de 13 anos da advogada Maíra Recchia, 40, que ficou sete dias internado no Hospital Albert Einstein, em São Paulo por causa da Covid.

Para a advogada, exemplos como o do seu filho desmistificam a ideia de que crianças e adolescentes não podem ficar gravemente doentes por causa da doença.

“As pessoas acham que Covid só dá de forma branda em crianças e adolescentes. Não dá. Eu sou a prova viva disso. Eu vi o que o meu filho passou. Um adolescente extremamente forte, superativo, de repente não conseguir se levantar para tomar banho, se cansava para comer. Foi muito difícil.”

Maíra Recchia

O filho da advogada residente em Itapira (SP) precisou ser internado após uma rápida piora dos sintomas da Covid em meados de maio deste ano.

Primeiro ele apresentou febre alta e foi encaminhado a um hospital de Campinas (SP), onde recebeu medicação e fez o teste que detectou positivo para Covid.

Dois dias depois já estava com 15% dos pulmões comprometidos e apresentava cansaço extremo e arritmia cardíaca.

Os sintomas fizeram a advogada levar o filho para São Paulo para uma consulta com especialista em doenças pulmonares. O médico resolveu internar o adolescente.

“Ele foi internado na sexta e na segunda ele teve uma piora importante, continuou com febre, com outros focos de infecção, chegou a ter 50% de acometimento pulmonar, teve que usar um aparelho para expandir o tórax, teve trombo no pulmão, uma série de complicações”, afirma Maíra.

Ao fim de uma semana, seu teste ainda permanecia positivo para Covid, mas com o quadro clínico estável, ele pôde retornar para casa onde ficou isolado somente aos cuidados da mãe.

Depois da alta, o adolescente permaneceu fazendo sessões de fisioterapia respiratória para combater uma tosse persistente e o retorno da capacidade respiratória.

“Foram dias de absoluto terror. Foi muito, muito grave o que ele teve. Não conseguimos identificar como ele desenvolveu um quadro infeccioso tão grave. Ele ficou muito mal.”

Hoje o filho da advogada está recuperado e vive sem sequelas, apenas com uma pequena tosse persistente, segundo Maíra.

“Em agosto ele já estava com uma capacidade respiratória normal, não teve maiores sequelas nesse sentido, exceto essa tosse persistente bem pequena que ele ainda tem”.

Criança internada por Covid é exceção, não regra

Apesar da possibilidade de crianças e adolescentes desenvolverem a Covid em alta gravidade, casos como os relatados são considerados raros.

“O caso do meu paciente é uma exceção à regra; a maioria desse público é tratada em casa”, disse Carlos Levischi, cirurgião de tórax do Hospital Albert Einstein, que acompanhou o filho da advogada.

Segundo Levischi, o adolescente não apresentava nenhum fator de risco para o agravamento da doença, o que indica que há questões imunológicas individuais que podem explicar isso, e que ainda precisam ser aprofundadas.

“Há algum fator imunológico individual que até o momento a gente não saber dizer qual é. No caso dele, era uma criança sem nenhum problema de nutrição, com desenvolvimento cognitivo dentro do padrão considerado típico, e mesmo assim evoluiu para um caso de gravidade. Por que aconteceu? A ciência não consegue responder isso ainda.”

De acordo com o cirurgião, o acometimento pulmonar ocorre quando o vírus penetra no tecido pulmonar e causa inflamação, que pode ser totalmente curado ou deixar cicatrizes, que são as fibroses.

A evolução desta inflamação depende de fatores genéticos e pode ser contida com medicamentos usados no tratamento. Porém, a pouca idade contribui muito para a ausência de fibrose, que se tornam sequelas, mesmo nos casos de Covid, explica Levischi.

Segundo o cirurgião, apesar da Covid poder acometer os pulmões mesmo dos mais jovens, nas crianças e adolescentes este acometimento tende a ter uma recuperação melhor do que nos adultos pela capacidade regenerativa de órgãos e tecidos ser melhor nos mais jovens.

“O pulmão das crianças reage bem as infecções porque ele é muito plástico, se recupera muito bem e tem uma capacidade intrínseca de cicatrização melhor do que no adulto. E no Covid é a mesma coisa, quando a tendência é o acometimento nem aparecer em exames de imagem posteriores”, explica.

 

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