Surto de Influenza no Rio está perto de se tornar epidemia, dizem especialistas

Campanha de vacinação contra a gripe será retomada na capital do estado com 400 mil doses doadas pelo governo de São Paulo

Imagem microscópica do vírus influenza, causador da gripe comum
Imagem microscópica do vírus influenza, causador da gripe comum CDC/Unsplash

Stéfano Sallesda CNN

no Rio de Janeiro

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Em meio ao aumento do número de casos de Influenza A que ocorre no Rio de Janeiro, especialistas entendem que a situação de surto no município está a caminho se de tornar uma epidemia. De acordo com a Secretaria Municipal de Saúde, já foram registrados 23 mil casos na capital do estado nas últimas quatro semanas.

Desde então, a procura de pacientes por atendimento nas Unidades de Pronto Atendimento (UPAs) aumentou mais de 400% na rede situada no município, de acordo com a Secretaria de Estado de Saúde. O surto de Influenza A ocorre em um momento inesperado pelos pesquisadores da saúde: o vírus costuma se disseminar durante o inverno.

Para o epidemiologista Diego Xavier, do Instituto de Comunicação e Informação Científica e Tecnológica em Saúde (ICICT/Fiocruz), o cenário atual já reúne condições para ser definido como de uma epidemia.

“Podemos dizer que já está ocorrendo uma epidemia, porque acontece fora do período esperado, dura mais de duas semanas e o fenômeno está espalhado por toda a cidade. Como ficamos isolados, alguns vírus não se disseminaram tanto na população e, quando a gente retorna, há um contato maior com esses vírus que ficaram represados. O importante é testar mais, para saber se não há casos de Covid-19 leve, porque os sintomas se confundem”, avalia.

Ex-diretor da Escola Nacional de Saúde Pública (ENSP/Fiocruz), o médico sanitarista Hermano Castro concorda parcialmente com a percepção de Xavier, mas entende que ainda não há uma epidemia em curso por conta da dimensão territorial do fenômeno, concentrado na capital. Segundo ele, a evolução do fenômeno precisa ser acompanhada com atenção nas próximas semanas, para avaliar o potencial de expansão e a direção de um eventual alastramento.

“Hoje tudo ainda está muito concentrado na capital, com reflexos menores na Região Metropolitana, em cidades como São Gonçalo. É difícil falar em uma epidemia municipal, não é um conceito usual. Assim, eu diria que ainda estamos na etapa de surto epidêmico. Mas, sim, dependendo de como evolua nas próximas semanas, pode de fato se transformar em uma epidemia”, afirma.

O último Boletim InfoGripe, divulgado pela Fiocruz na quinta-feira (2), indicou que 13 dos 27 estados apresentaram sinais de crescimento do número de casos de Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG) em todas as faixas etárias abaixo dos 60 anos. Três estados chamaram atenção pelo aumento e, entre eles, está o Rio de Janeiro.

Contudo, esse dado é do Sistema de Notificações de Síndromes Respiratórias Agudas Graves (SIVEP-Gripe), que só reflete os casos de síndrome gripal que evoluíram para a forma mais aguda. Embora haja um crescimento do número de casos de Influenza, a proporção de Covid-19 ainda é maior entre eles. A forma mais branda é acompanhada por uma plataforma que, de acordo com os especialistas, não tem sido atualizada de forma adequada.

Coordenador do Boletim InfoGripe, Marcelo Gomes, do Programa de Computação Científica (PROCC/Fiocruz) também sente falta de dados mais detalhados para a realização de uma análise precisa, e explica que a fronteira entre surto e epidemia é sutil.

“Essa linha é bem tênue. Como temos um surto espalhado pela cidade, com crescimento sustentado, pode caracterizar o início de um surto epidêmico. Infelizmente não há informações para análise fina. Alguns estados também reportaram alguns casos, mas nada no nível relatado no Rio de Janeiro. Nos dados de SRAG já tinha aumento de internações em jovens adultos. Pode ser reflexo disto, mas ainda carecia de confirmação laboratorial e estava restrito a crianças e jovens adultos”, pondera.

Em meio ao surto, a vacinação contra Influenza A está suspensa na cidade do Rio de Janeiro desde sexta-feira (3), por falta de doses. De acordo com o painel do Ministério da Saúde, 2,7 milhões de cariocas precisam ser imunizados, mas a cobertura vacinal está em 54,9%. Nesta quarta-feira (8), o governador de São Paulo, João Dória (PSDB) anunciou a doação de 400 mil doses à Prefeitura do Rio de Janeiro, que espera retomar a aplicação ainda essa semana.

Para Hermano Castro, a campanha está atrasada por conta das restrições que havia no início da vacinação, quando o recomendado era que o público esperasse 15 dias para receber o imunizante, depois de ter sido vacinado contra a Covid-19. Atualmente, as duas podem ser aplicadas na mesma visita ao posto de vacinação, o que tem sido recomendado para quem vai receber a segunda aplicação ou a dose de reforço.

“Isso tem sido estimulado. Há ainda uma percepção equivocada de que a vacinação contra a Influenza A é destinada apenas aos idosos, por conta do trabalho de divulgação feito nos primeiros anos da vacina. Eles formam parte do grupo prioritário, mas a vacina também é importante para crianças de seis meses a seis anos de idade, e está disponível para toda a população”, conclui.

Além de ser possível evitar a doença com a vacina, as medidas de prevenção são semelhantes às utilizadas no combate ao coronavírus, como uso de máscaras e higienização das mãos.

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