Terapia de regulação emocional pode aliviar a dor crônica, diz novo estudo

Combinando técnicas da terapia cognitivo-comportamental com mindfulness, a Teoria da Dor e Emoção reduz significativamente a dor crônica

Jorge Marin, colaboração para a CNN Brasil
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Definida como sensação dolorosa persistente por mais de três meses, a dor crônica é uma doença que afeta de 20% a 30% da população mundial. Além de problema de saúde individual, essa condição médica representa um desafio para os sistemas de saúde, devido aos custos de tratamento e perda de produtividade.

Como as abordagens convencionais são inacessíveis para muitos pacientes de dor crônica, um grupo de pesquisadores da University of New South Wales (UNSW) e do instituto Neuroscience Research Australia (NeuRA), na Austrália, criou uma terapia que se concentra na regulação emocional, para reduzir a dor.

Para a primeira autora do estudo, Nell Norman-Nott, da UNSW Sydney, “A dor crônica é mais do que uma experiência sensorial, é incrivelmente emocional”, afirmou a psicóloga clínica à NewScientist.

De acordo com o estudo, publicado na revista JAMA Network Open, foram observados sintomas de ansiedade e depressão em 50% a 80% das pessoas com dor crônica. Isso leva a um “ciclo vicioso”: a dor preexistente causa emoções negativas que, por sua vez, intensificam a percepção da dor.

Os pesquisadores descobriram que aprimorar o processamento emocional do cérebro via terapia controla a dor crônica de forma eficaz. Para a professora Sylvia Gustin, da UNSW, “Isso não representa apenas um alívio temporário, mas uma potencial melhora a longo prazo na qualidade de vida das pessoas”.

O que é a Terapia da Dor e Emoção?

Desenvolvida pela professora Gustin e pela dra. Norman-Nott, a Terapia da Dor e Emoção é uma abordagem pioneira no campo da saúde digital. Seu objetivo é reeducar o cérebro para processar emoções de forma mais eficaz, reduzindo as negativas e amplificando as positivas.

O estudo atual, que testou a aplicação terapêutica, foi realizado entre março de 2023 e setembro de 2024, e analisou 89 pacientes com dor crônica. Os resultados sugerem que a saúde emocional tem impacto significativo no bem-estar físico, abrindo caminho para tratamentos inovadores.

Durante o teste, as autoras disponibilizaram a terapia online em oito sessões grupais por videoconferência conduzidas por terapeutas em toda a Austrália. Os participantes usaram um aplicativo e um manual para práticas individuais, enquanto o grupo de controle manteve seu tratamento convencional.

Segundo Gustin, após seis meses de terapia, os pacientes relataram melhor regulação emocional e uma redução média de 10 pontos na escala de dor (que vai de 0 a 100). A melhora não foi só clínica, mas também prática e concreta no dia a dia das pessoas.

Em um comunicado de imprensa, Norman-Nott diz que a nova terapia ensina aos participantes que precisamos de emoções em nossas vidas. Ela funciona ajudando a identificar e trazer à tona sentimentos, negativos e positivos, reprimidos durante a convivência com a dor crônica por muitos anos.

Implicações da implantação da terapia online para dor crônica

A Terapia da Dor e Emoção utiliza um programa baseado na chamada Terapia Comportamental Dialética (TCD). Voltada originalmente para o tratamento do transtorno de personalidade borderline, a abordagem visa auxiliar os indivíduos a desenvolver habilidades para lidar com emoções intensas.

A TCD combina técnicas da terapia cognitivo-comportamental com princípios de mindfulness (atenção plena), regulação emocional, tolerância ao sofrimento e técnicas para melhorar a comunicação e o relacionamento com os outros. Para atender pacientes com dor crônica, a TCD foi adaptada para o formato online.

Essa acessibilidade ao tratamento psicológico logo ganhou atenção governamental. “Nosso tratamento online reduziu as barreiras ao torná-lo acessível àqueles que sofrem de mobilidade, ansiedade social ou exaustão física devido ao deslocamento para consultas presenciais”, diz Norman-Nott.

A próxima fase da Terapia da Dor e Emoção será um ensaio clínico amplo, financiado pelo Fundo Futuro de Pesquisa Médica da Austrália, com início em 2026. Os pesquisadores já estão recrutando participantes para validar a eficácia do método, que já demonstrou avanços na compreensão da dor crônica.

Para a dra. Norman-Nott, “Os participantes assistiram às sessões online de suas casas, ou de qualquer lugar que fosse confortável para eles”. O resultado abre caminho para políticas públicas mais inclusivas no manejo da dor crônica, conclui a psicóloga.