Tecnologia ajuda a manter contato com avós durante quarentena


Kaya Yurieff, da CNN
17 de abril de 2020 às 13:38
Chamadas de vídeo ajudam a manter contato com família durante quarentena

Abby Godard usa o FaceTime, da Apple, para se comunicar regularmente com a avó Yvonne Simon Perotti

Foto: Arquivo Pessoal/ Abby Godard

Jane Feld, de 94 anos, passava a maior parte do tempo jogando tênis, assistindo a shows com amigos e recebendo membros da família para jantar e casa, na cidade de Syracuse, estado de Nova York. Mas tudo mudou desde o início da pandemia do novo coronavírus.

Para Feld, que tem dificuldade de audição, é mais complexo conversar por videoconferência com os netos ou outros membros da família. Ela tem um telefone moderno que transcreve as conversas para uma tela, mas nem sempre o recurso funciona bem. Para manter contato durante esse período, a idosa usa principalmente o e-mail.

"Não me sinto muito à vontade com coisas tecnológicas", disse Feld à CNN em uma entrevista por e-mail. "O e-mail, definitivamente, me ajudou a acompanhar meus filhos e netos. As horas no telefone me desgastam, mas é fácil dar uma olhada no e-mail. Apenas me avise que você está bem e nos reuniremos o mais breve possível. Com um abraço e beijo virtuais."

Pessoas em todo o mundo estão recorrendo à tecnologia para se manter conectadas durante a pandemia de COVID-19, desde casamentos com transmissão ao vivo e organização de happy hours virtuais com amigos no Zoom até reuniões com colegas de trabalho no Webex.

Mas as gerações mais velhas, com menos facilidade para uso dessas tecnologias, correm o risco de perder contato com os parentes, justamente em um momento em que o estresse e a solidão têm grande potencial de impactar uma população especialmente vulnerável, que muitas vezes mora sozinha ou em casas asilares.

Por isso, algumas famílias estão encontrando maneiras criativas de manter contato com os familiares idosos por meio de métodos como porta-retratos modernos, festas pelo FaceTime e ferramentas simples como e-mail.

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No entanto, barreiras de entrada, como inscrever-se em contas ou aprender a navegar em uma nova tecnologia, muitas vezes dificultam as gerações mais velhas. Apenas 26% dos internautas com 65 anos ou mais disseram se sentir "muito confiantes" ao usar computadores, smartphones ou outros eletrônicos para fazer o que precisam fazer online, de acordo com um estudo de 2015 da Pew Research Center.

Mais do que isso: esses recursos não substituem as interações da vida real com as quais eles estão acostumados.

"É claro que não é o mesmo que pessoalmente", disse Meredith Doubleday, neta de Feld. "Definitivamente, isso não substitui, mas com certeza ajuda. Estou muito agradecido por ainda podermos enviar e-mails. Ela fica me lembrando que, no ensino médio, era uma excelente datilógrafa", conta a neta.

Abby Godard costuma fazer festas virtuais pelas chamadas de vídeo FaceTime, da Apple, com a avó de 83 anos, Yvonne Simon Perotti, que mora a cerca de 15 minutos dela nos subúrbios de Columbus, no estado de Ohio. Godard e a família também se reúnem, semanalmente, no Zoom, incluindo a avó e o avô de 78 anos, Charlie Perotti.

Os Perottis se consideram bastante adeptos da tecnologia para sua idade e descobriram como usar serviços como o Zoom por conta própria. "Em nossa vizinhança, temos um clube de leitura. Então, agora temos uma reunião virtual do clube do livro pelo Zoom, o que é bem legal", disse Charlie Perotti.

Dispositivos inteligentes

Outras famílias estão recorrendo a dispositivos inteligentes para se comunicar. Ann Fraser comprou uma moldura da ViewClix em 2018 para a mãe Lorraine Tangney, de 92 anos, para que pudessem manter contato quando ela e o marido se mudaram para a Flórida.

O porta-retrato inteligente, projetado para idosos, não exige que eles aprendam novas tecnologias e permite que vários membros da família compartilhem fotos, façam chamadas de vídeo e publiquem notas virtuais com mensagens para a pessoa que ama.

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Em tempos normais, os membros de sua família enviam fotos de si mesmos e de suas viagens para o dispositivo. Mas durante a pandemia, os parentes estão contando com a função de bate-papo por vídeo para manter contato com Tangney, que está em uma instituição de cuidados em Massachusetts.

A família ligou o aparelho na frente da cadeira favorita dela. Quando recebe uma vídeochamada, seu ViewClix se conecta automaticamente para que Tangney não precise se levantar para atender.

"Eu liguei para ela outro dia, e a enfermeira estava no quarto, então ela foi capaz de dizer 'Oh, olha alguém está te ligando. Ela ficou muito animada", disse a neta Leah Briscoe.

"Tentamos fazer esse tipo de coisa usando um tablet, mas não funcionou. E ela não consegue mais falar ao telefone, então precisávamos ser um pouco mais criativos sobre como manteríamos contato com ela." Fraser disse que o aparelho oferece uma forma "inestimável" de se comunicar com a mãe.

Nos EUA, o dispositivo de 10,1 polegadas custa US$ 199 (equivalente a R$ 1.047), enquanto a versão de 15,6 polegadas é vendida por US$ 299 (R$ 1.573).

Para evitar contato físico, família de Rosemary conversa com ela da sacada

Rosemary Adams acena da sacada de seu apartamento em uma casa de idosos para membros da família que a visitaram no fim de março

Foto: Arquivo Pessoal/ Alexandra DeLessio

A ViewClix disse que houve um aumento de 201% nas vídeochamadas de fevereiro a março por meio de seus aparelhos. Durante um período de cinco dias, em meados de março, a empresa informou que vendeu o equivalente a vários meses de estoque de ambas opções de dispositivos.

O Skylight (vendida por US$ 159, cerca de R$ 836), outro porta-retrato digital voltado para idosos, disse que teve um crescimento semelhante no uso: o número de mensagens de vídeo enviadas para os aparelhos triplicou em relação ao mês passado, e as vendas do início de abril são três vezes maiores que no mês anterior.

Mas para alguns idosos, novos dispositivos são muito difíceis de usar. Alexandra DeLessio e sua família compraram para sua avó de 88 anos, Rosemary Adams, um alto-falante inteligente do Facebook, disponível a partir de US$ 129 (R$ 679) nos EUA, e a orientaram sobre como usá-lo, até praticando com ela. Mas Adams nunca o usou por conta própria porque não consegue se lembrar das instruções. Ela agora vive em uma instituição de cuidados assistidos e nenhum visitante pode entrar devido à pandemia do novo coronavírus.

Mas ainda pode haver soluções para quem não se adapta à tecnologia. A família de Rosemary criou uma maneira segura e pessoal de interagirem: Ela sai para sua varanda e DeLessio, seus pais e a irmã gritam para ela do lado de fora.