Observatório europeu registra estrela sendo devorada por buraco negro


Bianca Camargo e Julyanne Jucá, da CNN, em São Paulo
14 de outubro de 2020 às 08:07
Concepção artística de uma estrela sendo desfeita

Concepção artística de uma estrela sendo desfeita por forças de maré exercidas por um buraco negro supermassivo

Foto: ESO/M. Kornmesser/Divulgação

Telescópios do Observatório Europeu do Sul (European Southern Observatory - ESO) capturaram o momento da "espaguetificação" de uma estrela ao ser devorada por um buraco negro supermassivo. Uma animação artística reproduziu o evento - veja abaixo.

Um estudo sobre o caso foi publicado nesta segunda-feira (12) na revista científica "Monthly Notices of the Royal Astronomical Society", da Universidade de Birmingham, no Reino Unido.

A equipe de astrônomos, pertencentes a organizações de todo o mundo, descobriu que quando um buraco negro engole uma estrela ele pode lançar uma poderosa explosão de material para fora. É denominado "espaguetificação" pois, quando em contato com o buraco negro, a estrela se desfaz, liberando um clarão brilhante de energia.

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“Quando uma estrela azarada se aproxima demais de um buraco negro supermassivo no centro de uma galáxia, a extrema atração gravitacional exercida pelo buraco negro desfaz a estrela em finas correntes de matéria”, explica Thomas Wevers, autor do estudo e bolsista do ESO em Santiago do Chile, que estava trabalhando no Instituto de Astronomia da Universidade de Cambridge.

Esse episódio é raro e nem sempre fácil de estudar, mas os astrônomos enfrentavam dificuldades para investigar e registrar o clarão de luz, devido a uma cortina de poeira e restos de material estelar se formar. Além disso, os pesquisadores acreditam que este é o mais próximo registrado de nós - ou o menos distante - que aconteceu a pouco mais de 215 milhões de anos-luz de distância da Terra.

Kate Alexander, bolsista Einstein da NASA na Universidade Northwestern, nos Estados Unidos, diz que puderam ver a "cortina" sendo criada à medida que o buraco negro lançava as finas correntes de matéria. "Esta única 'espiada atrás da cortina' nos proporcionou a primeira oportunidade de localizar a origem do material ocultante e seguir em tempo real como é que engolfa o buraco negro”, disse.

De acordo com o estudo, esse registro poderá explicar como funcionam os buracos negros supermassivos e como a matéria estelar se comporta em ambientes com alta gravidade. A criação do Extremely Large Telescope (ELT), do ESO, será finalizada e começará a operar ainda nesta década, o que poderá possibilitar detectar e captar melhor eventos similares à esse, "ajudando assim a desvendar mais mistérios da física dos buracos negros."

Nobel de Física 2020
O Prêmio Nobel de Física deste ano premiou um trio de cientistas por estudos relacionados aos buracos negros presentes em nossa galáxia. O grupo dividiu o prêmio de 10 milhões de coroas suecas (cerca de 1,1 milhão de dólares).

O físico britânico Roger Penrose recebeu o Prêmio "pela descoberta de que a formação do buraco negro é uma robusta previsão da teoria geral da relatividade". Já o astrofísico alemão Reihard Genzel e a astrônoma norte-americana Andrea Ghez foram premiados "pela descoberta de um objeto compacto supermassivo no centro de nossa galáxia", isto é, indicaria a presença de um buraco negro.

A pesquisa de Penrose indica que a teoria geral da relatividade, de Albert Einstein, levaria à formação dos buracos negros. Já os estudos de Genzel e Ghez mostram que "um objeto extremamente pesado e invisível governa as órbitas das estrelas no centro de nossa galáxia". "Um buraco negro supermassivo é a única explicação atual conhecida".

Andrea Ghez é a quarta mulher a ser premiada na categoria desde a criação do prêmio, no ano de 1901.