Por que alguns dinossauros tinham pescoços tão longos


Katie Hunt, da CNN
18 de novembro de 2020 às 15:37
Ossada de Diplodocus em estação ferroviária em Berlim, Alemanha

Ossada de Diplodocus em estação ferroviária em Berlim, Alemanha

Foto: Alexander Husing/Wikicommons

Os saurópodes foram os maiores animais que já andaram na Terra.

Dinossauros de pescoço longo, eles podiam atingir o comprimento de três ônibus e eram tão pesados que deviam fazer o solo tremer ao caminhar.

Essa família de dinossauros, no entanto, nem sempre foi tão gigantesca. Nos primeiros 50 milhões de anos de sua história evolutiva, os saurópodes eram muito mais diversos. Embora alguns fossem bastante grandes, com cerca de 10 metros de comprimento, a família também incluía animais de constituição mais leve, mais ou menos do tamanho de uma cabra. Além do mais, alguns saurópodes andavam sobre duas pernas, enquanto outros usavam quatro.

Então, como esses dinossauros com o pescoço longo característico ficaram tão grandes?

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Fósseis encontrados na Patagônia, na América do Sul, lançaram uma nova luz sobre este mistério. Uma equipe de paleontólogos descobriu um dos primeiros grandes saurópodes conhecidos e estudou fósseis de plantas nas camadas de rocha ao redor do dinossauro, colhendo evidências do clima e do ecossistema em que vivia a espécie de dinossauro recém-identificada. Os cientistas chamaram-no de Bagualia alba em homenagem ao cânion Bagual, onde foi encontrado o fóssil de dinossauro, e “alba”, que significa “amanhecer” em espanhol, pela sua idade precoce.

De acordo com a pesquisa, o enorme tamanho do saurópode foi provavelmente uma resposta a uma mudança no clima 180 milhões de anos atrás, durante o início do período jurássico. Essa transformação evolutiva foi desencadeada por grandes erupções vulcânicas no

hemisfério sul que resultaram em uma mudança na flora, formando a dieta dos saurópodes herbívoros.

“Havia fluxos de lava estendidos por mais de um milhão e meio de quilômetros quadrados. Isso é muito maior do que qualquer coisa que testemunhamos nos tempos humanos. Grandes quantidades de CO2 e metano foram lançadas na atmosfera e há muitos estudos sobre o aquecimento do clima em escala global à época”, explicou Diego Pol, pesquisador principal do Museu de Paleontologia Egidio Feruglio da Argentina, à CNN.

“Mas desconhecíamos o efeito dessa crise global nos ecossistemas terrestres. Nossa falta de conhecimento aconteceu porque os sedimentos com dinossauros e plantas dessa idade em particular são muito incomuns.”

A mudança na dieta significou que muitos grupos de saurópodes desapareceram e apenas uma linhagem sobreviveu: os grandes saurópodes conhecidos como eusaurópodes. O Bagualia alba provavelmente teria 10 toneladas (o tamanho de dois elefantes africanos) mas os saurópodes posteriores tinham até 40 metros de comprimento e pesavam 70 toneladas.

Mudança na vegetação

Representação do Mamenchissauro, espécie de saurópode

Representação do Mamenchissauro, espécie de saurópode

Foto: DiBgD/Wikicommons

Foi a mudança na vegetação em um clima mais severo, em especial, que levou à extinção da maioria dos saurópodes. Sem árvores, os menores morreram; os maiores continuaram encontrando alimento. Árvores coníferas altas passaram a dominar o ambiente mais quente e árido. Essas árvores suplantaram a exuberante vegetação do ambiente úmido que antecedeu o evento vulcânico. Os fósseis desse ambiente mostram samambaias com folhas maiores que 1,80 m.

“Os únicos que sobreviveram a esta crise foram os eusaurópodes. Há muito tempo eles são considerados como grandes comedores, com dentes e mandíbulas capazes de cortar e engolir todos os tipos de plantas, incluindo coníferas”, detalhou o pesquisador.

“Além disso, descobrimos que o esmalte dos dentes do Bagualia era cerca de sete vezes mais espesso do que o dos outros herbívoros que foram extintos. Isso permitiu que se alimentassem das duras folhas coriáceas das coníferas”, contou Pol.

Na verdade, as grandes câmaras digestivas necessárias para lidar com esse tipo de vegetação provavelmente foram uma das razões pelas quais esses animais atingiram tamanhos enormes.

E os pescoços longos? Segundo Pol, eles teriam permitido que eles alcançassem as altas coníferas e tivessem acesso a diferentes plantas sem mover seus corpos enormes.

“Seus grandes corpos exigiam que comessem uma grande quantidade de alimentos para atender às suas necessidades energéticas. Mas, se você é grande e pesado e tem que se mover muito para conseguir os alimentos de que precisa, pode gastar bastante energia (e então precisar de ainda mais comida)”, disse ele.

Animais gigantes também produzem muito calor corporal, e outros estudos sugeriram que seu pescoço comprido pode dissipar a temperatura, um pouco como as orelhas grandes dos elefantes modernos.

A pesquisa foi publicada na revista “Proceedings of the Royal Society B” na terça-feira (17).

(Texto traduzido, leia o original em inglês)