Ficha criminal no Tinder: mais segurança ou exposição desnecessária?

Ao mesmo tempo que o novo dispositivo pode trabalhar a favor da segurança dos usuários, também pode ser um amplificador de preconceitos

Análise por Lia Bock, da CNN, em São Paulo
26 de março de 2021 às 14:10 | Atualizado 26 de março de 2021 às 15:03
Tinder
O aplicativo de relacionamentos Tinder vai mostrar a ficha criminal dos usuários, situação que levanta questionamentos
Foto: Divulgação/Tinder

Na semana passada o Tinder anunciou que vai expor os antecedentes criminais dos crushes como forma de tentar reduzir golpes e, principalmente, casos de violência contra mulheres que acontecem nos encontros promovidos pelo aplicativo. Num primeiro momento a medida foi recebida com efusividade no mundo todo. Quem não quer segurança nos encontros, não é mesmo? Porém, olhando com calma, existem muitas perguntas que precisam ser respondidas antes da gente comemorar. Eu diria que é preciso analisar muito bem o custo benefício da medida para ver se o (caro) preço social a ser pago vai se refletir em diminuição real da violência.

Já sabemos que a Garbo, organização sem fins lucrativos que está auxiliando o Tinder e disponibilizará as informações, não vai colocar na roda crimes como consumo, porte e venda de drogas. A preocupação social é bacana, e a ONG justifica que isso protege a comunidade negra, comumente alvo das políticas antidrogas. Mas e os crimes pequenos em que as pessoas já cumpriram pena, estarão lá expostos? Parece que sim. Do ponto de vista dos direitos humanos isso não é bacana. Pensem em alguém que furtou um produto num supermercado, foi julgado, condenado e já cumpriu a pena. Seguir expondo esse crime depois que a pessoa já pagou por ele é um tipo de violência, é uma nova punição que, se não contida, perseguirá a pessoa para sempre. Acaba sendo uma punição social eterna. E se a informação de que a pessoa furtou porque estava passando fome estiver exposta, um tanto pior. Seria a exposição pública de uma questão íntima que ela pode não querer compartilhar com seus crushes. 

Muitos especialistas veem a exposição da ficha criminal de quem já cumpriu a pena como uma nova punição – e não só no caso do Tinder. Mas esse seria um tipo "exposing", como se fala na web, que causaria ainda mais preconceito com egressos do sistema prisional.

Outra questão levantada por um advogado com quem conversei: com que periodicidade esse banco de dados vai ser atualizado com informações da justiça? Revisões criminais acontecem o tempo todo, inclusive depois da condenação. A justiça erra e novas provas aparecem. Isso será contemplado? E se sim, será que depois que já foi exposto, a reviravolta terá algum efeito em limpar a barra? Aqui entra também a problemática dos prints de tela, aqueles que ficam eternizados na web gerando custo emocional altíssimo e podem virar até caso de justiça.

Pra quem está torcendo o nariz pensado, "essa aí quer proteger bandido", trago perguntas na outra ponta: Um cara que tem cinco boletins de ocorrência por violência contra mulheres, mas ainda não foi julgado, constará como ficha limpa no Tinder? Tudo indica que sim, já que não podemos condenar alguém no app de paquera antes que a justiça o faça. Mas caso isso aconteça, como lidar com o sujeito cuja ex-namorada fez B.O. mentiroso como forma de vingança? Eu avisei que eram muitas as questões!

Um dos maiores problemas dos aplicativos de relacionamento (dentre outros apps) são os perfis falsos. Gente que usa nome, e-mail e telefone frios. Como será que a ficha dessa pessoa (fake) será exposta? Ficha limpa, nada consta? Ou saberemos que se trata de um perfil falso? Aí vejo vantagem.

Muitos especialistas acreditam que se a questão da identificação fosse resolvida diversos crimes seriam inibidos e outros seriam mais facilmente solucionados, mostrando, inclusive, para futuros golpistas e abusadores que ali nada passa batido. Eu entrevistei uma moça que foi estuprada num encontro de aplicativo. O cara desapareceu e era tudo falso, inclusive os dados que ele passou para que ela checasse algumas informações não eram dele. Se houvesse algum tipo de mecanismo que impossibilitasse esse tipo de atitude, com certeza teríamos bem menos crimes dentro dos apps.

Por último, mas não menos importante, outra questão que me incomoda é o fato da medida só estar disponível apenas para quem tem a versão premium. Isso significa que mesmo se todas as respostas para as perguntas feitas aqui forem satisfatórias, estaríamos falando em proteção para a elite do Tinder (que não difere da elite da sociedade) em sua maioria pessoas brancas e de classes sociais elevadas. Pra quem busca por segurança e igualdade, essa problemática nos leva de volta ao começo do tabuleiro. 

Sei que o Tinder está numa batalha legítima para proteger seus usuários. O botão do pânico que está em teste em alguns é um exemplo, mas deixo aqui esse punhado de questionamentos sobre a ficha criminal dos crushes e a pergunta: queremos uma sociedade com contornos de Minority Report?