Activision Blizzard: entenda os escândalos no estúdio comprado pela Microsoft

Empresa produziu jogos clássicos, mas tem histórico de acusações de discriminação e assédio

Funcionários pediram o afastamento do CEO Bobby Kotick
Funcionários pediram o afastamento do CEO Bobby Kotick Activision Blizzard/ Divulgação

Felipe Arandacolaboração para a CNN

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Anunciada como mais um estúdio de videogames que pertencerá à Microsoft, a Activision Blizzard não repassará somente sua herança de jogos clássicos bastante difundidos entre o público gamer, mas também um cenário bem delicado de processos judiciais que tornou a empresa o centro de escândalos e acusações de discriminação e assédio contra funcionários.

Em julho de 2021, quando a Activision Blizzard foi processada pelo Departamento de Trabalho Justo e Habitação (DFEH, na sigla em inglês) da Califórnia após denúncias sobre a cultura de assédio amplamente ativa na companhia.

As alegações eram de assédio sexual, físico e moral contra as mulheres incluindo também diferença salarial.

Segundo o DFEH, os executivos e a área de recursos humanos sabiam da discriminação que acontecia “e falharam em tomar medidas razoáveis para impedir a conduta ilegal, e em vez disso, retaliaram as mulheres que se queixavam”. De acordo com relatos de ex-funcionárias, as mulheres tinham que lidar frequentemente com comentários machistas e de conotação sexual.

À CNN, um porta-voz da Activision Blizzard disse na época que a empresa estava levando as alegações a sério e que teria “iniciado um processo de investigação interno para todas as reivindicações”.

Pouco tempo depois, ainda em julho de 2021, funcionários criaram um abaixo-assinado contra a resposta “abominável” da empresa em relação ao processo. Em um comunicado interno em forma de resposta às acusações, Frances Townsend, vice-presidente para assuntos corporativos da Activision Blizzard, disse que os casos reportados eram “incorretos, antigos” e “fora de contexto”.

A petição, assinada por mais de 2.000 funcionários, descreveu as declarações como “abomináveis e insultantes a tudo o que acreditamos que nossa empresa deveria defender” e que os valores não estavam sendo “refletidos com precisão nas palavras e ações de nossa liderança”.

O abaixo-assinado pedia seriedade da empresa quanto às alegações, além de iniciativas significativas por parte dos executivos com o intuito de criar um local seguro para tratar abertamente dos casos.

Quase imediatamente, Bobby Kotick, CEO da Activision Blizzard, admitiu que a resposta da companhia foi errada.

A declaração surgiu horas após funcionários organizarem uma greve em protesto, em 28 de julho. Em nota, o CEO pediu desculpas por não ter lidado corretamente com a situação e que estaria comprometido a realizar um trabalho melhor. “Cada voz importa — e faremos um trabalho melhor ouvindo agora e no futuro. Lamento que não tenhamos fornecido a empatia e a compreensão corretas”, declarou.

Segundo um documento obtido pela CNN Business, o protesto tinha o intuito de “melhorar as condições [de trabalho] para os funcionários, especialmente as mulheres, principalmente as mulheres negras e transgêneras, pessoas não-binárias e outros grupos marginalizados”. Os protestantes também pediam a contratação de uma empresa de auditoria terceira para conduzir a investigação interna, incluindo as áreas de recursos humanos e dos executivos.

Na mesma nota, Kotick anunciou a contratação da consultoria jurídica WilmerHale. O CEO também disse que a Activision Blizzard estaria “avaliando imediatamente gerentes e líderes em toda a empresa” e se comprometeria a demitir qualquer pessoa que tivesse má conduta.

Em setembro de 2021, a Activision Blizzard sofreu um novo processo após o Conselho Nacional de Relações Trabalhistas da Califórnia receber acusações de que a empresa estaria coagindo os trabalhadores com práticas trabalhistas desleais para silenciá-los. De acordo com o processo, a empresa “ameaçou funcionários os impedindo de falar ou comunicar sobre salários, horas e condições de trabalho”. Além disso, a companhia teria também se envolvido em interrogatórios de funcionários que protestavam contra.

Ainda em setembro, 27, a companhia comunicou a criação de um fundo de US$ 18 milhões para encerrar um processo recebido pela Comissão de Igualdade de Oportunidades de Emprego (EEOC, na sigla em inglês).

O fundo foi criado para compensar as acusações recebidas pela empresa e que parte seria também destinada a “instituições de caridade focadas em assédio, igualdade de gênero e mulheres na indústria de videogames” ou também “usadas para criar iniciativas de diversidade e inclusão dentro da empresa”. Este processo foi originado em decorrência da ação inicial em julho de 2021 deferida pelo Departamento de Trabalho Justo e Habitação (DFEH).

No mês seguinte, em novembro de 2021, a Activision Blizzard enfrentou um segundo protesto após um relatório indicar que Bobby Kotick, CEO da empresa, teria conhecimento, há anos, sobre as alegações de assédio sexual e discriminação.

Mais de cem funcionários fizeram greve pedindo o afastamento do executivo. Em resposta por vídeo, Kotick diz que o relatório não era verídico e que passava uma imagem errada da Activision Blizzard, dele e do seu trabalho. Em comunicado, o conselho de diretores da empresa reiterou o suporte ao CEO. “O Conselho continua confiante na liderança, compromisso e capacidade de Bobby Kotick.”

Dias depois do protesto, 800 funcionários assinaram uma nova petição pela demissão de Kotick. O abaixo-assinado dizia que os funcionários “não confiavam mais” no líder e pedia que ele deixasse o cargo de CEO e que não influenciasse na escolha de um novo executivo.

Em resposta, um porta-voz da empresa declarou que a Activision Blizzard apoiava “os direitos dos funcionários de expressar suas opiniões e preocupações de maneira segura e respeitosa, sem medo de retaliação”. Kotick permaneceu no cargo.

Em outubro de 2021, como forma de amenizar o escândalo que ainda acontecia, Kotick pediu ao Conselho da Activision Blizzard que cortasse seu salário “para menor valor que a lei da Califórnia permitisse” até que conseguisse lidar com as acusações de discriminação e assédio. O salário do CEO seria reduzido de US$ 155 milhões para US$ 62.500.

Em uma carta aos funcionários, Kotick disse que a medida fazia parte de uma série de mudanças que a empresa estaria fazendo, incluindo o fim das reclamações de assédio sexual e discriminação, aumento de 50% da quantidade de mulheres e pessoas não-binárias na empresa e uma política de “zero tolerância para o assédio”.

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