Animais também podem cair em ilusão de ótica? Novo estudo responde

Pesquisadores realizaram experimentos para entender se peixes e pássaros são enganados por truques visuais assim como os humanos

Gabriela Maraccini, da CNN Brasil
Pesquisadores realizaram estudo para entender se animais também podem cair em ilusão de ótica  • Freepik
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As ilusões de ótica são um dos fenômenos mais intrigantes que mexem com o nosso cérebro. Capazes de enganar a nossa percepção visual, elas são frequentemente usadas em artes para confundir o observador. Mas será que, além dos humanos, animais também podem ser "vítimas" de ilusões de ótica?

Essa é a curiosidade despertada em pesquisadores da Universidade de Viena, na Áustria. Em um trabalho publicado no dia 19 de outubro na revista Frontiers in Psychology, eles tentaram responder a essa dúvida.

Em humanos, a ilusão de ótica está ligada ao processamento global: a tendência de interpretar uma cena na totalidade antes de focar nos detalhes. No entanto, nem todos os animais vivem no mesmo mundo sensorial que as pessoas.

Para explorar como o processamento global acontece em animais, os pesquisadores recorreram a duas espécies diferentes, uma de peixes e outra de pássaros: guppy (Poecilia reticulata) e a pomba com anel (Streptopelia risoria), respectivamente.

Os guppies habitam riachos tropicais rasos, repletos de luz intermitente, vegetação densa e predadores imprevisíveis. Sua sobrevivência depende de decisões rápidas: escolher parceiros, juntar-se a cardumes e escapar de ameaças.

As pombas com anel, por outro lado, são granívoras terrestres. Elas passam grande parte do tempo bicando pequenas sementes espalhadas pelo chão. Precisão e atenção aos detalhes podem ser mais importantes do que analisar toda a cena. Além disso, a visão binocular permite que elas façam julgamentos precisos de distância e tamanho de suas presas.

Ao colocar essas espécies lado a lado, os pesquisadores se perguntaram se a mesma ilusão engana tanto um peixe que se move rapidamente na água quanto um pássaro que observa o chão.

Para responder a essa dúvida, o estudo realizou experimentos que utilizaram comidas como "círculo" central. Para os guppies, flocos de comida foram colocados dentro de conjuntos de círculos menores ou maiores ao redor. Para as pombas, sementes de painço foram apresentadas em arranjos semelhantes.

Os resultados foram surpreendentes: os guppies caíram consistentemente na ilusão. Quando a comida estava rodeada por círculos menores, os guppies a escolhiam com mais frequência, como se fosse realmente maior.

Já os pássaros não demonstraram uma suscetibilidade à ilusão. Alguns indivíduos comportaram-se como humanos, outros de forma oposta, e muitos pareceram completamente imunes. Esta variabilidade sugere que as pombas com anel podem recorrer a diferentes estratégias perceptivas; mais locais, orientadas para os detalhes e menos influenciadas pelo contexto circundante.

Para os pesquisadores, as descobertas levantam questões mais profundas em biologia evolutiva e cognição comparativa: a percepção depende do que funciona em um determinado ambiente.

Para os guppies, integrar toda a cena pode ajudá-los a navegar por riachos visualmente complexos, identificar parceiros maiores ou avaliar rapidamente os tamanhos relativos em um cardume. Para as pombas, acostumadas a distinguir sementes em meio a um fundo confuso, concentrar-se no tamanho absoluto e nos detalhes locais pode ser mais útil.

Além disso, o estudo mostra que, assim como os humanos, em que algumas pessoas são facilmente enganadas por ilusões e outras quase nada, a percepção animal não é uniforme.