Ativistas dizem que Zoom suspendeu perfil após evento sobre massacre na China

A repressão na Praça da Paz Celestial, em 1989, é um assunto muito delicado para o governante Partido Comunista

Estudante tem aulas online com seus colegas usando o aplicativo Zoom em casa, durante a pandemia de coronavírus em El Masnou, ao norte de Barcelona, Espanha (02/04/2020)
Estudante tem aulas online com seus colegas usando o aplicativo Zoom em casa, durante a pandemia de coronavírus em El Masnou, ao norte de Barcelona, Espanha (02/04/2020) Foto: REUTERS/ Albert Gea

Michelle Toh e Rishi Iyengar, da CNN

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Um grupo nos Estados Unidos, que apoia os direitos humanos na China, disse que a empresa do aplicativo de videoconferências Zoom suspendeu sua conta após a realização de um evento na plataforma para lembrar o massacre na Praça da Paz Celestial (Tiananmen), em 1989. 

O Humanitarian China, uma organização com sede na Califórnia, que trabalha para dar “alívio a prisioneiros políticos e ativistas” na China, afirmou em um comunicado que não conseguiu acessar sua conta no Zoom no domingo (7), uma semana após o evento virtual. O grupo afirmou que mais de 250 pessoas em todo o mundo se reuniram em uma conferência na plataforma, enquanto outros a acompanharam nas redes sociais.

“A conta do Zoom que foi usada para essa conferência recebeu uma mensagem [dizendo] que foi suspensa”, informou a organização. “O Zoom não respondeu aos nossos pedidos por uma explicação.”

A repressão na Praça da Paz Celestial é um assunto muito delicado para o governante Partido Comunista da China. No dia 4 de junho de 1989, tropas chinesas invadiram o local, em Pequim, e dispararam contra civis que protestavam por democracia, após várias semanas de manifestações. Estimativas do número de mortos variam entre centenas a milhares de pessoas.

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Zhou Fengsuo, ex-líder dos protestos em Pequim e líder do Humanitarian China, disse que o evento de 31 de maio contou com a participação das Mães de Tiananmen, um grupo formado por mulheres que perderam os filhos no massacre. Segundo o Humanitarian China, também participaram escritores, acadêmicos e ex-líderes estudantis.

“Uma quantidade significativa de participantes era da China”, informou o grupo em um comunicado. “Nossa conferência deu a muitas pessoas a oportunidade de se conectarem com ativistas estrangeiros pela primeira vez.”

Interferência do governo chinês?

Os primeiros relatos de que a conta havia sido suspensa surgiram no site Axios. O Zoom afirmou em um blog nessa quinta-feira (11) que foi informado pelo governo chinês sobre quatro videoconferências para lembrar o aniversário de 4 de junho que estavam sendo divulgadas nas redes sociais.

“O governo chinês nos informou que essa atividade é ilegal na China e pediu ao Zoom para encerrar as conferências e as contas responsáveis”, informou a empresa.

O Zoom permitiu que uma das reuniões continuasse, depois de confirmar que ela não teria nenhum participante da China continental, mas suspendeu as outras três conferências e as contas dos responsáveis – duas nos EUA e uma em Hong Kong. Todas as contas já foram restabelecidas, de acordo com a companhia.

“Lamentamos que algumas conferências recentes com participantes de dentro e fora da China tenham sido negativamente impactadas e conversas importantes, interrompidas. Não está em poder do Zoom mudar as leis de governos que se opõem ao discurso livre”, acrescentou o porta-voz da empresa.

O Humanitarian China disse que é “ultrajante” que o Zoom, uma companhia norte-americana, pareça agir de acordo com a lei chinesa ao suspender as contas da organização. Em nota, o grupo acusou a plataforma de ser “cúmplice em apagar as memórias do Massacre de Tiananmen em colaboração com um governo autoritário”.

Zhou Fengsuo confirmou que sua conta foi reativada, mas disse que sua equipe quer respostas sobre os motivos para a suspensão. “Não tivemos resposta do Zoom. Queremos saber o porquê”, disse à CNN.

Em um blog, o Zoom informou que atualmente não consegue bloquear das reuniões participantes por país e optou, então, por suspender as videoconferências, decisão que a plataforma classificou depois como um “erro”. 

A empresa disse que irá desenvolver uma tecnologia para bloquear participantes individuais nos próximos dias. “No futuro, o Zoom não aceitará pedidos do governo chinês que causem impactos a qualquer pessoa de fora da China”, afirmou a companhia.

Uma porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China afirmou nessa quinta-feira que não tinha “ouvido sobre isso e não tinha informações a oferecer”. “Essa não é uma questão diplomática”, disse ela a jornalistas em uma entrevista coletiva.

Relação do Zoom com a China

A sede do Zoom fica na Califórnia, mas a empresa tem laços com a China. Mais cedo, neste ano, descobriu-se que a encriptação utilizada pela plataforma era inadequada e que parte de seus dados era roteada através de servidores chineses.  Depois foi dito que consumidores pagantes poderiam evitar que seus dados fossem roteados através de servidores em regiões específicas.

A empresa utiliza desenvolvedores chineses desde o início de suas operações – o departamento de pesquisa e desenvolvimento na China tem mais de 700 funcionários –, prática que o Zoom anunciou em seu relatório anual que poderia “nos expor ao escrutínio do mercado com relação à integridade de nossas soluções ou recursos de segurança de dados”.

O CEO do Zoom, Eric Yuan, disse à CNN há alguns meses que, com o aumento das tensões entre Washington e Pequim, a plataforma poderia ter de ajustar os laços com a China. 

A empresa já anunciou planos para abrir novos centros de pesquisa e desenvolvimento nos estados norte-americanos do Arizona e da Pensilvânia. Yuan sugeriu Denver, Ohio ou Virgínia como outros locais possíveis. “Se as coisas piorarem, temos um plano”, disse ele.

(Texto traduzido, clique aqui e leia o original em inglês.)

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