Cientistas encontram flores de 99 milhões de anos perfeitamente preservadas

Achados exibem características idênticas às observadas em flores em áreas propensas ao fogo, como as regiões únicas de fynbos, bioma da África do Sul

Eophylica priscatellata, uma das duas flores descobertas perfeitamente preservadas em âmbar
Eophylica priscatellata, uma das duas flores descobertas perfeitamente preservadas em âmbar Reprodução / Shuo Wang

Katie Huntda CNN*

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Flores descobertas perfeitamente preservadas em blocos de âmbar floresceram aos pés de dinossauros, sugerindo que algumas plantas com flores na África do Sul, permaneceram inalteradas por 99 milhões de anos, revela um novo estudo publicado na revista Nature Plants na segunda-feira (31).

As duas plantas floresceram no que hoje é Mianmar e podem esclarecer como as plantas com flores evoluíram — um episódio importante na história da vida que já foi descrito por Charles Darwin como um “mistério abominável”.

As flores são efêmeras: florescem, se transformam em fruto e depois desaparecem. Como tal, flores antigas não estão bem representadas no registro fóssil, tornando-as — e a história que elas carregam — particularmente preciosas.

“As folhas geralmente são produzidas em maior número que as flores e são muito mais robustas, além de apresentarem maior potencial de preservação. Uma folha é descartada ‘como está’ no final de sua vida útil, enquanto uma flor se transforma em fruto, que então é comido ou se desintegra como parte do processo de dispersão de sementes”, disse o autor do estudo, Robert Spicer, professor da Escola de Ciências do Meio Ambiente, Terra e Ecossistemas da Universidade Aberta, no Reino Unido.

“Essas flores em particular são quase idênticas às suas parentes modernas. Realmente não há grandes diferenças”, acrescentou Spicer, que também é professora visitante no Jardim Botânico Tropical Xishuangbanna, na China.

Acredita-se que a evolução e disseminação de plantas com flores (angiospermas) tenham desempenhado um papel fundamental na formação de grande parte da vida como a conhecemos hoje, como a diversificação de insetos, anfíbios, mamíferos e pássaros e, finalmente, marcou a primeira vez em que a vida em terra se tornou mais diversificada do que no mar, de acordo com o estudo.

“As plantas com flores se reproduzem mais rapidamente do que outras plantas, têm mecanismos de reprodução mais complexos — uma ampla variedade de formas de flores, por exemplo, muitas vezes em estreita ‘colaboração’ com polinizadores. Isso impulsiona a coevolução mútua de muitas linhagens de plantas e animais, moldando ecossistemas”, disse Spicer.

/ Reprodução / Shuo Wang

Uma das flores preservadas em âmbar foi nomeada pelos pesquisadores Eophylica priscatellata e a outra Phylica piloburmensis, o mesmo gênero das flores Phylica que são nativas da África do Sul atualmente.

Mistério resolvido?

O aparecimento repentino de plantas com flores no registro fóssil no período Cretáceo (145 milhões a 66 milhões de anos atrás), sem linhagem ancestral óbvia de períodos geológicos anteriores, intrigou Darwin. Parecia estar em contradição direta com um elemento essencial de sua teoria da seleção natural – que as mudanças evolutivas ocorrem lentamente e por um longo período de tempo.

Foi em uma carta particular ao botânico Joseph Hooker em 1879, publicada em um volume de 1903 das cartas de Darwin, que ele o descreveu como um “mistério abominável”.

Exatamente quando as plantas com flores surgiram ainda não está claro, disse Spicer, mas as primeiras flores preservadas em âmbar lançam alguma luz sobre o mistério.

Os espécimes exibem características idênticas às observadas em flores em áreas propensas ao fogo, como as regiões únicas de fynbos, bioma da África do Sul. Todas as 150 espécies de Phylica são nativas desta região biologicamente rica e diversificada. Eles também foram encontrados ao lado de um âmbar que continha plantas parcialmente queimadas.

“Aqui preservamos em âmbar todos os detalhes de uma dessas flores precoces exatamente no momento em que as plantas com flores começam a se espalhar pelo mundo, e mostra uma excelente adaptação a ambientes sazonalmente secos que sustentam a vegetação exposta a frequentes incêndios florestais”, disse Spicer.

“Se muitas das primeiras flores foram expostas a incêndios em tais paisagens semi-áridas, isso explica por que as fases iniciais da evolução das angiospermas são tão mal representadas no registro fóssil — fósseis normalmente não se formam em áreas semi-áridas”, acrescentou.

Spicer disse que o fogo deve ter sido um evento frequente durante um longo período de tempo para que a evolução tenha modelado as flores em uma forma que pudesse lidar com o fogo e produzir sementes que pudessem encontrar o caminho para a superfície da terra queimada. No caso de Phylica, suas flores são protegidas por folhas que se aglomeram na ponta do galho.

Enquanto muitas samambaias, coníferas e algumas plantas com flores vistas hoje, como plátanos e magnólias, cresceram durante os tempos dos dinossauros.

Spicer disse que Phylica piloburmensis foi a primeira planta com flores conhecida a ter um parente quase idêntico vivo hoje.

Fósseis de âmbar da era dos dinossauros são encontrados apenas em depósitos do estado de Kachin, no norte de Mianmar, e preocupações éticas relacionadas a abusos de direitos humanos sobre a proveniência do âmbar da região surgiram nos últimos anos.

A Sociedade de Paleontologia de Vertebrados pediu uma moratória na pesquisa de âmbar proveniente de Mianmar após 2017, quando os militares do país assumiram o controle de algumas áreas de mineração de âmbar.

Spicer disse que o âmbar foi adquirido de vendedores locais antes de 2016 e foi legalmente obtido de acordo com as regras em vigor na época.

 

Este conteúdo foi criado originalmente em inglês.

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