Conheça o megaiate nuclear projetado para salvar o mundo

Movido por reator de sal fundido, tipo moderno de reator nuclear, e sem emitir CO2, Terra 300 é projeto que mescla luxo dos superiates com a pesquisa científica

O Terra 300 quer mesclar o luxo dos superiates com a pesquisa científica para criar um meganavio livre de emissões
O Terra 300 quer mesclar o luxo dos superiates com a pesquisa científica para criar um meganavio livre de emissões Cortesia/Earth 300

Jacopo Priscoda CNN

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Símbolo máximo de riqueza, os superiates tiveram um grande aumento na demanda durante a pandemia, à medida que os ultra-ricos ansiavam por privacidade e distanciamento social em sua forma mais luxuosa e exclusiva.

Os pedidos fluíram, aumentando a frota global crescente de milhares de superiates – definidos como barcos de luxo com pelo menos 25 metros de comprimento e tripulação profissional.

Grandes superiates têm um impacto desproporcionalmente negativo no planeta. De acordo com um cálculo feito por antropólogos da Universidade de Indiana, um superiate que tenha uma tripulação permanente, um heliporto, submarinos e piscinas emite mais de 7.000 toneladas de CO2 por ano.

Multiplicado por 300 – aproximadamente o número de superiates em todo o mundo que cabem nessa conta – isso equivale a mais de 2 milhões de toneladas de CO2, mais do que as emissões anuais individuais de cerca de um quarto de todos os países do mundo.

Agora, uma nova proposta para esse tipo de embarcação visa alavancar a aura de luxo do superiate e mesclá-lo com a pesquisa científica para criar um meganavio livre de emissões que reunirá cientistas do clima e os ricos em uma ousada busca para salvar o planeta.

“Por que não pegar as pessoas mais ricas do mundo, reuni-las com os cientistas mais inteligentes e brilhantes e permitir que experimentem em primeira mão o que está acontecendo?”, questiona Aaron Olivera, empresário nascido em Gibraltar, residente em Singapura, que está por trás da ideia.

“As pessoas ricas podem entrar na Internet e comprar o que quiserem, mas não podem comprar um novo modelo mental para ver o mundo.”

Supercomputador flutuante

Se for construído, o novo navio, batizado de Terra 300 (Earth 300, no original em inglês) em referência ao seu comprimento de 300 metros, destronaria até mesmo o maior superiate do mundo – o Azzam de 179 metros, de propriedade da família real de Abu Dhabi.

O projeto preliminar é elegante e ousado, com uma esfera única de 13 andares que abrigará duas dúzias de laboratórios científicos. Eles coletarão dados das viagens do navio para, com sorte, encontrar soluções que ajudem a mitigar a crise climática.

Se for construído, o Terra 300 destronaria até mesmo o maior superiate do mundo – o Azzam, de 179 metros
Se for construído, o Terra 300 destronaria até mesmo o maior superiate do mundo – o Azzam, de 179 metros / Cortesia/Earth 300

Desenvolvido em uma plataforma de código aberto para permitir que a comunidade global participe, eles será apoiado por um computador quântico, um novo tipo de computador que emprega as propriedades da mecânica quântica para atingir velocidade e potência incríveis.

Como grande parte da tecnologia que Olivera espera incorporar ao Terra 300, o computador quântico ainda não está disponível comercialmente, mas atualmente é objeto de estudos experimentais por empresas como Google e IBM.

A maior parte da capacidade do navio, de 425 pessoas, será ocupada por dois grupos principais: 165 tripulantes e 160 cientistas.

Haverá também 20 alunos e um grupo de 20 especialistas residentes – economistas, engenheiros, exploradores, artistas, ativistas e políticos – formando um “caldeirão multidisciplinar”, diz Olivera.

Os únicos hóspedes pagantes serão turistas ricos que ocuparão as 20 suítes VIP do navio, a um custo projetado de pouco mais de US$ 1 milhão por pessoa, para financiar a ciência.

Mas esqueça a exclusividade.

“Este navio será um computador flutuante que permitirá que pessoas de todo o mundo participem da jornada. Isso significa que esses indivíduos ricos que estarão a bordo terão que compartilhar a experiência com o mundo, não apenas entre eles”. disse Olivera.

Uma embarcação global

Megaiate Terra 300 foi projetado para ser totalmente livre de emissões de CO2
Megaiate Terra 300 foi projetado para ser totalmente livre de emissões de CO2 / Cortesia/Earth 300

Olivera diz que prevê que o Terra 300 se torne um objeto icônico de sua geração e faz comparações com a tocha olímpica e a torre Eiffel.

“Estamos construindo este navio porque a mudança climática é um problema global, então ela precisa de um veículo global”, diz ele, acrescentando que os oceanos são o coração pulsante do planeta, porque absorvem a maior parte do carbono.

Mas ele também queria que as pessoas se reunissem em um ambiente confinado, experimentando algum senso de aventura e até mesmo perigo.

“Os laços feitos em um navio são muito diferentes dos feitos em um edifício estático. Quando foi a última vez que você teve uma aventura dentro de um edifício?”

Olivera, que tem experiência no mundo do luxo e da hospitalidade em Singapura, diz que a inspiração para o Terra 300 veio quando ele estava mergulhando nas Maldivas e viu os corais morrendo.

Ele vê o navio como uma forma de combinar dois mundos em conflito – luxo e ambientalismo.

“Queremos criar uma nova marca de explorador esclarecido, para virar a maré na maneira como as pessoas veem os ricos e mostrar que podem e devem liderar o caminho”, diz ele.

A ideia de um navio de pesquisa de luxo não é inteiramente nova. REV Ocean, um projeto similar da Noruega, é um superiate de 180 metros de comprimento estimado em US$ 350 milhões, e projetado para investigar a pesca predatória, as mudanças climáticas e a poluição por plástico.

Financiado pelo magnata da pesca e da perfuração de petróleo Kjell Inge Røkke, deveria ser lançado em 2022, mas o projeto foi adiado por três a cinco anos devido a problemas com a construção do navio.

Em US$ 700 milhões, o custo projetado do Terra 300 é o dobro do REV Ocean, e Olivera está procurando estaleiros na Alemanha e na Coreia do Sul para a construção.

Ele diz que o projeto preliminar do navio e a engenharia naval foram concluídos e espera estar pronto para uma viagem inaugural nesta década.

“Acho que 2025 é possível para nós. É apenas uma questão de a escassez de chips ser resolvida nos próximos seis meses, mais ou menos, e termos todo o financiamento em vigor”, diz ele, acrescentando que o dinheiro virá de investidores privados e também de “instrumentos bancários tradicionais”.

Movido por energia nuclear?

Aaron Olivera, empresário por trás do projeto, quer empregar sistema de propulsão usando tecnologia nuclear experimental
Aaron Olivera, empresário por trás do projeto, quer empregar sistema de propulsão usando tecnologia nuclear experimental / Cortesia/Earth 300

Inicialmente, o navio usará combustíveis sintéticos verdes, mas para satisfazer a exigência de ser totalmente livre de emissões, Olivera planeja, eventualmente, reformar um reator de sal fundido, um tipo moderno de reator nuclear.

Isso permitiria ao navio permanecer no mar por tempo indeterminado, com total autonomia energética. Assim como o computador quântico, no entanto, essa tecnologia ainda não existe, mas está sendo desenvolvida pela empresa britânica Core Power em colaboração com a TerraPower, uma empresa de engenharia nuclear presidida por Bill Gates.

É uma das várias entidades que anunciaram laços com o projeto, incluindo a IBM, o estúdio de arquitetura naval Iddes Yachts e a empresa de classificação de navios RINA.

Quando questionado sobre quais pessoas famosas ele gostaria de ter a bordo, Olivera responde com uma lista de nomes que ele chama de “os suspeitos de sempre”: Elon Musk, Michelle Obama, Greta Thunberg, a autora de “Sem Logo” Naomi Klein e fundadora da marca de roupas Patagonia Yvon Chouinard.

Seu plano, no entanto, é emparelhar esses VIPs com um conjunto de “pessoas muito inspiradoras” não famosas de todas as esferas da vida, de todas as idades e de todas as culturas, que não teriam que pagar pelo ingresso, mas ainda assim conseguiriam ficar em uma das suítes luxuosas.

“É assim que estamos democratizando a experiência, ao permitir o embarque de pessoas que nunca poderiam – em um milhão de anos – pagar pela passagem.”

(Texto traduzido; leia o original em inglês)

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