6 perguntas para o CEO da Maison Krug, casa centenária de champanhes
Presidente da marca francesa ressalta a exclusividade dos rótulos e a aliança com a gastronomia, jogando luz aos processos da Maison e ao interesse do público latino-americano

Fundada em 1843 em Reims, na região de Champagne, na França, a Maison Krug permanece, após seis gerações, como uma das casas de champanhe mais idolatradas do mundo. Faz parte hoje do conglomerado de luxo LVMH, mas persiste em uma estratégia que vai na contramão da produção em massa.
Entram nessa conta trabalho manual, longas provas, amplo estoque de reserva e tempo elevado de envelhecimento dos champanhes, com um mínimo de sete anos. Nascida das mãos de Joseph Krug, a filosofia da Maison se mantém: vinificar cada parcela de vinhedo individualmente, em pequenos barris de carvalho, o que resulta em centenas de vinhos-base a cada ano.
"A história da Maison baseia-se num conceito muito simples: oferecer a mais generosa expressão de Champagne independente das condições climáticas", resume Manuel Reman, CEO da Maison Krug. O rótulo Krug Grand Cuvée é exemplo máximo, cuja 173ª edição chegou ao Brasil em agosto. Ele reúne 150 vinhos de 13 safras diferentes, sendo a mais antiga de 2001, e tem preço sugerido de R$ 2.600. Além dele, outros dois rótulos desembarcaram por aqui: o Krug Rosé 29ème Édition (R$ 4.600) e o vintage Krug 2011 (sem valor sugerido por enquanto).
Em conversa com o CNN Viagem&Gastronomia, o CEO da Krug reconhece que entusiastas do país enfrentam dificuldades em obter as garrafas por conta dos altos impostos. Enxerga também que as celebrações ainda são o grande mote do champanhe, mas a evolução está na aliança com a gastronomia - todos os anos, a Maison escolhe um ingrediente protagonista para harmonizações, como a cenoura em 2025.
O restaurante Kinoshita, em São Paulo, é a única "embaixada" da marca na América do Sul, onde um tempurá de cenoura feito com frutos do mar sob imersão foi a receita elaborada seguindo o tema. No fim, a ideia não é apenas fazer um champanhe para ser comprado, mas que crie experiências.
Abaixo, confira a entrevista com o francês Manuel Reman, CEO da Maison Krug:
CNN Viagem&Gastronomia: Qual é o futuro do champanhe? Acha que ele atenderá a um público mais exclusivo e produzirá menos garrafas, ou vê espaço para um consumo mais democrático?
Manuel Reman: Champanhe sempre foi considerado um produto excepcional, para celebração em grandes ocasiões e momentos significativos. Acredito que isso não mudará, mas está evoluindo.
Temos visto uma fragmentação da categoria nos últimos anos, com cada vez mais produtores buscando se destacar e criar vinhos de terroir com personalidade, que contam uma história. Dessa forma, o champanhe é cada vez mais convidado para o mundo da gastronomia, bem como para as mesas de entusiastas e conhecedores de vinho. Acredito que ainda há muitos países que estão apenas começando a sua descoberta do champanhe; penso em certos países da América Latina, alguns do Sudeste Asiático, África, Índia ou China.
Em poucos anos, quando o champanhe tiver encontrado o seu lugar, se todos fizermos bem o nosso trabalho, então sim, haverá mais exclusividade, mais escassez. Mas acredito que a ambição de todos é permanecer acessível, continuar a oferecer degustações e nunca se contentar em ser apenas um produto desejado que é simplesmente comprado. Devemos nos desafiar continuamente, seduzir as novas gerações. É um desafio extraordinariamente estimulante.
CNN V&G: Para a Krug, o que significa oferecer uma experiência verdadeiramente luxuosa hoje em dia?
MR: Desde a fundação por Joseph Krug em 1843, a história da Maison baseia-se num conceito muito simples: oferecer a mais generosa expressão de Champagne independente das condições climáticas. Acima de tudo, o desejo por excelência e prazer é o que nos move.
Mas, para além de dedicar nosso tempo e energia à elaboração de champanhes que queremos que sejam cada vez mais complexos, precisos e prazerosos, tentamos transmitir a nossa visão por todo o mundo através de experiências gastronômicas, desde restaurantes três estrelas a bistrôs ou em meio à natureza. A marca registrada dessas experiências, é, acima de tudo, criar momentos de conexão.
É uma conexão com o passado, com a história e o savoir-faire da casa, mas também uma conexão consigo mesmo e com as próprias sensações. Honestamente, isso às vezes pode acontecer de formas muito simples, como descobrir uma harmonização entre um Krug Rosé e uma pizza de lagostim, como fizemos neste verão no hotel Le Bristol, em Paris, com o chef Arnaud Faye, campeão mundial de pizza.

CNN V&G: Como a filosofia de tratar cada parcela individualmente é traduzida na taça para alguém que prova Krug pela primeira vez?
MR: Tive a sorte de viajar pelo mundo e conhecer muitas pessoas que são fãs de Krug. Frequentemente, eles o amam sem conhecer as especificidades do nosso processo de elaboração. Quando tenho a oportunidade de explicar este princípio de individualidade, onde cada pequena parcela é tratada como um vinho único, e algumas dessas parcelas são reservadas para criar mais de 150 vinhos de reserva que datam de quase 20 anos… então eles entendem e colocam em palavras o que amam na Krug: a precisão e a complexidade, que são as duas palavras que surgem com mais frequência quando lhes perguntamos o que apreciam.
CNN V&G: Como a Krug vê o crescimento do mercado latino-americano, particularmente o Brasil, no que diz respeito ao consumo de champanhes?
MR: Serei honesto. Há muitos entusiastas de grandes vinhos e champanhes na América Latina, particularmente no Brasil. São pessoas apaixonadas, ansiosas por descobrir, provar, entender e compartilhar. Hoje, esses entusiastas enfrentam grandes dificuldades para obter as suas garrafas favoritas devido a impostos relativamente altos.
No entanto, isso não deve nos desencorajar de visitar esses países, de continuar a apresentar nossas cuvées, compartilhar nosso savoir-faire e interagir com esses apreciadores. É nosso dever, mas também um prazer tremendo. E quem sabe, talvez um dia, esses impostos diminuam, evitando que eles tenham de trazer uma ou duas garrafas na bagagem em cada viagem, o que, no final, seria benéfico para o país.
CNN V&G: O Krug Grande Cuvée é recriado a cada ano. Como vocês garantem o mesmo nível de excelência apesar das diferenças nas safras e condições climáticas?
MR: Você tem razão, o objetivo é alcançar o mesmo nível de excelência, o mesmo tipo de sensação. No entanto, não existe uma receita, e cada ano traz uvas diferentes, então o sabor do Grande Cuvée pode variar ligeiramente de uma edição para outra.
Acredito que, para atingir este nível de excelência, existem três locais-chave. Primeiro, no vinhedo, onde sempre que observamos uma diferença na idade do plantio, na orientação ou na estrutura do solo, consideramos uma parcela como um vinho individual único e a tratamos de acordo. A data da colheita, por exemplo, é essencial para alcançar aquelas notas cítricas tão típicas da Krug — o frescor, a precisão e a tensão que amamos acima de tudo.
O segundo local-chave para a Krug é a sala de degustação, onde o comitê de degustação, sob a direção de Julie Cavil, provará os 250 vinhos-base e os 150 vinhos de reserva para propor um assemblage. Finalmente, o terceiro local crítico para nós é a adega, onde nossas garrafas repousam por um período mínimo de sete anos, permitindo que a complexidade se some à precisão.
CNN V&G: Qual o seu momento favorito para desfrutar um champanhe — e com quem?
MR: Darei duas respostas. Eu realmente gosto de abrir uma garrafa de Krug com entusiastas da Maison, grandes conhecedores com quem passamos horas discutindo a safra e os vinhos de reserva que sustentam a taça diante de nós, falando sobre as diferenças aromáticas entre este Grande Cuvée e as memórias que temos ou outras edições.
Mas há outro momento que talvez eu valorize ainda mais, que é abrir uma garrafa de Krug com alguém que nunca o provou antes, alguém com pouco ou nenhum conhecimento de vinho ou de champanhe. Observar a sua reação e tentar obter deles palavras autênticas, naturais e instintivas. Há sempre magia em cada um desses momentos.


